Capítulo 6

958 Words
Dário Santoro ​Permaneço no hall de entrada, com o olhar fixo na escadaria por onde Bianca acabou de desaparecer. O som dos passos dela no andar superior ainda ecoa na minha mente, assim como a postura firme que ela manteve há poucos instantes. ​Aquela garota vai acabar com a minha paciência ou com a minha sanidade. Provavelmente com as duas. ​Mas há algo que não posso negar, por mais que me irrite admitir: ela não se curva. Sabe bater de frente com qualquer situação, inclusive com a mulher que agora está parada à minha frente, de braços cruzados e o peito subindo e descendo em arfadas de pura indignação. ​— Dário, você ouviu como ela falou comigo? — a voz de Larissa quebra o silêncio pesado da sala. ​Caminho lentamente até o aparador de madeira maciça, servindo-me de dois dedos de uísque. O estalo do gelo contra o cristal do copo parece ser o único som aceitável naquele ambiente. Bato o copo levemente antes de girar sobre os calcanhares e finalmente voltar minha atenção para ela. ​Larissa está furiosa, as bochechas coradas de raiva e os olhos faiscando. ​— Ouvi — respondo com a voz pausada, sem demonstrar qualquer alteração de humor. ​— E não vai fazer nada? — ela dá um passo à frente, cobrando uma atitude que não tem o direito de exigir. ​— O que exatamente espera que eu faça, Larissa? ​Ela parece genuinamente surpresa com a minha neutralidade, abrindo a boca antes de soltar um bufo frustrado. ​— Que coloque aquela menina no lugar dela! ​Meu olhar endurece instantaneamente. Dão dois passos curtos em sua direção, o suficiente para que minha sombra a encubra e o clima na sala esfrie dez graus. ​— E qual seria o lugar dela, Larissa? — pergunto, baixo e perigoso. — Muito cuidado com a maneira como fala da minha noiva nesta casa. ​Larissa recua ligeiramente, assustada com a mudança na minha postura. O orgulho dela fraqueja por um segundo. ​— Sua noiva? Dário, nós... ​— Nós não somos um casal Larissa,nunca fomos e nunca seremos!— interrompo-a sem piedade, levando o copo aos lábios e saboreando a queimadura do álcool. — Você é apenas uma mulher qualquer que me satisfaz quando eu quero e, em troca, tem uma vida confortável paga pelo meu dinheiro. ​Ela fica imóvel, o choque estampado no rosto como se tivesse levado um tapa físico. ​— Você sabe muito bem qual é o acordo entre nós — acrescento, sustentando seu olhar desacreditado. ​Larissa arregala os olhos, engolindo a seco, embora saiba perfeitamente que não menti em absolutamente nada. Na máfia, acordos não ditos são tão vinculantes quanto sangue. ​— Sei... — murmura, com a voz falhando antes de tentar se recompor. — E é justamente por isso que precisamos esclarecer algumas coisas. ​Dou mais um passo, diminuindo a distância até que ela precise inclinar a cabeça para me encarar. ​— Bianca será minha esposa — digo, pausadamente, para que cada palavra fique gravada. — Vai morar nesta casa, comandar este lugar e será tratada com o respeito rigoroso que a posição de Senhora Santoro exige. De todos. Inclusive de você. ​— E eu? — o tom dela varia entre a mágoa e o desespero. ​Encaro o fundo dos seus olhos, sem uma gota de compaixão. ​— Você sempre soube qual era o seu lugar na minha vida. E, além do mais, não quero ver você transitando por esta casa novamente sem a minha autorização. Se eu pegar você desrespeitando as regras outra vez, eu mesmo me encarrego de jogá-la no prostíbulo mais sujo do meu território. ​A cor foge do rosto de Larissa instantaneamente. Ela engole em seco, sabendo que eu não faço ameaças em vão. ​— Está me dispensando... por causa daquela garota? ​— Estou deixando claro que o que existe entre nós nunca foi um compromisso, você está cansada de saber disso — corrijo, frio. ​Larissa desvia o olhar para o chão, as mãos tremendo levemente ao lado do corpo. ​— Então sou apenas sua amante? — pergunta, em um fio de voz. ​— Sim. Nunca lhe prometi nada além do que tivemos até aqui. ​Ela solta uma risada amarga, balançando a cabeça negativamente. ​— Você é um homem c***l Dário eu tinha planos e... ​Não respondo de imediato. Apenas dou o último gole no uísque e coloco o copo com estalo sobre a mesa de centro. ​— Você não faz ideia do quanto,quanto aos seus planos não posso fazer nada.— murmuro, encarando-a com o olhar de quem já viu e cometeu atrocidades demais para se importar com sentimentos feridos. — Crueldade é a minha especialidade. ​Larissa permanece em silêncio, derrotada, entendendo que a conversa terminou. Faço um sinal discreto com a cabeça para o segurança parado perto da porta, que imediatamente se aproxima para escoltá-la para fora. ​Quando fico sozinho na sala, volto meus olhos novamente para o topo da escadaria por onde Bianca subiu. Uma certeza sombria se instala na minha mente. ​Larissa pode estar acostumada com a minha cama. ​Mas jamais terá o direito de desrespeitar a mulher que carregará meu sobrenome — mesmo que nossa união não passe de um contrato de conveniência e que Bianca tenha uma língua afiada demais para o próprio bem. Permaneço no mesmo lugar,pego meu celular e mando mensagem para Matteo. Quero que investigue a vida de Bianca Bellini a fundo,detalhes que nunca ninguém soube,quero na minha mesa o mais rápido. Ainda não estou nada feliz com oque eu vi na noite anterior.
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