Nunca havia pensado em ter sentimentos por Carlos, talvez seja toda aquela tensão do Pedro e Carlos por causa da invasão da divisa das fazendas, tenha me deixado aérea. Meu amigo sempre esteve ao meu lado, fomos criados juntos desde que nascemos. Minha mãe ajudou bastante seu pai quando sua esposa veio a falecer, então acabamos dormindo juntos, sem contar de ir a escola e estar na mesma sala. E era apenas isso, nada mais que uma bela amizade. Só foi um momento de tensão e o comportamento estranho de Carlos que me deixou intrigada.
— Aonde vocês estavam, posso saber? — Sabrina colocou as mãos nas cintura com os olhos cerrados encarando-nos.
Colocamos os cavalos nos estábulos e fomos para a mansão, sentindo o cheiro de café recém feito, pão e bolo de fubá, mas primeiro temos que encarar a Sabrina, minha mãe, que estava bufando as ventas por ter sumido da mansão.
— Fabiana, te procurei em todos os cantos.
— Não em tudo, ao menos — dei uma risada baixa e levei um beliscão de Carlos, olhei para ele fazendo uma careta. Tirei o meu chapéu antes de voltar a olhar minha mãe — Desculpa, não irá se repetir.
— Espero mesmo, Fabiana. — sentindo o toque de seus dedos em minha testa colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha — Seu pai está para chegar, foi ajudar nos preparativos da feira.
Ah, a feira! Senti um frio na boca do estômago. Lembrando do que Pedro Rodríguez havia dito, iremos nos encontrar por lá. Meu coração perde o compasso só de imaginar vê-lo novamente, como se eu tivesse flutuando nas nuvens, ou correndo com Fúria Branca pelas estradas de terra. Sentindo o vento tocar em minha pele, não havia sentido nada parecido com isso. Uma ansiedade enorme para ver um rapaz como Pedro, sempre vivi ao lado de Carlos e não sentia nada parecido como senti ao lado do Rodríguez. Talvez seja alguma novidade, ou aquele sorriso que me tirou o fôlego.
Todos os anos tem uma feira na cidade, com música ao vivo, fogueira, vendas de bolo, milho cozido, quentão, vinho quente e muito mais. Mesmo sendo verão, as noites são frias, deve ser por conta das montanhas e das florestas em volta da cidade. Não é tão frio, mas tem uma brisa gelada e o povo gosta de fazer um bom caldo e até mesmo feijoada. Os fazendeiros aproveitam para mostrar seus produtos, por ser uma feira anual, aparecem muitos empresários e turistas querendo conhecer a nossa grande festa. Nunca gostei de carnaval, mas a feira é um sonho, uma animação que só o povo daqui tem.
— Os filhos do Rodríguez voltaram — papai comentou entrando na sala de jantar, colocando seu chapéu na cadeira vazia ao seu lado —, Rodríguez se foi tão jovem, não consigo acreditar que os garotos ficaram órfãos.
— Vou pedir para Paula preparar uma boa torta de frango e milho para eles e enviar meus sentimentos para ele. — comentou mamãe pegando sua xícara de café e levando para os lábios.
— Encontrei com o Pedro Rodríguez… — comecei a falar baixinho, enquanto pegava a faca para cortar mais um pedaço de bolo de fubá —, ele estava reclamando que invadi as terras do pai dele.
— Onde você estava, Fabiana? — vociferou me advertindo — Não quero você andando por aí — quando estava indo me justificar, papai continuou — Não importa no momento, mas considere como advertência, quero saber o motivo dele pensar que aquelas terras é dele. — brandou levantando o dedo indicador e apontando em direção ao lago, que está a quilômetros de distância da mansão — Todos sabem que Rodríguez me vendeu uma boa parte da terra, pois estava devendo horrores por causa de sua saúde precária.
— Ele estava doente? — pergunto espantada.
— Estava e muito, começou a gastar tudo que tinha até se afundar em dívidas, precisava de remédios caros e enfermeira vinte e quatro horas ao lado dele.
— Tadinho, deve ter sofrido muito — mamãe comentou.
— E muito querida — papai colocou a mão sobre a de Sabrina, ela sorriu toda carinhosa para ele, com brilhos nos olhos — Infelizmente, não resistiu mais que os anos disseram que teria. O irmão mais velho, desse Pedro — pegou sua xícara de café e tomou um gole —, tem vinte anos, está cuidado tudo e não desampara o irmão caçula.
— Ele tem a idade da Fabiana, não é querido? — sentindo minhas bochechas queimarem por lembrar de Pedro sem roupas na minha frente, enfiei pedaços grandes dentro da boca — Cuidado para não se engasgar, Fabi. — Assenti para ela com a boca cheia e atolada com o bolo, mamãe encheu meu copo de suco de laranja e levei até minha boca para empurrar tudo que estava entalado no céu da boca.
Quando o relógio da sala bateu sete e meia da noite, Fabiano, meu pai, chamou eu e mamãe para entrarmos no carro. Iríamos para a feira, meus pais iram ficar próxima a barraca de vinhos da fazenda Torres por isso, mamãe está vestido uma calça de alfaiataria preta igual sua blusa, com colar longo com uma esmerada de pingente, papai está como ela, calça de alfaiataria preta e sua camisa branca de botões e mangas. Como não ficarei com eles a maior parte do tempo, escolhi um vestido florido, com fundo vermelho e flores brancas. Estava animada para encontrar com o rapaz do lago, meus dedos chegaram a formigar com tanta excitação que estava enquanto o carro seguia o caminho para o centro da cidade. Filas e mais filas de carros, demorou para chegar na grande praça, quando finalmente papai estacionou em uma vaga especial para quem estava com barraca na feira, saltei do carro correndo antes de ser advertida pela minha mãe.
— Tome cuidado, Fabiana — parei para ouvir com educação suas orientações —, tem muitas pessoas de fora, tem que tomar cuidado com o que está bebendo, comendo e com quem está falando.
— Procure o Carlos, deve estar ao lado da nossa barraca, ele irá te acompanhar para onde quiser ir.
— Pode deixar, amo vocês. — disse quando mamãe beijou minha testa.
— Também amamos você, Fabi — papai se aproximou me dando algumas notas para comprar o que eu quisesse na feira.
— Obrigada papai. — minha voz saiu toda animada, saí de perto deles com um sorriso enorme no rosto.
Andei em passos largos para chegar perto de Carlos, mas ao chegar vi o pai dele conversando com um dos compradores. Cheguei a perguntar onde estava seu filho, mas deu de ombros como se não soubesse para onde Carlos foi. Não queria procurar por meu amigo, queria mesmo encontrar com Pedro Rodríguez, se ele realmente veio para cá, logo irei vê-lo. Comecei a andar pela feira, olhando o que estava em exposição, havia até gado, ovelha, porco além de bolos, tortas e vários tipos de vinhos e sucos, sem contar com o famoso caldo da feira. Sentindo meu estômago roncar, vou em direção da barraca da Gabriella.
— Boa noite, Fabi. — ela quem me atende, já colocando o caldo no pote de isopor, jogando pedaços de bacon fritos e couve grelhado — Estava esperando por você — entrou para mim o caldo —, não precisa me pagar, além do mais você precisa comprar as fichas. — havia esquecido que esse ano irá funcionar com fichas, para não acontecer confusão como no ano passado, muitos clientes reclamaram dos troco errado ou da fila enorme pela demora do caixa na barraca — Quero que me fale como está, tenho medo de ter errado no sal.
Gabriella é uma mulher de mão cheia para fazer caldos, seu marido é dono de uma fazenda onde ela planta mandioca e outros alimentos, ele cuida dos porcos. Um dos motivos de ambos estarem todos anos reinando com o caldo, esse ano um dos porcos está em exposição, coisa mais linda que já vi.
Levei a colher de acrílico até os meus lábios, fiz um biquinho para assoprar antes de tomá-lo e provar o seu sabor. Quando finalmente minhas papilas percebem todos os temperos de Gabriella, olho para ela com um sorriso enorme no rosto.
— Está uma delícia — coloco a colher no pote novamente para pegar mais um pouco, depois de várias colheradas volto a falar — Sinceramente Gabriella, você tem mãos de fadas, está muito bom que comeria a panela inteira.
A moça de pele n***a escura, com turbante florido em tons caramelo, com um sorriso largo no rosto e olhos brilhando fica mais animada com o meu elogio.
— Tenho que concordar com a garota, está esplêndido, Gabriella — um senhor que não havia reparado estar ao meu lado comentou. — Vou querer mais um para levar para minha esposa.
Aproveitei a deixa para ir no caixa comprar fichas, quero ir na parte de diversão, todos os anos no qual participei, tento pegar aquele enorme urso de pelúcia caramelo de nariz marrom escuro e um laço enorme vermelho no pescoço. Nunca consigo, e nem mesmo qualquer morador que tenta ganha aquele maldito urso fofo do tiro ao alvo.
— Irá tentar novamente, Fabi? — Ulisses, o dono da barraca me entrega a espingarda com cinco balas.
— Claro, ei de conseguir pegar o urso. Já o vejo em meu quarto com essa enorme fita vermelha. — comentei me posicionado para mirar no alvo número treze, bendito seja esse número é que a sorte esteja ao meu lado.
O primeiro tiro passa de raspão, engoli em seco sentindo um fio de suor escorrer no meio da minha coluna. Segundo tiro disparado junto com mais uma frustração. Coloquei a espingarda sobre a bancada, levei minhas mãos aos fios do meu cabelo, juntando todos os fios em um r**o de cavalo e faço um coque alto dando nó com o próprio cabelo. Peguei a espingarda novamente e me inclinei para frente tentando ver algum ponto que não estava vendo, quando senti uma mão na minha cintura e outra deslizou pelo meu braço, sentindo a respiração da pessoa tocar em meu pescoço.
— Você não pode mirar reto. — pelo tom de voz sei que é o Pedro Rodríguez, o toque de sua mão na minha cintura é quente, chega a passar pelo tecido do vestido e tocar em minha pele. — Eles tem um truque, deixa a pontinha um pouco curvada para acertar errado.
Conduzindo para que eu mire certo desta vez, puxei o gatilho e o número treze caiu, Ulisses não sabia se ficava com raiva por eu finalmente acertar o alvo ou ficava feliz por eu ter realizado minha promessa dos anos anteriores.
— Devo lhe dar parabéns, Fabiana, não achava que iria conseguir ganhar ele algum dia. — comentou antes de pegar o urso. — Ele é todo seu — entregou para mim e Pedro ajudou a me ajeitar o urso em meus braços.
— Tenho que agradecer ao rapaz, se não fosse por ele não teria conseguido. — comentei com o rosto do urso colado no meu rosto.
— O mérito é seu, Fabiana. — sua mão tocou no meu antebraço — Agora venha, precisamos comemorar.