capítulo 5

966 Words
O consultório da Patrícia era bonito. Claro demais para o meu gosto. As paredes eram brancas, havia uma estante cheia de livros e uma janela enorme por onde entrava a luz da tarde. Assim que entrei, meus olhos percorreram a sala inteira. Uma porta. Uma janela. Uma estante. Duas poltronas. Nenhuma saída além da porta. Só depois de verificar tudo me sentei. Patrícia percebeu. Mas não comentou. — Como você está hoje, Liz? A pergunta parecia simples. Mas eu nunca sabia responder. — Bem. Ela anotou alguma coisa. — Você costuma responder "bem" sempre que não quer falar. Olhei para ela. — Funciona na maior parte das vezes. Ela sorriu de leve. — Comigo não. O silêncio tomou conta da sala. Eu odiava silêncio. Silêncio significava esperar. Esperar significava medo. E medo significava... Balancei a cabeça para afastar os pensamentos. — Dormiu essa noite? — Um pouco. — Quantas horas? — Duas... talvez três. — E antes de dormir? Respirei fundo. — Fiquei olhando para a porta. — Por quê? — Para ter certeza de que ninguém entraria. Ela anotou outra coisa. Aquilo me irritava. Parecia que tudo o que eu dizia virava um diagnóstico. — Você ainda verifica portas e janelas? Olhei para a janela do consultório. Depois para a porta. Só então respondi. — Sim. — Quantas vezes? Dei de ombros. — Até sentir que está seguro. Ela inclinou a cabeça. — E alguma vez parece seguro? Demorei alguns segundos. — Não. O silêncio voltou. Dessa vez fui eu quem o quebrou. — Você vai perguntar sobre aqueles sete anos? Ela fechou a caneta. — Você quer falar sobre eles? — Não. — Então não vou perguntar. Franzi a testa. — Só isso? — Só isso. Fiquei desconfiada. — Achei que era esse o seu trabalho. — Meu trabalho não é arrancar respostas de você. É ajudá-la quando você estiver pronta para dá-las. Pela primeira vez desde que entrei ali, senti meus ombros relaxarem um pouco. Patrícia mudou de assunto. — Então me conta... quem é a Liz? Sorri sem humor. — Essa é fácil. — É? — Não faço ideia. Ela esperou. — Eu gostava de desenhar... acho. — "Acha"? — Não lembro mais. — Qual é sua comida favorita? Pensei. A imagem do Bib's passou pela minha cabeça. Mas não sabia se ainda era. — Não sei. — Sua música favorita? Balancei a cabeça. — Não sei. — Sua cor favorita? Ri baixinho. — Também não sei. Minha voz começou a falhar. — Eu passei tanto tempo tentando sobreviver que esqueci quem eu era antes disso. Patrícia permaneceu em silêncio. Não aquele silêncio que machucava. Era diferente. Era um silêncio que deixava espaço para eu respirar. Ela então fez apenas mais uma pergunta. — Se pudesse voltar a ser a menina de treze anos que entrou naquele carro no dia do desaparecimento... você voltaria? Fechei os olhos. Vi um uniforme escolar. Uma mochila. Uma menina sorrindo. Depois tudo ficou escuro. Quando abri os olhos novamente, as lágrimas já escorriam pelo meu rosto. — Não. — Posso perguntar por quê? Engoli em seco. — Ela morreu... ou foi morta? A pergunta parecia simples. Mas havia algo na voz de Patrícia que dizia que ela sabia que não era. Olhei para ela, confusa. — Parece a mesma coisa. — Não exatamente. Existe uma diferença entre alguém que deixa de existir... e alguém que é tirado de si. Qual delas faz mais sentido para você? Meu peito apertou. Demorei vários segundos para responder. — Acho que... ela foi morta. Patrícia anotou alguma coisa. Dessa vez, não me incomodou. Ela levantou os olhos novamente. — E quem matou aquela menina? As palavras saíram antes que eu pudesse impedi-las. — Eu. Minha própria resposta me assustou. — Foi preciso. Era m***r ou morrer. Eu não tive escolha. Minha garganta queimava. — Não quero mais falar sobre isso. Patrícia fechou o caderno. — Tudo bem. Nenhuma insistência. Nenhuma pergunta a mais. Apenas respeito. Depois de alguns instantes, ela perguntou: — Então... sobre o que você quer falar? Dei uma risada cansada. — Não sei. Ela sorriu de leve. — Tudo bem também. Fez uma pequena pausa antes de continuar. — Hoje você disse que não sabe qual é sua comida favorita, sua música favorita, nem sua cor favorita. Isso me diz que talvez o nosso trabalho não seja descobrir quem era a Liz de treze anos. Olhei para ela. — Então é o quê? — Descobrir quem é a Liz Stevens de vinte anos. As palavras ficaram ecoando na minha cabeça. Quem era eu? Nem eu sabia. — E sabe por onde eu começaria? — perguntou ela. Respirei fundo. — Me mudando para o Brasil. Pela primeira vez na sessão, Patrícia demonstrou surpresa. — Brasil? Assenti. — Por quê? Olhei para a janela. — Quando eu estava na escola... antes de tudo... tivemos uma aula sobre vários países. Lembro de ver imagens do Brasil. Praias, florestas, cidades enormes... gente sorrindo. Sorri sem perceber. — Acho que aquele lugar ficou guardado em algum canto da minha cabeça. Patrícia permaneceu em silêncio, esperando. — Lá ninguém vai me conhecer. Minha voz saiu quase num sussurro. — Ninguém vai olhar pra mim e pensar na menina sequestrada. Engoli em seco. — Eu posso errar meu português sem ninguém rir porque sou estrangeira. Posso conhecer pessoas que nunca ouviram meu nome. Posso andar na rua sem sentir que cada pessoa sabe o que aconteceu comigo. Respirei devagar. — Talvez... se eu estiver longe o bastante da minha vida antiga... eu consiga descobrir quem eu sou sem precisar ser "a garota que voltou". Patrícia assentiu lentamente. — Você quer fugir do passado... Balancei a cabeça. — Não. Olhei diretamente para ela. — Quero viver num lugar onde ele não chegue antes de mim.
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