Capítulo 1

752 Words
Bianca Bellini Minha criação sempre foi muito restrita em relação ao mundo lá fora. Fui criada para ser a esposa perfeita, submissa aos desejos e às escolhas do meu marido, porque eu seria a esposa do Dom. Um homem cujo rosto nunca vi, mas de cuja existência sempre soube… Cresci ouvindo dizerem o quanto ele era impiedoso, respeitado e temido. Mas, por mim, que se f**a toda essa palhaçada. Não pedi por esse casamento e muito menos por essa vida. Minha convivência com meus familiares estava cada dia mais insuportável. Minha mãe é a famosa esposa perfeita, que acata tudo o que lhe é dito sem questionar ou hesitar. Meu irmão cumpre bem o seu papel de protetor, mas nem sempre consegue estar tão presente em nossas vidas e, por isso, nem sempre pode nos ajudar. Já meu pai é um egoísta que pensa que tudo precisa funcionar à base de moeda de troca. E, bom… a moeda de troca da vez seria eu. Isso fazia com que eu sentisse nojo de mim mesma e de toda essa palhaçada. Dom Dário sempre me mandou presentes, todos muito caros, exibindo luxo e ostentação. E eu? Bem… Costumava guardar tudo dentro do meu closet e deixar cair no esquecimento. O que eu realmente queria estava muito longe de ser algo que o dinheiro pudesse comprar. Eu queria paz. Queria liberdade. Coisas que acho bem improvável conseguir em algum momento da minha vida. Pensei que só veria Dário no dia em que nosso noivado fosse oficializado perante o Conselho, quando, pelo que sei, deveríamos fazer um pacto de sangue. Mas a minha realidade estava, naquele momento, bem diante dos meus olhos. Dário vestia um terno preto impecável. Os três primeiros botões da camisa, também preta, estavam abertos, deixando à mostra uma corrente de ouro não muito grossa em seu pescoço. Completavam o traje a calça social e os sapatos que provavelmente custavam o valor de algum dos meus órgãos vitais para um moribundo disposto a pagar qualquer quantia para tê-lo. De relance, dava para perceber que seus olhos eram claros. Por causa da escuridão da noite, eu não conseguia distinguir a cor com total nitidez, mas de uma coisa tinha certeza: ele era um homem alto, com cerca de um metro e oitenta e oito, talvez um e oitenta e nove. Tinha cara de poucos amigos, os cabelos em um corte social e a barba bem aparada. Um belo homem, se não fosse um i****a que achava que podia controlar o mundo inteiro à sua volta de uma forma tão escrota e doentia. Sempre ouvi dizer que Dom Dário fazia todos se curvarem diante de suas vontades. Mas, se ele pensava que comigo seria assim, estava redondamente enganado. Eu faria da vida daquele homem um inferno. Sem reservas e sem economia. Ele queria uma esposa? Pois teria. Mas, em compensação, teria também uma grande dor de cabeça. Decidi que sairia naquela noite para dançar, beber e aproveitar meu último mês de “liberdade”. Não que eu realmente tivesse possuído alguma desde a infância, mas, a partir da data do meu aniversário, me tornaria uma mulher casada com o próprio d***o. Só havia uma coisa martelando na minha cabeça: O que esse i****a estava fazendo ali? Como ele sabia onde eu estava? Tinha certeza de que essas dúvidas continuariam rondando a minha cabeça por um bom tempo, já que aquele i****a parado à minha frente provavelmente jamais me responderia. Então, se ele queria jogar comigo, assim seria feito. Aquele homem nunca tinha aparecido na minha frente em dezessete anos de vida e, em uma bela noite, simplesmente decidiu que aquele seria um bom momento? Olhei o ambiente ao meu redor antes de voltar minha atenção para ele. Dário continuava de pé, parado, apenas me observando. Abri um sorriso de canto de boca. Não era sensual e muito menos contente. Era puro sarcasmo e deboche. — Meu noivo… Deveria ter me avisado que estaria por aqui. Assim, eu poderia ter feito um bolinho e um café para esperar sua visita. Ele começou a se aproximar do carro em passos curtos, exibindo uma falsa calma que chegava a ser assustadora. Parecia um leão prestes a atacar sua presa. Mudou a posição dos braços e os cruzou diante do peito. — Oh, não, minha noivinha! Eu perderia a oportunidade de ver com meus próprios olhos o que você anda aprontando longe dos meus cuidados. Suas palavras fizeram meu estômago se comprimir. E não de uma forma boa.
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