Dário Santoro
São quase onze da noite quando finalmente consigo terminar de analisar os relatórios sobre o ataque.
Ainda não temos respostas suficientes.
E isso está começando a me irritar.
Alguém teve coragem de atacar um veículo da minha escolta em plena luz do dia.
Alguém que sabia onde estaríamos.
Alguém que, muito em breve, vai descobrir que cometeu o maior erro da própria vida.
Fecho a pasta.
Pego o celular.
Há algumas mensagens de trabalho.
Uma ligação perdida de Larissa.
E uma fotografia sobre minha mesa.
Uma pequena tira de papel.
Quatro imagens.
Pego-a.
Na primeira, Bianca está sorrindo.
Na segunda, fazendo uma careta ridícula.
Na terceira, está me olhando.
E na quarta...
Na quarta, seus lábios estão encostados em minha bochecha.
Observo a fotografia por mais tempo do que deveria.
Não me lembro da última vez que passei uma tarde inteira sem pensar exclusivamente nos negócios da família.
Sem reuniões.
Sem cobranças.
Sem precisar demonstrar autoridade a cada segundo.
Hoje, durante algumas horas, fui apenas Dário.
Não o Dom.
Não o homem responsável por centenas de vidas.
Apenas um homem acompanhando uma garota insuportavelmente falante às compras.
Uma garota que me obrigou a tomar sorvete.
Que me fez entrar em uma cabine de fotografias.
E que conseguiu algo que poucas pessoas conseguiram nos últimos anos.
Me fez rir.
Passo o polegar pela última imagem.
Bianca Bellini.
Minha prometida.
A mulher com quem vou me casar por causa de um acordo firmado antes mesmo de seu nascimento.
Durante anos, encarei esse casamento como uma obrigação.
Uma aliança necessária.
Um compromisso que deveria ser cumprido.
Nunca considerei a possibilidade de gostar da companhia dela.
Muito menos de sentir vontade de repetir um dia como o de hoje.
Meu celular vibra novamente.
Larissa.
Observo o nome na tela.
Não atendo.
Em vez disso, abro a gaveta da escrivaninha.
Coloco a fotografia dentro dela.
Depois penso melhor.
Retiro a tira.
Abro minha carteira e a guardo em um dos compartimentos internos.
Não sei exatamente por que faço isso.
Talvez porque Bianca tenha passado o dia inteiro me fazendo rir.
Talvez porque aquela fotografia registre um momento que não desejo esquecer.
Ou talvez porque, pela primeira vez em muitos anos, a ideia de voltar para casa não tenha sido motivada apenas pelas responsabilidades que me aguardavam.
Hoje, eu quis voltar porque sabia que ela estaria aqui.
Fecho a carteira.
Apoio-me na cadeira.
E encaro o teto por alguns segundos.
Porca miseria.
Estou começando a gostar da minha futura esposa.
E tenho a impressão de que isso vai me trazer muito mais problemas do que qualquer guerra entre famílias.