Era quase meia-noite na cela escura do pavilhão. O barulho dos cadeados pesados batendo nos portões de ferro dos corredores já tinha cessado há horas, dando lugar ao silêncio tenso e abafado do presídio.
O calor do Rio de Janeiro parecia brotar das próprias paredes de concreto, deixando o ar pesado, difícil de respirar, o cheiro de suor impregnado. DG se sentou na beirada da beliche de baixo, apoiando os cotovelos nos joelhos e encarando o chão de cimento áspero. Mesmo vestindo o uniforme padrão do sistema penitenciário, o cara ainda carregava a postura imponente de quem, até pouco tempo atrás, comandava um império inteiro.
Mas, na i********e daquela cela, a expressão em seu rosto entregava o peso de ter sido apunhalado pelas costas pelo próprio irmão e pela esposa.
Do outro lado do espaço reduzido, Piloto estava encostado perto das grades de ferro, com os braços cruzados sobre o peito e o olhar fixo no nada. O moleque não conseguia relaxar. Desde o horário de visitas daquela tarde, a mente dele estava presa no asfalto. A imagem de Maju não saía de sua cabeça: a irmã caçula parecia mais magra, com os olhos pretos e ondulados cheios de uma tristeza profunda, vestindo uma roupa jeans desbotada e segurando aquela sacola de feira quase vazia. Saber que ela estava sem comer e morando em um puteiro estava cortando as pernas do Piloto. O desespero de estar trancado ali dentro, sendo uma tortura.
DG ergueu a cabeça e observou o parceiro de cela por alguns instantes. Ele conhecia aquele olhar de derrota; já tinha visto muitos homens fortes desabarem ali dentro pelo mesmo motivo: a preocupação com quem ficou do lado de fora. Passando a mão pesada pela nuca, DG resolveu quebrar o silêncio e puxar o assunto que vinha matutando desde cedo.
— Ô Piloto, chega aí na disciplina — DG chamou, mantendo a voz num tom sério. — Tava aqui te olhando e pensando no sufoco da tua irmã, a Maju. Papo reto de homem para homem... Eu posso dar uma força para a preta sair daquela lama. Ela não merece estar passando por isso.
Piloto descruzou os braços na hora, dando um passo curto para a frente. O brilho de atenção e uma ponta de esperança surgiram imediatamente em seus olhos.
— Tu sabe como funciona o sistema aqui dentro, né, irmão? Uma mão lava a outra e as duas limpam o rosto — DG continuou, iniciando o negócio. — Se eu estender a mão para ela e resolver o problema de moradia dela, tu fica de boa de eu encostar na mesa de vocês em uma visita? Eu te ajudo com a menina lá fora e, em troca, quero só poder comer algo da hora quando o dia de pátio chegar. É isso que eu peço. Quero que ela traga uns rangos de verdade, uma comida caseira de responsa, com tempero bom, porque essa lavagem azeda do presídio não dá mais para engolir. Se tu autorizar eu colar com vocês para almoçar no dia de visita, eu resolvo a vida da Maju agora mesmo. Preciso trocar ideia com alguém da rua.
Piloto deu um meio sorriso, o primeiro em muitos meses, sentindo um alívio gigante bater no peito. A proposta parecia um milagre diante de toda a desgraça que vinha vivendo.
— Pô, DG, tu tá de s*******m comigo? Claro que tá de boa, meu irmão! A mesa é tua, o que tiver ali dentro é nosso — Piloto respondeu de pronto, com a voz carregada de sinceridade. — A Maju cozinha bem para caramba, aprendeu tudo com a minha mãe. O que tu pedir para ela fazer, ela faz com o maior gosto. Só de tirar a minha irmã daquela kitnet mofada e daquele ambiente horroroso, ela traz até banquete para tu. Nós divide tudo, sem caô.
DG assentiu com a cabeça, satisfeito com o trato firmado na base da palavra.
Ele se inclinou um pouco mais para a frente, diminuindo ainda mais o tom de voz para que nenhum preso da cela ao lado pudesse escutar o que viria a seguir.
— Então escuta bem o que eu vou te passar. Eu tenho um apartamento no asfalto, lá na Zona Norte mesmo, bem localizado, num prédio tranquilo e estruturado. Ela pode ir para lá e ficar o tempo que precisar, sem pressa e sem se preocupar com aluguel. O lugar tá fechado, mas tá em condições. Tem umas roupas minhas de marca lá dentro, casacos e camisas que comprei antes de rodar, que estão praticamente novos. Se ela quiser usar para dormir, ou até mesmo vender alguma coisa para fazer um trocado, pode ficar à vontade. O dinheiro que tá guardado lá no cofre não é muita coisa, não vai deixar ela rica, mas é o suficiente para ela se manter com dignidade, pagar as contas básicas, fazer as compras do mercado e organizar o nosso rango da visita sem passar aperto.
Piloto ouvia tudo sem nem piscar, quase sem acreditar na generosidade de DG, mas o tom sério do ex-chefe do morro também trazia um alerta.
— Só que tem um porém, Piloto — DG falou, fixando os olhos castanhos e pesados nos dele. — Eu preciso ter certeza absoluta, na pureza, de que a Maju não vai zoar o plantão, nem trair a nossa confiança. Aquele apartamento no asfalto é o meu único segredo que sobrou na pista. Nem a Samara sabia que aquele lugar existia, eu guardava como uma carta na manga para uma emergência extrema antes de toda aquela palhaçada da traição acontecer. Se aquela p*****a ou o RN descobrirem esse endereço, eles tomam o imóvel e ainda vão atrás da tua irmã. Por isso, o sigilo tem que ser total.
Piloto nem hesitou. Deu mais um passo, batendo com a palma da mão direita firme contra o próprio peito, garantindo com a própria vida se fosse necessário.
— A preta é firmeza, pô! Pelo amor de Deus, DG, bota fé no que eu tô te falando aqui. A Maju é menina de família, foi criada na rédea curta comigo, a mente dela é totalmente pura e não tem nada a ver com maldade de crime. Ela nunca, em hipótese alguma, ia vacilar com quem tá estendendo a mão para salvar a vida dela. Se existe uma pessoa nesse mundo em que eu ponho a minha mão no fogo sem medo de me queimar, é na minha irmã. Ela é fechamento puro, lealdade acima de tudo.
DG estudou o rosto de Piloto por alguns segundos em silêncio. Ele tinha faro para mentira e sabia reconhecer quando um homem estava falando a verdade impulsionado pelo amor à família. Vendo a determinação e a retidão no olhar do rapaz, DG relaxou os ombros e deu um tapa de leve no joelho de Piloto.
— Fechou então, tá combinado. Amanhã, no pátio, tu liga pra ela e vai assar o endereço certinho, junto com a senha do cofre que fica escondido no fundo do armário do quarto. Explica tudo com calma para ela não errar. Ela vai lá, pega o dinheiro, se muda e começa ajeitar a vida.
Piloto sentiu a garganta dar um nó apertado e seus olhos marejaram de verdade. Ele desviou o rosto por um segundo para tentar segurar a emoção, engolindo o choro para não demonstrar fraqueza, mas o alívio que sentia era tão grande que parecia que um peso de dez toneladas tinha sido retirado de cima das suas costas. Saber que sua irmãzinha estaria segura, num apartamento bom no asfalto, longe da humilhação da kitnet e com dinheiro para comer, era tudo o que ele mais pedia em suas orações todas as noites naquela cela fria.
Ele voltou a olhar para DG, estendendo a mão direita com firmeza para cumprimentar o parceiro.
— Cara... Eu vou te dever essa pelo resto da minha vida, DG — Piloto falou, com a voz um pouco embargada, mas cheia de uma gratidão que não cabia no peito. — Tirar a minha irmã daquela situação de miséria e dar um teto digno e seguro para ela... Isso para mim é uma dívida eterna, que dinheiro nenhum paga. O que tu precisar de mim aqui dentro, ou quando a gente ganhar a liberdade lá fora, eu sou teu soldado até o fim do mundo. Minha vida agora é tua.
DG apertou a mão de Piloto com força, selando o pacto de sangue e respeito entre os dois, sabendo que, no meio de tanta traição, tinha acabado de ganhar um aliado de verdade.