Capítulo 7

1827 Words
Bianca Bellini Descobri três coisas desde que cheguei à mansão Santoro. A primeira é que esta casa possui mais funcionários do que algumas empresas. A segunda é que aparentemente ninguém aqui sabe sorrir. E a terceira, que acabo de descobrir, é que estou cercada por um bando de idiotas que acreditam que preciso de autorização para respirar. — Como assim, eu não posso sair? O homem parado diante do portão permanece imóvel. É impressionante. Dário deve contratar seus seguranças diretamente de algum cemitério. Todos possuem a mesma expressão de quem morreu há três dias e ainda não percebeu. — Ordens do Dom, senhorita. Ah, claro. Ordens do Dom. Estou começando a desenvolver uma alergia bastante severa a essas três palavras. — Escute, querido, eu não estou pedindo para você me levar até a fronteira da Suíça com documentos falsificados,coisa que eu faria sem nenhum remorso. Só quero conhecer a cidade. — Sinto muito, senhorita Bellini. — Não sente, não. Você está com a mesma expressão desde que comecei a falar. Ele não responde. Olho para o portão. Depois para o segurança. — E se eu simplesmente passar por você? — Terei que impedi-la. Arqueio uma sobrancelha. — Você pretende colocar as mãos em mim? Pela primeira vez, percebo alguma alteração em sua expressão. Medo. Interessante. — Não, senhorita. Mas preciso informar ao Dom. Abro um sorriso. — Maravilhoso. Então informe que a futura senhora Santoro está saindo para comprar algumas coisas e que pretende voltar antes do Natal. Dou um passo. O homem imediatamente se coloca à minha frente. Meu sorriso desaparece. — Você só pode estar brincando. — São as ordens, senhorita. Respiro fundo. Uma vez. Duas. Na terceira, decido que vou cometer um homicídio. Não contra o segurança, coitado. Ele provavelmente só está tentando manter o emprego. O verdadeiro responsável está confortavelmente instalado dentro daquela mansão gigantesca, provavelmente planejando maneiras de tornar minha existência ainda mais insuportável. — Onde está Dário? — No escritório, senhorita. Sorrio novamente. — Excelente. Dou meia-volta. Hoje o d***o vai receber uma visita. E não vai gostar nem um pouco. Atravesso o corredor principal da mansão com passos tão rápidos que uma das funcionárias praticamente salta para o lado quando me vê. — Senhorita Bianca, precisa de alguma coisa? — De um advogado criminalista. Conhece algum bom? A mulher arregala os olhos. — Perdão? — Esqueça. Ainda não matei ninguém. Continuo andando. Encontro Matteo próximo à escadaria. Ele está conversando com outro segurança quando percebe minha aproximação. — Senhorita Bellini. — Matteo, querido, preciso de uma informação. Ele me observa com desconfiança. Inteligente. — Pois não? — Qual é a pena para assassinato na Itália? O outro segurança tosse. Matteo fecha os olhos por um instante. — Posso perguntar por quê? — Curiosidade acadêmica. — Bianca... — Estou pensando em cometer um crime, mas gosto de conhecer minhas opções. Ele suspira. — O que aconteceu? Cruzo os braços. — Seu chefe decidiu que sou uma prisioneira. Matteo imediatamente compreende. — O Dom apenas está preocupado com sua segurança. Solto uma gargalhada. — Vocês recebem treinamento para repetir as mesmas desculpas ou isso acontece naturalmente? — A senhorita não pode sair desacompanhada. — Engraçado. Porque foi exatamente isso que tentei fazer. — Posso providenciar um motorista. — E quatro seguranças armados? Talvez um helicóptero sobrevoando minha cabeça? Ele não responde. — Onde está o escritório? Matteo olha para o corredor. — Bianca, talvez seja melhor esperar... — Matteo. — Sim? — Gosto de você. Não estrague nossa amizade. Passo por ele antes que consiga responder. Encontro a porta do escritório no final de um corredor. Não bato. Afinal, pessoas que sequestram a liberdade alheia não merecem educação. Abro a porta com tanta força que ela atinge a parede. — DÁRIO SANTORO! O homem sentado atrás de uma mesa gigantesca ergue lentamente os olhos. Está falando ao telefone. Naturalmente. Porque até o d***o precisa administrar seus negócios. — Depois conversamos — diz em italiano, encerrando a ligação. Deposita o aparelho sobre a mesa. — Você perdeu completamente o juízo? Fecho a porta. — Ainda não. Mas estou trabalhando nisso. Ele se recosta na cadeira. — O que aconteceu? — Seus cães de guarda não me deixam sair. Seu semblante permanece inalterado. — Eu sei. Pisco. Uma vez. Duas. — Você sabe? — Fui eu quem deu a ordem. Ah. Maravilhoso. Pelo menos o criminoso confessou. — Então você realmente acredita que pode me manter trancada nesta casa? — Ninguém está mantendo você trancada. — Não? Que interessante! Porque tentei atravessar o portão e um armário de dois metros decidiu que eu precisava da sua autorização! — Você pode sair acompanhada. — Eu não preciso de babá! — Precisa de segurança. — Preciso de liberdade! Minha voz ecoa pelo escritório. Dário se levanta lentamente. É impressionante como esse homem consegue transformar um movimento simples em uma ameaça. — Abaixe a voz. Solto uma risada incrédula. — Ah, claro. Esqueci que estamos no maravilhoso reino de Dário Santoro, onde todos obedecem e ninguém questiona. — Bianca. — Não! Você vai me ouvir! Ele contorna a mesa. — Está ultrapassando os limites. — Que limites? Os que você inventou sem me consultar? Ele para diante de mim. — Existem pessoas que fariam qualquer coisa para atingir minha família. Você está prestes a fazer parte dela. — Eu não escolhi fazer parte da sua família! O silêncio que se segue é pesado. Dário contrai o maxilar. — Isso não muda a situação. Sinto uma onda de raiva subir pelo meu peito. — Sabe o que é engraçado, Santoro? Ele não responde. — Passei a vida inteira ouvindo meu pai dizer onde eu podia ir, com quem podia falar e como deveria me comportar. Seus olhos permanecem fixos nos meus. — E agora estou aqui, ouvindo exatamente as mesmas coisas de você. Algo muda em sua expressão. Mas estou irritada demais para me importar. — Parabéns, Dário. Você conseguiu. — Consegui o quê? Sorrio sem humor. — Me tirar da casa de um homem que acredita ser meu dono para me colocar na casa de outro. Ele permanece imóvel. — Não sou seu pai, Bianca. — Então pare de agir como ele! Pela primeira vez desde que entrei, Dário não encontra uma resposta imediata. E isso deveria me deixar satisfeita. Mas não deixa. Porque, de repente, estou lembrando de coisas que preferia esquecer. Portas trancadas. Castigos. Ordens. A sensação sufocante de não possuir absolutamente nada que fosse realmente meu. Desvio o olhar. É nesse momento que vejo a pasta. Está sobre a mesa de Dário, parcialmente escondida sob alguns documentos. Uma pasta preta. Simples. Com uma etiqueta branca. E nela, escrito em letras maiúsculas: BIANCA BELLINI. Meu coração parece perder uma batida. Franzo a testa. — O que é aquilo? Dário acompanha a direção do meu olhar. E, pela maneira como sua expressão muda, percebo imediatamente que encontrei alguma coisa que não deveria. — Não é da sua conta. Solto uma risada curta. — Engraçado. Porque parece bastante da minha conta. Caminho em direção à mesa. — Bianca, não toque nisso. Ignoro. Pego a pasta. Dário se aproxima imediatamente. — Eu mandei não tocar. Abro a primeira página. Uma fotografia minha. Não uma fotografia de família. Não uma imagem retirada de alguma rede social. Uma fotografia minha atravessando uma rua, aparentemente sem perceber que estava sendo observada. Sinto um arrepio percorrer minha coluna. Viro a página. Meu nome completo. Data de nascimento. Endereços. Histórico escolar. Informações sobre meus amigos. Sobre Lorenzo. Sobre lugares que frequentei. Até mesmo sobre a boate. — Que merda é essa? Minha voz sai mais baixa do que pretendia. Dário não responde. Continuo folheando. Existem registros de situações que aconteceram dentro da casa dos meus pais. Discussões. Punições. Uma visita ao hospital quando eu tinha quinze anos. Paro. Lembro perfeitamente daquela noite. Meu pai havia me empurrado contra uma estante depois que me recusei a pedir desculpas por uma discussão com Bárbara. Caí sobre uma mesa de vidro. Minha mãe disse ao médico que eu havia sofrido um acidente doméstico. E agora aquela informação está diante de mim. Registrada. Detalhada. Como se alguém tivesse estado lá. Levanto os olhos lentamente. — Há quanto tempo você me investiga? Dário permanece em silêncio. — Eu fiz uma pergunta. — Bianca... — HÁ QUANTO TEMPO? Ele contrai o maxilar. — Há algum tempo. Solto uma risada incrédula. — Algum tempo? Olho novamente para os documentos. Existem informações antigas demais para terem sido reunidas apenas nos últimos dias. — Você sabia? Ele me encara. — Sabia o quê? Ergo a folha. Minha mão está tremendo. Odeio isso. — Sabia o que acontecia naquela casa? Dário não responde imediatamente. E esse silêncio... Esse maldito silêncio... É suficiente. Sinto alguma coisa dentro de mim se partir. — Você sabia — murmuro. — Eu tinha informações, Bianca. Não conhecia toda a extensão do que acontecia. — Mas sabia que meu pai me machucava. Ele não n**a. Dou um passo para trás. — E nunca fez nada? — Não era tão simples. Solto uma gargalhada. Uma gargalhada horrível. Sem alegria alguma. — Claro que não. Fecho a pasta com força. — Para homens como você, nunca é simples quando o sofrimento pertence a outra pessoa. — Cuidado com o que está dizendo. Encaro seu rosto. — Por quê? Vai me bater também? A expressão dele muda imediatamente. — Nunca mais repita isso. — Então me dê um motivo para acreditar que você é diferente! O silêncio que se instala entre nós parece sufocar o ambiente. Dário olha para a pasta em minhas mãos. Depois para mim. — Eu deveria ter investigado melhor o que estava acontecendo naquela casa. A resposta me surpreende. Não esperava que ele admitisse alguma falha. Mas isso não apaga os anos que passei sozinha. Deposito a pasta sobre a mesa. — Sabe qual é a pior parte? Ele permanece em silêncio. — Eu passei a vida inteira acreditando que ninguém sabia. Minha garganta aperta. Engulo em seco. Não vou chorar. Não na frente dele. — E agora descubro que talvez existissem pessoas que sabiam, mas simplesmente não se importavam o suficiente para fazer alguma coisa. Dário dá um passo em minha direção. Eu recuo. Ele para imediatamente. — Bianca... — Não. Minha voz sai firme, apesar do nó na garganta. — Você queria saber por que eu não confio em ninguém? Aponto para a pasta. — Aqui está sua resposta. Caminho até a porta. — Bianca, nós ainda não terminamos essa conversa. Paro com a mão na maçaneta. Viro o rosto lentamente. — Terminamos, sim, Santoro. Respiro fundo. — Porque você pode ter comprado minha liberdade do meu pai... Encaro seus olhos uma última vez. — Mas não comprou minha confiança. Saio do escritório e fecho a porta atrás de mim. Dessa vez, sem bater. Porque, pela primeira vez desde que conheci Dário Santoro, não tenho vontade de provocá-lo. Só quero ficar o mais longe possível dele.
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