O barulho da tranca de ferro batendo e o estalo do cadeado avisaram que a liberdade tinha ficado lá fora. Marcos caminhava pelo corredor pisando firme, com as mãos fechadas dentro dos bolsos da bermuda e os dentes travados de tanta raiva. O sangue subia para a cabeça e ele m*l via os outros presos no caminho. Sua mente só pensava na imagem de Maju, magrinha, com a boca tremendo, contando a covardia que tinham feito com ela.
Quando o guarda abriu a grade da cela 4 e Marcos entrou, ele parecia um bicho bravo. Jogou a sacola de feira em cima do beliche com força e deu um soco na cama, soltando um grito, cheio de ódio.
DG, que continuava deitado na esteira no chão com os braços atrás da cabeça, nem se mexeu de começo. Só virou o pescoço devagar, olhando a fúria do companheiro. Ele conhecia bem aquele estado de mente. Viu que o Piloto tinha voltado da visita com o coração virado do avesso.
— Que p***a é essa, Piloto? — DG perguntou, com a voz rouca e calma. — Voltou da visita com o cão no couro, parceiro? Teu rosto tá parecendo o de quem tomou um prejuízo sinistro na rua. Qual foi o caô? A tua irmã não veio?
Marcos passou as duas mãos pelo rosto, puxando a pele com força para tentar acalmar. Ele começou a andar de um lado para o outro no espaço apertado da cela, respirando fundo, parecendo um animal.
— Não, irmão... A Maju veio sim. Minha preta é firme, não me abandona por nada — Marcos soltou, com a voz tremendo de nervoso. — O problema não é ela, DG. O problema é a safadeza que os caras lá do meu morro arrumaram. O bagulho tá muito pior do que eu imaginava. Minha cabeça vai explodir.
DG se sentou na esteira, apoiando os braços nos joelhos. Aquela revolta do Piloto atiçou a malícia dele. No crime, quando um cara de palavra ficava daquele jeito, é porque a traição tinha sido feia. E sido, custava a vida.
— Papo reto, solta a voz aí — DG falou, pegando um cigarro de trás da orelha e acendendo. — Tamo lado a lado nessa mer.da aqui há dez meses, parceiro. Tu sabe que o que tu fala aqui dentro não sai. Qual foi a mancada que deram contigo lá fora?
Marcos parou de andar, olhou para a grade para garantir que nenhum guarda estava por perto e sentou na beira da beliche de concreto, bem perto do colega.
— DG, o Nanico é um verme, cara. Aquele safado me armou aquela casinha para eu ser preso, tu lembra, né? Eu já sabia que a queda tinha sido armação dele. Só que o desgraçado não parou por aí não.
— O que ele fez? — DG tragou o cigarro, prestando atenção.
— O cara simplesmente botou a Maju para fora do morro, irmão! — Marcos soltou, e uma lágrima de puro ódio desceu pelo seu rosto, que ele limpou rápido com a mão. — Assim que o juiz me condenou, ela voltou para a favela de coração quebrado, querendo só a nossa casa para chorar. O Nanico barrou ela na entrada. Juntou os garotos armados dele, apontou o fuzil para a minha irmã e disse que eu era X9, que eu tinha entregado o esquema para a polícia. Falou que se ela pisasse na Rocinha de novo, ia morrer e o corpo ia parar na vala.Ele deu um apavoro na minha preta.
DG soltou a fumaça devagar, mas o olhar dele ficou frio. Mentir sobre o proceder de um homem, acusar o cara de ser cagueta e ainda mexer com a família de quem foi preso era a maior falta de caráter que existia.
— Mentira de safado — DG murmurou, com a voz baixa. — Tu segurou o rojão no peito, não abriu o bico para os policiais e o cara inventa uma dessas na rua para sair de herói e tomar o teu lugar? p**a que pariu. Os caras perderam o respeito. E a moleca? Foi para onde?
— Mano, a Maju está sofrendo o pão que o d***o amassou — Marcos continuou, revoltado. — Ela teve dez minutos para pegar umas roupas correndo na nossa casa com um bandido colado atrás dela. Ela conseguiu pegar um dinheiro que eu tinha escondido embaixo do piso, mas o dinheiro acabou. Ela está morando numa kitnet fuleira aqui na Zona Norte, num lugar que funciona de fachada para um bordel de quinta categoria. Está fazendo faxina, cuidando de criança para conseguir pagar o aluguel e não ser jogada na rua.
Marcos deu um soco no próprio joelho, inconformado.
— A barriga dela roncou de fome lá fora, DG! O estômago da garota estava fazendo barulho na minha frente. Ela está deixando de comer, passando fome, só para juntar o dinheiro dos b***s para comprar comida e trazer para mim aqui dentro. Ela trouxe arroz com bife para mim... e mentiu dizendo que ia almoçar depois, que tinha um salgado esperando ela na rua. Mentira pura! Minha irmã está desamparada por causa daquele verme do Nanico.
DG ouviu tudo em silêncio, deixando o cigarro queimar. Ele conhecia o peso de ver a família sofrer por conta da vida bandida. Mas o que mais pegava ali era a falta de postura do atual chefe da Rocinha. Aquilo não era o certo.
— Papo reto, Piloto... — DG jogou a bituca do cigarro fora e olhou nos olhos de Marcos. — Tu sabe qual é a minha situação lá fora. Eu estou desconfiado até da minha sombra. Se a Samara não veio hoje e eu não consegui nem falar com ela, é porque a Penha também deve estar de cabeça para baixo e o meu lugar foi roubado. Mas eu vou te falar uma verdade de homem.
DG se inclinou para a frente, apontando para o peito de Marcos.
— Nós estamos juntos nessa cela desde o primeiro dia. Tu é moleque de palavra, segurou a bronca e mostrou que é leal. Se o Nanico te passou para trás e zuou a tua irmã, ele assinou a própria sentença de morte. Assim que a liberdade cantar, essa cobrança aí vai entrar na minha conta também. Nós vai descer na Rocinha com o bonde. Eu vou contigo pessoalmente caçar esse safado. Ele vai pagar centavo por centavo do que fez a tua irmã passar. X9 é o c*****o, ele vai ver o que acontece com quem mexe com a família dos outros.
As palavras de DG bateram no peito de Marcos com uma força absurda. Ouvir o cara mais temido da Penha fechar com ele daquela forma, prometendo apoio para vingar a humilhação de sua irmã, deu ao Piloto uma ponta de esperança.
— Obrigado, parceiro. Papo de irmão mesmo — Marcos falou, respirando um pouco mais aliviado.
Tentando mudar o clima pesado daquelas quatro paredes de concreto, Marcos puxou a sacola de feira que estava em cima da cama. Ele desfez o nó do plástico e tirou de lá os potes, que exalavam um aroma doce, quebrando o cheiro r**m da cela.
— Mas ó... a preta é f**a, cara. Olha o que ela mandou para nós — Marcos deu um sorriso de canto, orgulhoso, mostrando o conteúdo. — Ela mandou umas frutas e um bolo de fubá caseiro, daqueles bem amarelinhos, que ela mesma comprou com o dinheiro suado da faxina. Ela ainda me deu o papo para eu dividir contigo aqui dentro.
DG olhou para o pote e, pela primeira vez no dia, o rosto de pedra dele se desfez. Um sorriso sincero surgiu ali. Ele esticou a mão, pegou uma banana, descascou e deu uma mordida, enquanto Marcos abria o pote do bolo e cortava um pedaço generoso para o companheiro. DG pegou o pedaço de bolo de fubá, que estava bem macio.
Ele levou o bolo à boca e mastigou devagar, saboreando. O gosto de comida de verdade, feita com carinho, era um luxo que nenhum dinheiro comprava ali dentro.
— c*****o, Piloto... — DG falou, limpando uma migalha do canto da boca com o dedo. — Bagulho é bom mesmo. Eu estava com gosto de quentinha estragada na boca há semanas. É bom demais comer um bolo caseiro assim, de verdade. Tem gosto de infância, de quando a gente não era nada e só pensava em jogar bola na rua.
— Não falei? A Maju tem a mão boa para essas coisas — Marcos sorreu junto, pegando uma maçã para ele e comendo um pedaço do bolo também, sentindo o estômago finalmente se confortar. — Ela é o meu ouro, DG. Por isso que eu quase morri de ódio lá fora.
— Ela é relíquia, irmão — DG disse, comendo mais um pedaço de bolo e apontando para o Marcos. — Valoriza essa garota. Mulher assim na rua a gente não acha mais não. Enquanto as dondocas que eu bancava devem estar gastando meu dinheiro com outro agora que eu estou trancado, a tua irmã está fazendo faxina e passando fome para te trazer fruta e bolo de fubá na cadeia. O Nanico mexeu com a pessoa errada. Ele achou que ela estava sozinha, mas ela tem dois caras aqui dentro que vão revirar o Rio de Janeiro por ela assim que essa tranca abrir.
Os dois continuaram ali, sentados lado a lado na cela escura, comendo as frutas e o bolo de fubá da Maju em silêncio. O ódio ainda estava vivo no peito de Marcos, mas agora ele tinha uma meta. O lugar que tinham roubado dele e de DG ia ser cobrado caro, e o Nanico não perdia por esperar.