Sentindo-me transparente
Há dias em que me sinto linda, brilhante.
Olho no espelho e vejo meu rosto refletido, os olhos azul turquesa, os lábios pequenos só carnudos, as sardas que m*l sujam a pele ao redor do nariz.
Eu corro minhas mãos por meus cabelos ruivos e sedosos, dissolvendo pensamentos com meus dedos.
Naqueles dias, ver que meu marido não me vê me fere de morte: ele não parece dar importância ao que lhe pertence por direito, por contrato, e como um míope não vê o que está perto dele.
Nunca me arrumei para os outros, mas ser ignorada assim, ser transparente, irrelevante, menos que uma mosca chata, é humilhante, e você nunca se acostuma.
Pego com raiva o lenço de sempre, descolorido por todas as vezes que o usei, e aprisiono meu cabelo, e com a mordida desse lenço machuco meu coração, alma, orgulho, amor próprio.
E ele nem entende minha raiva.
Ele me observa de passagem, como se não conseguisse colocar toda a situação em foco, e como sempre me afogo nesse m*l pensamento, e sufoco as lágrimas que gostariam se libertar, engolindo a amargura e aquele nó na garganta que não não quero descer.
Amanhã vai mudar, ou melhor, espero que amanhã mude.
* * *
"Esse penteado de cabelo fica muito bem em você, Misia!"
A voz de Pietro falou aquelas palavras, foi como óleo fervendo para meus ouvidos.
Senti minhas bochechas, meu pescoço ficarem vermelhos, e instintivamente baixei meu olhar, sem saber exatamente como responder.
Não estava acostumada a receber elogios, fazia tanto tempo que...
Eu queria ouvir aquelas palavras da boca do meu marido, em muitos sonhos eu desejei que isso acontecesse, e em vez disso aquele homem que não me pertencia fez minha pele enrugar com um arrepio, fez o desejo de prazer escondido por dentro se tornar realidade.
Pietro era um colega que trabalhava na administração do supermercado, sempre sorrindo, com cabelos escuros levemente compridos, habilmente desgrenhados.
Para dizer a verdade, eu não tinha prestado atenção nele até que seu olhar começou a pegar o meu, insistentemente. Ele começou a me cumprimentar e estava procurando oportunidades para iniciar uma conversa comigo. E aí começaram a chegar os primeiros agradecimentos, os primeiros elogios velados.
Eu escutei, inconsciente, com sede, lamentavelmente precisando de apreciação.
Estranho, digo, porque minha educação sempre me impediu de desfrutar da sensação desconhecida de ser apreciada.
Na minha família os elogios eram uma mercadoria rara, então ao me casar com Filippo eu não tinha mudado a situação: ele era um homem tão fechado que muitas vezes eu tinha a sensação de que ele nem me notava.
Mas eu tinha casado com ele.
E agora não havia nada a fazer a não ser aceitar o que o prato à minha frente contém, sem sonhar com outros pratos.
Ouvir as palavras de Pietro foi um jogo de matança, estou ciente disso, mas ouvindo suas palavras, cada sombra desaparece em um flash, de dentro do meu coração.
Mas não dura muito: à medida que o eco dessas frases desaparece, enquanto Pietro desaparece da minha vista, meu coração congela.