Marcos apareceu no pátio, com o mesmo uniforme de todos os presos e em segundos, achou a irmã na multidão. Ele acelerou o passo e Maju correu na direção dele. O abraço foi tão forte que ele quase quebrou ela no meio, como se quisessem virar um só.
A Maju era minúscula perto dele; com o seu 1,60m de altura, ela sumia nos braços do irmão, que tinha quase 1,90m e era puro músculo.
Marcos deu um beijo na cabeça dela, apertando o corpo, levantou o corpo dela e rodou ela no ar, no meio do pátio. Ele tinha um sorriso e ela sorria também, uma sorrida que aqueceu o coração do Marcos.
— Que saudade, minha preta! — ele disse, com a voz meio embargada, colocando ela no chão de volta. Passando a mão no rosto dela, fazendo um carinho.
Eles pegaram uma mesa mais afastada ali no pátio e se sentaram. Maju, estava tremendo, feliz de ver o irmão. Mesmo que sempre vinha na visita, sentia saudades, todo dia. Ela pegou a sacola, tirou os potes de plástico e a comida ainda estava morna. Além do arroz com bife, feijão, ela colocou em cima da mesa umas frutas frescas e um pedaço de bolo bem bonito que ela tinha comprado com muito esforço.
— Trouxe fruta e bolo para tu comer na cela mais tarde com calma, tá? — ela falou, tentando dar o seu melhor sorriso.
Marcos olhou para a comida com os olhos brilhando, mas logo desviou o olhar para o rosto da irmã. Ele pegou uma das mãos dela e começou a perguntar, tinha medo da irmã sozinha se virando no morro.
— E aí, como é que estão as coisas lá na Rocinha? O pessoal do morro tá te respeitando? A casa tá direitinha?
Maju engoliu em seco. O coração dela disparou, mas ela sustentou o olhar e começou a inventar uma mentira atrás da outra, com a voz mais firme que conseguiu:
— Tá tudo bem, Marcos. Tudo certo por lá. O morro tá tranquilo, o pessoal fala de tu direto... Não precisa se preocupar com nada, foca só em ti aqui dentro.
Marcos franziu a testa, olhando bem de perto para ela. Ele reparou nas olheiras escuras sob os olhos dela, no rosto mais fino e nos braços magros.
— Tu tá muito magrinha, Maju. Tá com uma cara de cansada, bizarro... O que está acontecendo? Tu tá comendo direito?
No mesmo segundo, Maju vacilou e toda a coragem e força, quebrou ali. A boca tremeu e os olhos começaram a encher de água, ela usando as ultimas forças para segurar. O irmão tinha vida errada, já sabia que tinha algo errado ali. Ele mudou a postura, o semblante dele ficou sério e ele puxou a cadeira da irmã bem para o lado da dele, segurando os dois braços dela.
— Fala para mim, Maria Júlia. O que está acontecendo? Sem mentira. Olho no olho. Desenrola, vai.
A Maju não aguentou mais o peso de carregar aquele segredo sozinha por dez meses e desabou. Ela começou a chorar horrores, soluçando baixo para não chamar a atenção dos guardas, e foi contando toda a verdade. Contou sobre o dia em que o juiz bateu o martelo e ela voltou para a Rocinha; contou que o Nanico bloqueou a entrada dela, inventou que o Marcos era X9 e a expulsou do morro sob ameaça de morte; contou sobre o pouco dinheiro que conseguiu pegar no esconderijo, sobre o quarto horrível que parecia um bordel onde estava morando na Zona Norte e como estava se virando fazendo bico de faxina e de babá para não passar fome.
Conforme ela falava, o sangue do Marcos subiu para a cabeça. O rosto dele ficou vermelho de ódio e as veias do pescoço saltaram. Ele deu um soco tão forte na mesa de concreto que os potes de plástico chegaram a pular.
— Filhos da p**a! — ele esbravejou entre os dentes, com uma raiva cega. — O Nanico me armou uma emboscada e ainda bota a minha irmã para fora de casa com uma mentira dessas? Covardes! Bando de vermes! Eu vou ma.tar ele!
— Marcos, para! Olha os guardas! — Maju pediu, limpando as lágrimas correndo e segurando a mão dele para ele se acalmar. — Eu vou dar um jeito, tá? Não se preocupa comigo. Tu precisa focar em sair daqui de dentro com a mente sã. O advogado público é bom, ele conversou comigo e disse que vai tentar uma saída para ti, uma revisão, qualquer coisa. Eu estou me virando, juro.
Marcos respirou fundo, tentando controlar o ódio que estava consumindo o peito dele, mas o peito ainda subia e descia rápido. Ele olhou para o prato de arroz com salsicha na mesa.
— E essa comida aqui, Maju? Tu comprou tudo isso com dinheiro de faxina? E tu, comeu o quê?
— Eu compro as coisas com o dinheiro dos b***s só para trazer para ti, para tu comer bem aqui dentro — ela explicou, com a voz doce de quem cuidava do irmão como se fosse a mãe dele.
Nesse exato momento, um barulho alto cortou a fala dela. Foi o ronco alto da barriga da Maju, protestando por causa do jejum e da fome que ela estava sentindo desde as quatro da manhã. Ela ficou vermelha na hora e tentou disfarçar, ajeitando o cabelo preto ondulado atrás da orelha.
— Isso não foi nada... Eu vou almoçar depois que sair daqui, tem um salgado me esperando ali fora. Não se preocupa comigo, come logo.
O Marcos sentiu uma facada no coração. A irmã dele estava deixando de comer para gastar o pouco que tinha com ele na cadeia. Ele não conseguiu engolir quase nada de tanta tristeza e ódio, mas comeu um pouco para não fazer desfeita.
Não demorou muito e o som pesado do apito dos guardas ecoou pelo pátio, avisando que o tempo da visita tinha acabado. Era hora de voltar para a realidade do ferro. O Marcos se levantou, pegou os potes com o bolo e as frutas para levar para dentro do pavilhão.
— Leva o bolo e as frutas e divide lá dentro com o teu amigo de cela, o rapaz que tu falou — Maju disse, tentando manter a pose de forte na hora da despedida.
Marcos olhou para ela com os olhos marejados, puxou a Maju pela cintura e deu um beijo demorado e apertado na testa dela, segurando o rosto da irmã com as duas mãos.
— Eu vou resolver isso, Maju. Eu juro pela minha vida que eu vou resolver a tua situação. Fica firme, minha preta.
Ele se virou e caminhou em direção à fila dos presos que voltavam para as celas, levando o bolo na mão e uma promessa de vingança cravada na alma. A Maju ficou ali parada, vendo o irmão sumir pelo corredor escuro, torcendo para que os dias de sofrimento estivessem perto do fim.