Dário Santoro
Permaneço no hall de entrada, com o olhar fixo na escadaria por onde Bianca acabou de desaparecer. O som dos passos dela no andar superior ainda ecoa na minha mente, assim como a postura firme que ela manteve há poucos instantes.
Aquela garota vai acabar com a minha paciência ou com a minha sanidade. Provavelmente com as duas.
Mas há algo que não posso negar, por mais que me irrite admitir: ela não se curva. Sabe bater de frente com qualquer situação, inclusive com a mulher que agora está parada à minha frente, de braços cruzados e o peito subindo e descendo em arfadas de pura indignação.
— Dário, você ouviu como ela falou comigo? — a voz de Larissa quebra o silêncio pesado da sala.
Caminho lentamente até o aparador de madeira maciça, servindo-me de dois dedos de uísque. O estalo do gelo contra o cristal do copo parece ser o único som aceitável naquele ambiente. Bato o copo levemente antes de girar sobre os calcanhares e finalmente voltar minha atenção para ela.
Larissa está furiosa, as bochechas coradas de raiva e os olhos faiscando.
— Ouvi — respondo com a voz pausada, sem demonstrar qualquer alteração de humor.
— E não vai fazer nada? — ela dá um passo à frente, cobrando uma atitude que não tem o direito de exigir.
— O que exatamente espera que eu faça, Larissa?
Ela parece genuinamente surpresa com a minha neutralidade, abrindo a boca antes de soltar um bufo frustrado.
— Que coloque aquela menina no lugar dela!
Meu olhar endurece instantaneamente. Dão dois passos curtos em sua direção, o suficiente para que minha sombra a encubra e o clima na sala esfrie dez graus.
— E qual seria o lugar dela, Larissa? — pergunto, baixo e perigoso. — Muito cuidado com a maneira como fala da minha noiva nesta casa.
Larissa recua ligeiramente, assustada com a mudança na minha postura. O orgulho dela fraqueja por um segundo.
— Sua noiva? Dário, nós...
— Nós não somos um casal Larissa,nunca fomos e nunca seremos!— interrompo-a sem piedade, levando o copo aos lábios e saboreando a queimadura do álcool. — Você é apenas uma mulher qualquer que me satisfaz quando eu quero e, em troca, tem uma vida confortável paga pelo meu dinheiro.
Ela fica imóvel, o choque estampado no rosto como se tivesse levado um tapa físico.
— Você sabe muito bem qual é o acordo entre nós — acrescento, sustentando seu olhar desacreditado.
Larissa arregala os olhos, engolindo a seco, embora saiba perfeitamente que não menti em absolutamente nada. Na máfia, acordos não ditos são tão vinculantes quanto sangue.
— Sei... — murmura, com a voz falhando antes de tentar se recompor. — E é justamente por isso que precisamos esclarecer algumas coisas.
Dou mais um passo, diminuindo a distância até que ela precise inclinar a cabeça para me encarar.
— Bianca será minha esposa — digo, pausadamente, para que cada palavra fique gravada. — Vai morar nesta casa, comandar este lugar e será tratada com o respeito rigoroso que a posição de Senhora Santoro exige. De todos. Inclusive de você.
— E eu? — o tom dela varia entre a mágoa e o desespero.
Encaro o fundo dos seus olhos, sem uma gota de compaixão.
— Você sempre soube qual era o seu lugar na minha vida. E, além do mais, não quero ver você transitando por esta casa novamente sem a minha autorização. Se eu pegar você desrespeitando as regras outra vez, eu mesmo me encarrego de jogá-la no prostíbulo mais sujo do meu território.
A cor foge do rosto de Larissa instantaneamente. Ela engole em seco, sabendo que eu não faço ameaças em vão.
— Está me dispensando... por causa daquela garota?
— Estou deixando claro que o que existe entre nós nunca foi um compromisso, você está cansada de saber disso — corrijo, frio.
Larissa desvia o olhar para o chão, as mãos tremendo levemente ao lado do corpo.
— Então sou apenas sua amante? — pergunta, em um fio de voz.
— Sim. Nunca lhe prometi nada além do que tivemos até aqui.
Ela solta uma risada amarga, balançando a cabeça negativamente.
— Você é um homem c***l Dário eu tinha planos e...
Não respondo de imediato. Apenas dou o último gole no uísque e coloco o copo com estalo sobre a mesa de centro.
— Você não faz ideia do quanto,quanto aos seus planos não posso fazer nada.— murmuro, encarando-a com o olhar de quem já viu e cometeu atrocidades demais para se importar com sentimentos feridos. — Crueldade é a minha especialidade.
Larissa permanece em silêncio, derrotada, entendendo que a conversa terminou. Faço um sinal discreto com a cabeça para o segurança parado perto da porta, que imediatamente se aproxima para escoltá-la para fora.
Quando fico sozinho na sala, volto meus olhos novamente para o topo da escadaria por onde Bianca subiu. Uma certeza sombria se instala na minha mente.
Larissa pode estar acostumada com a minha cama.
Mas jamais terá o direito de desrespeitar a mulher que carregará meu sobrenome — mesmo que nossa união não passe de um contrato de conveniência e que Bianca tenha uma língua afiada demais para o próprio bem.
Permaneço no mesmo lugar,pego meu celular e mando mensagem para Matteo.
Quero que investigue a vida de Bianca Bellini a fundo,detalhes que nunca ninguém soube,quero na minha mesa o mais rápido.
Ainda não estou nada feliz com oque eu vi na noite anterior.