capítulo 14

2394 Words
Bianca Bellini Existem três coisas que deveriam ser proibidas por lei. A primeira é acordar antes das nove da manhã. A segunda é ser obrigada a participar de eventos sociais com pessoas que você detesta. E a terceira, definitivamente a mais grave, é receber a notícia de que sua família está chegando para uma visita. Principalmente quando sua família é composta por um pai que deveria estar preso, uma mãe que possui a personalidade de uma porta e uma irmã que provavelmente venderia a própria alma por uma bolsa de grife. Embora, pensando bem, talvez Bárbara já tenha vendido. O problema é que ninguém deve ter oferecido um valor satisfatório. — Eles chegam às quatro da tarde, senhorita. Encaro a funcionária parada diante da minha cama. — Você tem certeza? — Sim, senhorita. — Absoluta? Ela parece confusa. — Sim. Suspiro dramaticamente. — Que tragédia. A mulher aperta os lábios, claramente tentando não rir. — O senhor Santoro pediu que eu avisasse. É claro. Dário Santoro. O homem que consegue transformar minha vida em um verdadeiro espetáculo de horrores sem sequer sair do escritório. — Diga ao senhor Santoro que agradeço imensamente pela notícia maravilhosa. E que, caso eu desapareça misteriosamente antes das quatro, não será necessário organizar buscas. A funcionária sorri. — Mais alguma coisa, senhorita? — Sim. Descubra se temos arsênico na cozinha. Ela arregala os olhos. — Senhorita! Começo a rir. — Estou brincando, querida. Provavelmente. Encontro Dário no escritório pouco depois das dez. A porta está aberta. Ele conversa com Matteo, seu consigliere, enquanto observa alguns documentos. Os dois interrompem a conversa quando apareço. — Bom dia, cavalheiros. Matteo sorri discretamente. — Bom dia, senhorita Bellini. Dário ergue os olhos. — Bianca. Cruzo os braços. — Santoro. Ele me observa. — Algum problema? Solto uma risada. — Nenhum. Apenas descobri que o circo Bellini está vindo para a cidade e ninguém considerou necessário consultar a principal vítima. Matteo abaixa a cabeça. Tenho quase certeza de que está rindo. Dário fecha a pasta sobre a mesa. — Sua família precisa estar presente na oficialização. — Precisa mesmo? — Sim. — Não podemos substituí-los por fotografias? Bonecos de papelão? Uma chamada de vídeo? Tenho certeza de que existem alternativas bastante modernas. — Bianca. — Estou tentando ajudar. Matteo pigarreia. — Dom, posso retornar mais tarde? Dário assente. O homem passa por mim. — Boa sorte — murmura. Olho para ele. — Para mim ou para ele? Matteo sorri. — Para os dois. Gosto desse homem. É provavelmente a única pessoa sensata nesta casa. Assim que ficamos sozinhos, caminho até a escrivaninha. — Você pretende me obrigar a jantar com meu pai? Dário se recosta na cadeira. — Ele estará presente. — Não foi isso que perguntei. Ele sustenta meu olhar. — Não vou permitir que ele encoste em você. A resposta me surpreende. Por um instante, esqueço a provocação que estava preparando. — E minha mãe? — O que tem ela? — Infelizmente, também costuma falar. Dário ergue uma sobrancelha. — Não posso impedir que sua mãe fale. — Que pena. Você tem tantos homens armados. Achei que pudesse encontrar uma solução. Ele solta uma risada baixa. Sorrio. Mas logo fico séria novamente. — Dário, não quero ficar perto deles. Seu rosto muda. A expressão debochada desaparece. — Não ficará sozinha com nenhum deles. — Promete? Ele se levanta. Contorna a mesa e para diante de mim. — Prometo. Assinto lentamente. — Certo. Ele observa meu rosto por alguns segundos. — Está nervosa? Solto uma gargalhada. — Eu? Nervosa? Claro que não. Só estou considerando incendiar a ala de hóspedes para evitar a visita. — Não faça isso. — Você estraga todas as minhas ideias. Dário sorri. E, por um segundo, lembro da cabine de fotografias. Do sorvete. Da maneira como ele riu. Uma lembrança perigosamente agradável. Desvio os olhos. — Ah, e outra coisa. — Diga. — Se minha irmã tentar se jogar em cima de você, não me responsabilizo pelo que acontecer. Ele ergue uma sobrancelha. — Está preocupada? — Com sua integridade física, naturalmente. — A minha? — Sim. Bárbara é capaz de arrancar o braço de alguém se achar que existe uma aliança de diamantes na outra extremidade. Dário ri. — Vou tomar cuidado. Aponto um dedo para ele. — É bom mesmo. Saio do escritório antes que ele perceba que estou sorrindo. Outra vez. Às quatro e quinze da tarde, o inferno estaciona diante da mansão Santoro. Em três carros pretos. Com vidros escuros. E uma quantidade absolutamente desnecessária de bagagens. Observo a movimentação pela janela do salão. Meu pai é o primeiro a sair. Vittorio Bellini. Terno impecável. Cabelos grisalhos perfeitamente penteados. Expressão arrogante. A mesma expressão que utilizava quando entrava no meu quarto para reclamar de alguma coisa que eu sequer havia feito. Minha mãe surge logo depois. Elegante. Fria. Com um conjunto bege que provavelmente custou mais do que o salário anual de algumas pessoas. E então… Ah, meu Deus. Bárbara. Minha adorável irmãzinha. Desce do carro usando um vestido tão curto que começo a me perguntar se a costureira esqueceu metade do tecido. Os cabelos estão perfeitamente modelados. A maquiagem, impecável. E o decote… Bom. Digamos que, caso ela espirre, teremos um acidente de proporções internacionais. Mas espere… Onde está Luiggi? — Senhorita Bianca? Olho para a funcionária. — Sim? — O senhor Santoro está aguardando no hall. Suspiro. — Então vamos receber a família Addams. Dário está próximo à escadaria quando chego. Usa um terno cinza-escuro. Uma camisa branca. E aquela expressão que provavelmente faz homens adultos reconsiderarem suas escolhas de vida. Ele me observa descendo os degraus. Seus olhos percorrem meu vestido verde-esmeralda. O vestido que ele escolheu durante nossas compras. — Bonita — murmura quando me aproximo. Ergo uma sobrancelha. — Está tentando me distrair da tragédia que está prestes a acontecer? — Está funcionando? — Um pouquinho. Ele sorri. Antes que eu possa responder, as portas se abrem. Meu pai entra primeiro. — Dário! Sua voz ecoa pelo hall. Ele abre um sorriso exagerado. Aquele sorriso falso que sempre utiliza quando está diante de alguém mais poderoso. — É um prazer revê-lo! Dário aperta sua mão. — Vittorio. A voz dele é educada. Mas fria. Muito fria. Meu pai parece perceber. — Espero que esteja tudo bem. — Perfeitamente. Minha mãe se aproxima. — Dom Santoro, que prazer. Dário a cumprimenta com um aceno. Então os olhos dela encontram os meus. Seu sorriso diminui. — Bianca. Abro os braços. — Mamãe! Que surpresa desagradável! Dário tosse discretamente ao meu lado. Minha mãe aperta os lábios. — Continua com essa língua inconveniente. Sorrio. — E a senhora continua com essa expressão de quem chupou um limão. Algumas coisas nunca mudam. — Bianca! — meu pai rosna. Antes que ele continue, Dário coloca uma mão em minhas costas. Um gesto simples. Mas suficientemente firme para chamar a atenção de todos. — Vamos entrar — ele diz. — A viagem deve ter sido cansativa. Meu pai imediatamente muda de expressão. Impressionante. Dário deveria abrir uma escola. Talvez conseguisse ensinar boas maneiras ao meu pai. Ou, pelo menos, fazê-lo sentir medo suficiente para praticá-las. Então Bárbara aparece. — Dário! Meu Deus. A voz. Aquela voz. Minha irmã normalmente fala como uma pessoa relativamente normal. Mas, diante de homens ricos, parece desenvolver algum tipo de problema nas cordas vocais. Tudo fica mais doce. Mais arrastado. Mais irritante. Ela se aproxima sorrindo. — Finalmente temos a oportunidade de nos conhecer melhor! Dário inclina levemente a cabeça. — Bárbara. Ela olha para ele como se tivesse acabado de encontrar a última garrafa de água no deserto. — Bianca nunca comentou como você é… Faz uma pausa. Sorri. — Impressionante. Olho para o teto. Senhor, conceda-me paciência. Porque, se me conceder força, vou precisar de um advogado. — Engraçado, Bárbara — digo. — Eu também nunca comentei que ele é impressionante. Ela me olha. — Não estava falando com você. Sorrio. — Percebi. Você está tão ocupada tentando seduzir meu noivo que provavelmente esqueceu que ele já tem uma. O silêncio é imediato. Minha mãe arregala os olhos. Meu pai fica vermelho. Bárbara abre a boca. Dário… Dário está olhando para mim. Com aquela expressão perigosa de quem está tentando não rir. — Bianca! — minha mãe repreende. Dou de ombros. — O quê? Estou apenas ajudando minha irmã a lembrar de alguns detalhes. Bárbara cruza os braços. — Você sempre foi exagerada. — E você sempre foi muito generosa com homens comprometidos. Dário finalmente intervém. — Creio que todos estejam cansados da viagem. Olha para um funcionário. — Acompanhe nossos convidados aos quartos. Minha mãe parece aliviada. Meu pai concorda imediatamente. Bárbara, entretanto, não desiste. Ela se aproxima de Dário. — Espero que possamos conversar com mais calma durante o jantar. Dário sustenta seu olhar. — Naturalmente. Na presença de sua irmã, que, por sinal, é minha noiva. O sorriso dela vacila. O meu aumenta. Ah. Que homem maravilhoso. Quer dizer… Que resposta maravilhosa. Não vamos confundir as coisas. O restante da tarde transcorre em uma tranquilidade suspeita. Minha mãe está ocupada reclamando da decoração dos quartos. Meu pai desapareceu em alguma reunião com Dário e Matteo. E Bárbara… Bom. Bárbara provavelmente está tentando descobrir quantos zeros existem na conta bancária dos Santoro. Estou no meu quarto quando alguém bate à porta. — Entre! Uma funcionária aparece. — Senhorita, sua irmã gostaria de vê-la. Fecho os olhos. Meu Deus. Não posso ter cinco minutos de paz? — Diga que morri. A mulher parece confusa. — Senhorita? — Estou brincando. Pode mandar entrar. Bárbara aparece segundos depois. Usa um robe de seda e uma expressão de superioridade que conheço desde a infância. — Belo quarto. Olho ao redor. — Obrigada. Não fui eu quem construiu. Ela ignora. Caminha até a penteadeira. Observa os perfumes. As joias. As caixas de compras. — Parece que está aproveitando bastante. Cruzo os braços. — Tenho tentado sobreviver. Ela pega a caixa da pulseira que Dário me deu. — Isso é novo? — Sim. Abre o estojo. Seus olhos brilham. — Foi Dário quem deu? — Não. Encontrei em uma máquina de brindes. Ela me lança um olhar irritado. — Não precisa ser grosseira. — Então não mexa nas minhas coisas. Bárbara fecha a caixa. Coloca-a sobre a penteadeira. — Você tem muita sorte. Solto uma risada. — Sorte? — Vai se casar com um dos homens mais ricos e poderosos da Itália. Olho para ela. — E você vai se casar com um capo. Não era esse o acordo? Seu rosto se contrai. — Não é a mesma coisa. — Realmente. São dois homens diferentes. — Você sabe do que estou falando! Sorrio. — Sei. Está falando de dinheiro, poder e posição social. Seus três grandes amores. Ela se aproxima. — Você nunca mereceu isso. O sorriso desaparece do meu rosto. — Isso o quê? — Tudo isso. Ela faz um gesto abrangendo o quarto. — Essa casa. Essas roupas. Esse homem. Fico olhando para minha irmã. Por um instante, sinto aquela velha sensação. A mesma de quando éramos crianças. Quando ela recebia elogios por qualquer coisa. Quando eu era culpada por tudo. Quando minha mãe comparava nossos comportamentos e meu pai me lembrava constantemente de que eu precisava aprender a obedecer. Mas não estamos mais naquela casa. E eu não sou mais aquela menina. — Bárbara — digo calmamente. Ela ergue o queixo. — O quê? — Você pode querer minhas roupas, minhas joias e até meu quarto. Dou um passo em sua direção. — Mas não confunda minha falta de entusiasmo com permissão para tentar tomar aquilo que acredita ser meu. Ela solta uma risada. — Está com ciúmes de Dário? Reviro os olhos. — Vocês precisam urgentemente encontrar outro argumento. — Então não deveria se importar se ele me achasse atraente. Sorrio. Devagar. — Querida, Dário possui defeitos suficientes para preencher uma enciclopédia. Mas, até onde percebi, não sofre de problemas de visão. O rosto dela fica vermelho. — Sua… — Cuidado. Estamos em uma casa cheia de homens armados. Seria uma pena se alguém confundisse seus gritos com um pedido de socorro. Bárbara me encara. Depois se vira e caminha até a porta. Antes de sair, lança um último olhar. — Você acha que venceu alguma coisa, Bianca? Inclino a cabeça. — Não. Mas estou começando a achar que você perdeu. Ela sai batendo a porta. Suspiro. Que criatura desagradável. Definitivamente, minha mãe deveria ter considerado criar um cachorro no lugar dela. O jantar de oficialização acontece na noite seguinte. E descubro que oitenta mafiosos reunidos em uma única mansão conseguem produzir uma quantidade impressionante de tensão. Principalmente quando metade deles parece estar avaliando quem será o primeiro a morrer caso alguém faça um comentário inadequado. Estou diante do espelho, usando um vestido longo azul-marinho. Elegante. Discreto. Com um decote delicado e as costas parcialmente descobertas. Meus cabelos estão presos em um coque baixo. A maquiagem é suave. E a pulseira que Dário me deu repousa em meu pulso. Observo meu reflexo. Por alguns segundos, quase não me reconheço. Pareço uma mulher prestes a participar de um evento importante. Uma mulher segura. Confiante. Alguém que sabe exatamente o que está fazendo. Uma pena que seja tudo mentira. Porque, por dentro, estou considerando seriamente pular pela janela. Uma batida na porta interrompe meus pensamentos. — Entre. Dário aparece. E, por um segundo, esqueço completamente como respirar. Terno preto. Camisa branca. Gravata escura. Cabelos perfeitamente arrumados. Aquele homem deveria ser proibido de usar roupas sociais. É um atentado contra a sanidade pública. Ele para na entrada. Seus olhos percorrem meu vestido. Depois encontram os meus. — Está linda. Meu coração resolve dar uma cambalhota. Traidor. — Obrigada — respondo. — Você também está apresentável. O canto de sua boca se ergue. — Apresentável? — Não quero alimentar seu ego. Já ocupa espaço suficiente nesta casa. Ele ri. Depois se aproxima. — Nervosa? — Não. Ele ergue uma sobrancelha. Suspiro. — Talvez um pouquinho. Dário estende a mão. — Venha. Olho para ela. Depois para seu rosto. — Você prometeu que não me deixaria sozinha com meu pai. — E vou cumprir. Hesito. Então seguro sua mão. Seus dedos envolvem os meus. Quentes. Firmes. Estranhamente tranquilizadores. — Bianca? — Hum? — Hoje, aconteça o que acontecer, fique perto de mim.
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