Capítulo 5

1815 Words
Bianca Bellini O silêncio dentro do carro é quase tão insuportável quanto o homem sentado ao meu lado. Desde que saímos da casa dos meus pais, Dário Santoro não disse uma única palavra. Está com os olhos fixos na estrada, o maxilar contraído e uma expressão que faria qualquer pessoa minimamente inteligente evitar sua companhia. Infelizmente, inteligência nunca foi o meu problema. — Vai continuar com essa cara de quem está planejando um assassinato,não um assassinato,uma chacina inteira? Ele não olha para mim. — Depende. — De quê? — Das suas respostas. Reviro os olhos, Maravilha. Mais um interrogatório estou me sentindo como quem presenciou um crime. — Aquilo sempre foi assim? Franzo a testa. — Aquilo o quê? — Sua casa, Bianca. Olho pela janela. — Vai precisar ser mais específico. A decoração é horrível, mas minha mãe insiste que aqueles móveis são antiguidades caríssimas oque eu acho um monte de velharias. — Não estou falando dos móveis. É claro que não. — Seu pai sempre bate em você? A pergunta me pega desprevenida. Não pela curiosidade, mas pela naturalidade com que ele a faz. — Não seja dramático, Santoro,sabemos que Vittorio Bellini não é o pai mais amoroso do mundo. — Eu vi o que aconteceu. — Então por que está perguntando? Ele finalmente vira o rosto em minha direção. — Porque quero saber quantas vezes aconteceu antes de hoje. Aperto os dedos contra o tecido do meu vestido preto tubinho. — Meu pai acredita que algumas pessoas precisam aprender a obedecer. — Não foi o que perguntei. — E eu não sou obrigada a responder. Ele permanece em silêncio por alguns segundos. — Sua mãe nunca interferiu? Solto uma risada sem humor. — Minha mãe? Ela provavelmente ficaria mais preocupada se meu pai quebrasse um dos vasos italianos do que se quebrasse meu nariz. Vejo seus dedos apertarem o volante. — E sua irmã? — O que tem a princesinha Bellini? — Ela sempre se comporta daquela maneira? Dessa vez, não consigo evitar uma gargalhada. — Está perguntando se ela costuma se oferecer para homens comprometidos ou se costuma fazer isso na frente da própria família? — Bianca. — Sim, Dário. Bárbara sempre foi assim. Ela gosta de tudo o que não lhe pertence. Principalmente quando acredita que merece mais do que a pessoa que possui. Ele fica em silêncio. — Não se preocupe — acrescento. — Ela provavelmente só queria experimentar o título de futura senhora Santoro. Deve combinar melhor com as roupas dela. — Sua irmã não me interessa. — Que tragédia. Vou mandar flores e um cartão postal de Nápoles para consolá-la. — E você deveria parar de fazer piadas sobre coisas sérias. Viro o rosto para encará-lo. — E você deveria parar de fazer perguntas sobre uma família da qual nunca quis fazer parte. Ele me observa por um instante. — Você será minha esposa. — Meus pêsames,ah menos que você morra na lua de mel não vamos conseguir evitar essa tragédia. Dário solta o ar lentamente. — E ninguém vai levantar a mão para você novamente. Sinto alguma coisa estranha no peito. Não gosto. Não gosto da maneira como ele diz aquilo, como se fosse uma decisão tomada e não uma promessa que talvez não consiga cumprir. — Inclusive você? — pergunto. Seus olhos encontram os meus. — Inclusive eu,jamais encostarei um dedo em você para machuca-lá. Desvio o olhar antes que ele perceba o quanto aquela resposta me surpreendeu. O hotel parece ter sido construído exclusivamente para pessoas que possuem dinheiro demais e bom senso de menos. O saguão é gigantesco, com lustres de cristal, mármore claro e funcionários que parecem saber exatamente quem Dário Santoro é. Naturalmente, ninguém pede nossos documentos. Que surpresa. Seguimos até uma suíte que provavelmente custa mais por noite do que algumas pessoas ganham durante um ano inteiro. Assim que entramos, observo a sala, os sofás, as janelas enormes e a vista iluminada da cidade. — Você pretende dormir aqui ou comprar o hotel? — pergunto. Dário tira o paletó. — Vá descansar. Partiremos cedo. — Adorável. Fui sequestrada por um homem que ainda pretende me obrigar a acordar de madrugada. — Você fala demais. — E você tem uma personalidade encantadora. Ele ignora meu comentário. — Seu quarto é aquele. Aponta para uma porta no corredor. Olho para a mala que um dos funcionários trouxe da casa dos meus pais. Ao abri-la, descubro que minha noite ainda pode piorar. Minhas roupas estão destruídas. Vestidos cortados, blusas rasgadas e até algumas peças íntimas inutilizadas. Por alguns segundos, apenas observo. Bárbara. É claro. Aquela pequena cobra não perdeu tempo. — Algum problema? A voz de Dário surge atrás de mim. Fecho a mala imediatamente. — Nenhum. Ele olha para minha mão sobre o zíper. — Abra. — Não. — Bianca. — Santoro. Ele se aproxima e, antes que eu consiga impedir, observa uma das peças cortadas que ficou presa na lateral da mala. Seu rosto endurece. — Quem fez isso? Dou de ombros. — Talvez minhas roupas tenham desenvolvido tendências suicidas nova moda em Paris. — Foi sua irmã? Não respondo. Não preciso. Ele pega o celular. — Vou mandar trazer roupas novas. — Não precisa. — Precisa, sim. — Não quero nada seu. Ele ergue os olhos. — Então pretende dormir com essa roupa? Cruzo os braços. — Talvez. Dário me observa por um momento antes de caminhar até o próprio quarto. Volta pouco depois, segurando uma camisa preta. — Vista isto. Olho para a peça. Depois para ele. — É sério? — Parece que estou brincando? — Você tem alguma doença contagiosa que eu deveria conhecer? Ele fecha os olhos por um instante. — Bianca, pegue a maldita camisa e não teste minha paciênci,já encerrou sua cota por hoje. Puxo o tecido de sua mão. — Que delicadeza. Aposto que suas amantes adoram seu romantismo. Seu olhar escurece. — Boa noite, Bianca. — Bons pesadelos, Santoro. Entro no quarto antes que ele responda. A camisa é enorme. O tecido chega quase aos meus joelhos, e as mangas precisam ser dobradas várias vezes. Tem um cheiro discreto de perfume masculino. O cheiro dele. Faço uma careta para meu reflexo no espelho. Ótimo. Além de estar sendo levada contra a minha vontade para Nápoles, agora estou dormindo com a roupa do meu futuro marido, tomo um banho rápido e quando saio do banheiro tem duas garrafas de água em cima da mesa de cabeceira, recem colocadas ali. Minha vida realmente está se tornando uma piada de péssimo gosto. Na manhã seguinte, descubro que Dário Santoro tem um conceito bastante particular de viagem. Principalmente quando o carro atravessa os portões de uma área reservada do aeroporto e estaciona diante de um jatinho particular. Paro imediatamente. — Não. Dário, que caminhava à minha frente, olha por cima do ombro. — Não o quê? Aponto para a aeronave. — Aquilo é seu? — Sim. Encaro o jatinho. Depois encaro Dário. — Você tem um avião? — Está surpresa? — Não. Estou tentando entender como alguém com uma personalidade tão desagradável conseguiu convencer um avião a trabalhar para ele. Ele passa a mão pelo rosto. — Entre, Bianca. — Espere. Ele tem nome? — Quem? — O avião. — Não. — Deveria chamar Lúcifer. Combina com o proprietário. Dário me lança um olhar mortal. Sorrio. — Ou Belzebu. Também é bonito. Ele aponta para a escada. — Suba. E, pela primeira vez desde que o conheci, percebo algo curioso. O homem mais temido da máfia italiana talvez seja capaz de controlar cidades inteiras. Mas definitivamente não sabe o que fazer comigo. Quando finalmente chegamos a Nápoles, já estou cansada de viajar, de ouvir ordens e, principalmente, da companhia de Dário Santoro. O carro atravessa portões enormes, revelando uma propriedade que parece ter saído de uma revista de arquitetura. A mansão é absurda. Jardins perfeitamente cuidados, fontes, segurança espalhada por todos os lados e uma construção imponente que parece anunciar, sem nenhuma modéstia, quem manda naquele lugar. — Você mora aqui sozinho? — pergunto. — Não. — Claro. Imagino que o d***o precise de alguns demônios para administrar o inferno. Ele ignora. Outra vez. Assim que entramos, percebo que a decoração é tão luxuosa quanto o restante da propriedade. Mas minha atenção é desviada por uma voz feminina. — Dário! Uma mulher surge no alto da escadaria. É bonita. Muito bonita, na verdade. Cabelos impecáveis, vestido elegante e um sorriso que desaparece no instante em que seus olhos encontram os meus. Interessante. Ela desce os degraus e se aproxima de Dário com uma i********e que dispensa apresentações. — Não sabia que chegaria acompanhado. Seus olhos percorrem meu corpo. — E muito menos que traria uma criança. Ah. Então vamos começar assim. Sorrio educadamente. — E eu não sabia que a casa vinha com uma recepcionista tão m*l-educada. O sorriso dela desaparece por completo. — Perdão? — Aceito. Mas tente melhorar na próxima vez. Dário vira lentamente o rosto para mim. — Bianca. — O quê? Ela pediu perdão. A mulher cruza os braços. — Dário, quem é essa garota? Ele responde sem hesitar. — Bianca Bellini. Minha noiva. O silêncio que se segue é delicioso. A mulher empalidece por um instante. Depois força um sorriso. — Ah. Então é você. Inclino a cabeça. — Depende. Quem está perguntando? — Larissa. Espero. Ela não acrescenta nada. — Certo, Larissa. E qual é exatamente sua função nesta casa? Seus olhos se estreitam. — Acho que você deveria ter um pouco mais de respeito. Solto uma risadinha. — Curioso. Eu estava prestes a dizer a mesma coisa. Ela olha para Dário, claramente esperando que ele interfira. Mas ele permanece em silêncio. Observando. — Você acabou de chegar — Larissa continua. — Não conhece as regras desta casa. Dou um passo em sua direção. — Então permita que eu esclareça uma coisa. Seu sorriso desaparece. — Não me interessa quem você é, há quanto tempo frequenta esta casa ou qual a sua relação com Dário Santoro. Mas não volte a falar comigo como se eu fosse uma intrusa. Ela abre a boca. Ergo a mão. — Ainda não terminei. Seus olhos se arregalam. — Eu não pedi para estar aqui. Não escolhi esse casamento e certamente não estou interessada em disputar a atenção de um homem que sequer desejo. Mas, se existe uma coisa que você precisa entender, é que não vou aceitar ser humilhada dentro da casa para onde fui obrigada a vir. O silêncio se torna pesado. Olho para Dário. — Onde fica meu quarto? Ele me observa por alguns segundos. — Matteo vai acompanhá-la. Assinto. Passo por Larissa sem lhe dedicar outro olhar. Mas, antes de subir a escada, acrescento: — Ah, Larissa? Ela se vira. — Sim? Sorrio. — Da próxima vez que quiser me chamar de criança, tente não agir como uma. E sigo meu caminho.
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