Um país novo, com pessoas novas vai me fazer bem. Um país onde ninguém me conhece, ninguém vai me perguntar nada sobre esse maldito sequestro. Lá vou poder fazer novas amizades, tentar me encontrar de novo.
O silêncio voltou a tomar conta da mesa.
Minha mãe tinha lágrimas escorrendo pelo rosto.
Meu pai permanecia imóvel.
Por alguns segundos pensei que eles fossem discutir.
Ou tentar me impedir.
Mas meu pai apenas perguntou:
— Você já decidiu?
— Sim.
Ele abaixou os olhos para o prato.
— Então não importa o que eu diga.
Minha garganta apertou.
Porque ele estava certo.
Eu não estava pedindo autorização.
Estava avisando.
— Quando?
— Em duas semanas.
Minha mãe soltou um suspiro trêmulo.
— Duas semanas?
— Quanto mais eu ficar aqui, mais difícil vai ser.
— Você acabou de voltar.
Aquilo me atingiu como um soco.
Acabou de voltar.
Era verdade.
Mas também parecia mentira.
Porque eu não sentia que tinha voltado para lugar nenhum.
— Mãe...
Ela levantou a mão, me interrompendo.
— Eu sei que você está sofrendo.
— Não sabe.
As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.
rosto dela se partiu.
— Você tem razão — ela respondeu baixinho. — Eu não sei.
E pela primeira vez não havia raiva em sua voz.
Só tristeza.
— Mas você também não sabe como foi viver sete anos acreditando que minha filha estava morta.
Ninguém falou mais nada.
Nem eu.
Nem ela.
Nem meu pai.
Porque não existia resposta para aquilo.
Não existia vencedor naquela conversa.
Só pessoas quebradas tentando sobreviver.
Naquela noite, depois de arrumar algumas roupas em uma mala, sentei na cama do quarto de hóspedes.
Meu celular vibrou.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
Pensei em ignorar, Mas abri a mensagem com apenas uma frase.
"Você não deveria ter voltado."
Meu sangue gelou.
Fiquei encarando a tela.
Uma segunda mensagem chegou quase imediatamente.
"Dessa vez ninguém vai conseguir te proteger."
Meu coração começou a disparar.
As mãos tremiam.
Não.
Não.
Não podia ser.
Eles não podiam ter me encontrado.
Porque se eles tinham me encontrado...
Significava que sabiam exatamente onde eu estava.
E pela primeira vez desde que acordei naquele hospital, percebi que o meu pesadelo talvez nunca tivesse acabado apenas ganhado um novo rumo.
Com as mãos ainda gelada e tremendo apenas apago a mensagem, não posso mostrar pra ninguém, não posso confiar que vão conseguir me proteger, afinal, não foram capazes de me encontrar, quem dirá me proteger. vou até o banheiro do quarto apoio a mão na pia, olho pro reflexo no espelho e percebo que estou pálida então abro a torneira e molho meu rosto com um pouco d'água na tentativa de voltar a cor normal Apoiei as duas mãos na pia e encarei meu reflexo por alguns segundos.
A garota do espelho parecia uma estranha.
Os cabelos estavam maiores.
O rosto mais magro.
Os olhos cansados.
Mas o pior não era isso.
Era o medo.
Eu conhecia aquele medo.
Passei anos convivendo com ele.
Anos acordando assustada com qualquer barulho.
Anos esperando o momento em que aquela porta se abriria.
Fechei os olhos e respirei fundo.
Não.
Eu não estava lá.
Eu estava em casa.
Ou pelo menos era o que tentava dizer para mim mesma.
Quando finalmente consegui me acalmar um pouco, voltei para o quarto.
Tranquei a porta.
Fechei as cortinas.
Verifiquei a janela.
Depois verifiquei de novo.
E mais uma vez.
Só então me sentei na cama.
Meu celular estava sobre o colchão.
A tela apagada.
Como se aquelas mensagens nunca tivessem existido.
Mas elas existiram.
Eu sabia que existiram.
Meu olhar caiu sobre a mala aberta no canto do quarto.
Duas semanas.
Em duas semanas eu estaria do outro lado do mundo.
Longe de tudo.
Longe das perguntas.
Longe das lembranças.
Longe deles.
Ou pelo menos era o que eu esperava.
Na manhã seguinte acordei depois de ter dormido apenas algumas horas.
Desci as escadas e encontrei Mariana sozinha na cozinha.
Ela estava tomando café e mexendo no celular.
Quando me viu, levantou os olhos.
— Você parece péssima.
— Obrigada.
— Não foi um elogio.
Peguei uma xícara e servi café.
O silêncio ficou entre nós por alguns segundos.
— Então você vai mesmo embora?
Suspirei.
— Vou.
— Fugindo?
A pergunta me fez congelar.
Lentamente virei o rosto para ela.
— O quê?
Ela deu de ombros.
— É o que parece.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Talvez não.
Ela apoiou a xícara na mesa.
— Mas eu conheço esse olhar.
Meu coração acelerou.
— Que olhar?
Pela primeira vez desde que eu a conheci, Mariana não pareceu provocativa.
Pareceu triste.
Muito triste.
— O olhar de quem tem medo de alguém encontrar você, o medo de acorda de novo lá, o medo ser apenas um sonho bom o fato de não está mais lá -
O café perdeu o gosto na minha boca.
Porque naquele instante percebi uma coisa.
Talvez Mariana entendesse mais sobre o meu passado do que eu imaginava, pelo pouco que meu pai falou sei que a infância e adolescência dela não foi muito melhor do que a minha
- meu pai falou como te encontraram - o rosto dela endurecer -
- Não sabia que ele tinha falado com você sobre isso - ela diz ainda bebendo o café -
- Não se aprofundou muito só disse que te encontraram em uma casa de mulheres traficadas - ela olha pra baixo com um pouco de vergonha -
Sim, eles estavam seguindo uma pista sua e me encontraram.
Por alguns segundos nenhuma de nós falou nada.
Mariana continuou olhando para o café.
Como se estivesse tentando decidir o que podia ou não me contar.
— E depois? — perguntei.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Depois eu fui parar em um abrigo.
— E meus pais te encontraram?
Ela balançou a cabeça.
— Sua mãe me encontrou.
Levantei os olhos para ela.
— Como assim?
— Ela fazia trabalho voluntário lá.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Minha mãe?
— Sim.
Ela mexeu na xícara.
— No começo eu achava que ela sentia pena de mim.
— E sentia?
— Talvez.
Ela deu de ombros.
— Mas depois percebi que não era isso.
— O que era então?
Mariana demorou alguns segundos para responder.
— Ela estava procurando você em todo mundo.
Senti meu peito apertar.
— O quê?
— Toda menina da minha idade que aparecia em algum lugar... ela olhava.
Meu coração afundou.
— Ela achava que era eu?
— Às vezes.
O silêncio caiu entre nós.
Porque, pela primeira vez, eu estava vendo aqueles anos pela perspectiva dos meus pais.
Sete anos.
Sete anos procurando meu rosto em pessoas desconhecidas.
— Quando ela me viu, sabia que eu não era você.
— Então por que te trouxe para casa?
Mariana sorriu triste.
— Porque eu também precisava de alguém.
Não soube o que responder.
Porque pela primeira vez desde que cheguei ali, Mariana não parecia a garota que tomou meu lugar.
Parecia apenas outra pessoa quebrada.
Outra pessoa que estava tentando sobreviver.
— Eu sinto muito.
As palavras escaparam antes que eu pudesse impedir.
Ela me olhou surpresa.
— Pelo quê?
— Pelo que aconteceu com você.
Os olhos dela ficaram marejados.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu com você também.
E aquilo foi estranho.
Porque durante dias eu tinha recebido pena.
Compaixão.
Olhares tristes.
Mas aquela era a primeira vez que alguém dizia aquilo sabendo exatamente o que era ter a vida arrancada de si.
Naquele momento, a campainha tocou.
Mariana enxugou os olhos rapidamente e se levantou.
— Acho que chegou mais um jornalista.
— Ótimo.
— Você sabe que eles não vão desistir, né?
Soltei um suspiro cansado.
— Eu sei.
Mas enquanto observava Mariana caminhar para fora da cozinha, uma sensação estranha surgiu dentro de mim.
Talvez eu estivesse errada sobre ela.
Talvez nós duas não estivéssemos disputando um lugar naquela família.
Talvez estivéssemos apenas tentando encontrar um lugar para nós mesmas.