Bianca Bellini
Saio do carro de Lorenzo e acompanho Dário, que anda alguns passos à minha frente. Imagino que estejamos indo até algum carro blindado estacionado por ali, mas seguimos por um caminho diferente.
Vamos até a lateral da boate. Sempre soube que ali havia uma garagem privada, à qual apenas algumas pessoas tinham acesso, já que existiam seguranças por todos os lados.
Fico observando como esse i*****l consegue entrar sem nenhum impedimento.
A garagem possui vários carros de luxo, alguns que eu sequer sabia que existiam, já que nunca tive interesse em tudo o que a máfia podia oferecer.
Chegamos a uma área iluminada por uma luz vermelha e baixa. Naquele momento, considerando a companhia que estou tendo, chego a pensar se meu destino final naquela noite não seria o próprio inferno.
Enquanto caminhamos, reconheço um homem assim que a iluminação do ambiente muda de vermelho para branco, permitindo que eu tenha uma visão melhor dos carros e das pessoas presentes.
Um homem alto, vestido de preto e com cara de poucos amigos, aproxima-se de Dário e lhe diz alguma coisa que não consigo ouvir.
Mas consigo reconhecê-lo.
Meu querido espírito obsessor!
Aos doze anos, quando tentei dar meu primeiro beijo, descobri que aquele homem existia. Foi também nessa idade que percebi que, não importava o que eu fizesse, não conseguiria cancelar esse maldito casamento.
A menos que Dário morresse.
Confesso que desejei isso inúmeras vezes.
Estava observando os carros quando avistei um que chamou minha atenção.
Franzi a testa, tentando me lembrar de onde conhecia aquele modelo.
Ah, não!
Não podia ser!
Um sorriso travesso surgiu em meus lábios quando finalmente me lembrei.
Era praticamente igual ao carro de Lorenzo.
Olhei para Dário, que caminhava tranquilamente ao meu lado, em direção ao veículo que eu observava, com aquela expressão arrogante de quem era dono do mundo.
Bom, tecnicamente, ele se achava dono de boa parte dele.
E, infelizmente, parecia acreditar que também era meu dono.
Coitado.
— Dário! — chamei, tentando conter a vontade de rir.
— O que foi agora, Bianca? — respondeu, sem sequer olhar para mim.
Nossa, que homem simpático!
Revirei os olhos, mas decidi que não perderia a oportunidade de irritá-lo.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Você vai fazer de qualquer maneira.
Após sua resposta, meu sorriso se alargou, fazendo com que ele me observasse com mais cautela.
Nossa, como você me conhece!
Ele soltou um suspiro impaciente.
— Desembucha.
Apontei para o carro.
— É seu?
Dário acompanhou a direção do meu dedo e franziu a testa.
— Não, Bianca. Está na minha garagem privada porque resolvi abrir um estacionamento.
Revirei os olhos.
— Nossa, que grosseria! Só fiz uma pergunta.
— E eu respondi.
— Respondeu parecendo mais um cavalo do que uma pessoa normal.
Cruzei os braços, fingindo analisar o veículo com bastante atenção.
— Interessante…
— O quê?
— Nada, não. Só estou pensando numa coisa.
— Isso costuma ser perigoso.
Ignorei a provocação.
— É que esse carro é muito parecido com o do Lorenzo. Até a cor é igual.
Dário virou lentamente o rosto em minha direção.
— E daí?
Ah, pronto!
Pela cara de poucos amigos, sabia que estava conseguindo alcançar meu objetivo.
Era agora.
— Nada! — Dei de ombros, segurando o riso. — Só não sabia que você tinha tanta inveja dele.
O silêncio que se seguiu foi maravilhoso.
Sua expressão se tornou indescritível, mas logo em seguida sua postura mudou completamente.
Dário me encarou como se estivesse tentando decidir se havia escutado corretamente.
— Repete.
Mordi o lábio para não gargalhar.
— Eu disse que não sabia que você tinha tanta inveja do Lorenzo. Quer dizer, o homem compra um carro e você vai lá e compra um igualzinho? — Balancei a cabeça, fingindo decepção. — Que feio, Dário! Um homem da sua idade querendo imitar os outros!
Vi seu maxilar se contrair.
Meu Deus, como era divertido irritar aquele homem!
— Bianca — começou, num tom perigosamente calmo —, você realmente acredita que eu escolheria um carro por inveja de outro homem? Principalmente se tratando de Lorenzo?
A incredulidade era evidente em sua voz, especialmente ao mencionar o nome dele.
Coloquei o dedo no queixo, fingindo refletir.
— Humm… Deixa eu pensar.
Ele estreitou os olhos.
— Bianca!
— Olha, eu não queria dizer nada, mas as evidências estão bem aqui! — Apontei novamente para o veículo. — E pensar que o grande Dom de Nápoles tem um ídolo secreto!
Dário passou a mão pelo rosto.
— Haja santa paciência…
— Não precisa ficar envergonhado! — continuei, dando dois tapinhas em seu braço. — Todo mundo admira alguém. Até você!
Ele segurou meu pulso antes que eu pudesse me afastar, sem apertá-lo.
— Terminou o seu espetáculo?
Olhei para a mão dele e depois para seu rosto.
— Depende. Você vai admitir que copiou o Lorenzo?
Dário soltou meu pulso e se aproximou apenas o suficiente para me encarar de frente.
A proximidade fez com que eu sentisse seu cheiro amadeirado e estranhamente bom.
— Escute bem, principessa. Eu não preciso copiar Lorenzo, nem qualquer outro homem. Compro o que quero, quando quero. Entendeu?
Sorri docemente.
— Entendi.
Ele pareceu satisfeito.
Pobrezinho.
— Então você está dizendo que foi só uma coincidência?
— Exatamente.
Assenti algumas vezes.
— Claro, claro… Uma coincidência enorme!
— Bianca!
Não aguentei.
Caí na gargalhada.
A expressão de indignação daquele homem valia cada segundo da minha existência.
Dário me observou em silêncio por alguns instantes. Então, para minha surpresa, um sorriso de canto apareceu em seus lábios.
Aquilo não era bom.
Definitivamente, não era bom.
— Sabe de uma coisa? — perguntou.
Parei de rir aos poucos.
— O quê?
— Você fala demais.
— E você é muito m*l-humorado. Ninguém é perfeito.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Continue assim, Bianca. Estou começando a descobrir maneiras interessantes de lidar com essa sua língua afiada.
Ergui uma sobrancelha.
— Isso foi uma ameaça?
— Não, principessa. Foi uma observação.
Dei um passo para trás, cruzando os braços.
— Pois eu também tenho uma observação.
— Imagino que tenha — respondeu, com um sorriso de canto.
Abri meu sorriso mais encantador.
— Da próxima vez, compre um carro de outra cor. Assim fica menos óbvio que você quer ser igual ao Lorenzo.
Dário fechou os olhos por um segundo. Em seguida, abriu-os, me encarou e abriu a porta do passageiro para que eu pudesse entrar.
— Entre no carro, Bianca.
— Já estou indo, senhor invejoso!
Entrei no carro antes que ele pudesse responder.
E, quando Dário ocupou o banco do motorista e bateu a porta com um pouco mais de força do que o necessário, precisei virar o rosto para a janela.
Porque, se olhasse para ele mais uma vez, começaria a rir novamente.
Talvez aquele casamento fosse um verdadeiro inferno.
Mas, se eu teria que conviver com o d***o, faria questão de me divertir.