A busca por uma vida

1345 Words
A busca por uma vida Trabalho, casa. Casa, trabalho. Aqui está a existência de uma pessoa de trinta anos. Minha existência. Como menina eu nunca poderia me permitir grandes diversões, porque não era bom sair sozinha, muito menos na companhia do meu namorado. Agora, porque meu marido prefere cochilar na poltrona da sala em vez de viver. Claro que nem sempre foi assim. Queríamos um filho, Deus sabe o quanto eu o queria. Antes do casamento parecia que eu estava fugindo da ideia de um compromisso tão grande, então com o passar dos meses entre nós se formou um espaço, um vazio que ousaria dizer que pensei poder preencher com uma criança. Filippo não parecia ter as mesmas necessidades que eu, seu trabalho como segurança era suficiente para ele. Meu marido era um bom homem, nunca me deixou faltar nada, mas sua falta de sensibilidade e sua frieza me deixavam atordoada. Ao final de cada mês o ciclo menstrual vinha inexoravelmente destruir meus sonhos, alimentados naqueles três ou quatro dias de atraso. Duas, três, quatro vezes. Foi demais. Muitas esperanças desiludidas... Cada um de nós pensou que provavelmente havia algo errado com o outro, um mecanismo que não funcionava corretamente, uma faísca que não disparou na hora certa. Então, uma vez que o atraso chegou a dez dias: não falei sobre isso, como se isso pudesse tornar meu sonho inquebrável, que, no entanto, não passava de uma bolha de sabão, bonita, iridescente, carregada nas asas do vento, mas destinada a desaparecer em um plof. Silenciosamente deixei os minutos passarem, e os dias e semanas se tornaram meses. Há quase dois meses embalei em meus pensamentos a ideia de uma criança, um grão de vida que pudesse dar sentido à minha, que iluminaria a escuridão da minha existência. Por muito tempo depois daquela noite, não tive mais lágrimas para chorar. Acordei durante o sono com pontadas na parte inferior do abdome que pareciam querer rasgar minhas entranhas. Em silêncio consegui, arrastando-me, chegar ao banheiro onde, ao acender a luz, uma descoberta h******l me esperava. A camisola estava encharcada de sangue. Lembro-me apenas de gritar. Então nada. Depois só a vaga lembrança do meu marido tentando me fazer recobrar a consciência, transportando-me no carro enrolada em um cobertor, depois os médicos, as enfermeiras como abelhas atarefadas ao meu redor, as luzes brilhantes na cama para iluminar minha nudez. Meu bebê. Meu bebê. Devolva meu bebê. Me devolva. Onde é que o colocaram? Cadê? Cadê? Onde você escondeu? Onde você o pegou? Foi bom demais. Eu sei que foi bom demais. Eu senti como se estivesse louca. Nada mais fazia sentido, nada parecia importante o suficiente para viver. Filippo estava quase sempre sentado ao lado da minha cama, mas não olhava para mim, não falava comigo. Naqueles dias de dor, sua presença não me confortava, em parte porque eu acreditava que ele estava ali apenas porque era forçado pela situação, em parte porque parecia que eu tinha que suportar sua presença. Pareceu-me que nas poucas vezes em que ele voltou o olhar para mim, apontando-me seus olhos negros, ele me culpou sem possibilidade de apelação por não ter sido capaz de segurar a vida de nosso filho. Uma manhã acordei e Filippo já estava lá. “Mas você percebe que nem conseguiu segurar meu filho. Mas que mulher você é, que tipo de desgosto você é, que nem mesmo uma criança pode trazer ao mundo!" Seus olhos me encararam, tanto que não consegui segurar seu olhar, baixando o meu. "Você nem tem coragem de olhar para mim, não é?" Ele saiu, batendo a porta, com um barulho tão alto que me fez pular. Lágrimas silenciosas começaram a rolar pelo meu rosto, e eu senti dolorosamente a falta de minha avó. Fechei os olhos molhados de lágrimas e imaginei suas mãos enrugadas acariciando minha nuca e minhas bochechas. Eu parecia sentir seu cheiro e a suavidade de seu peito onde eu queria deitar minha cabeça mesmo por um momento. Nesse momento minha mãe entrou. Eu não tinha pensado em ligar para ela, mas talvez Filippo tivesse. "Certamente você não se cuidou nesse seu trabalho e aqui está você!" A doçura de minha avó não havia passado nem minimamente para sua filha, minha mãe. Inexplicável como uma pessoa tão gentil poderia trazer ao mundo uma mulher tão diferente dela. Quem sabe como meu filho teria sido? “Você tem tudo o que precisa? Eles te tratam bem aqui?" Minha mãe era prática e confiável, uma planejadora de vida perfeita, impecável, mas completamente seca em termos de sentimentos. Respondi-lhe com um sorriso cansado, sem dizer uma palavra. "Mas, minha estrela, você não é a primeira nem a última a fazer um aborto, continue com sua vida, é inútil fazer essa cara!" Abri os olhos olhando para ela, para ver se talvez eu estivesse sonhando com tudo, mas ela estava ali na minha frente, com as mãos nos quadris. Quem sabe se meu filho teria parecido com ela ou comigo? * * * Os médicos diziam que o feto nunca tinha estado lá, que a minha tinha sido uma gravidez ectópica, que eu não tinha perdido a vida de uma criança porque isso nunca aconteceu, que eu era tão jovem que ainda tinha muitos anos para dar à luz uma criança, qual, qual, qual. Um médico idoso, vendo as condições em que eu estava, tentou me explicar o que havia acontecido. Ele falou comigo em termos técnicos que me fizeram lembrar de alguma aula de ciências. "Querida menina" concluiu o médico, colocando sua mão quente sobre a minha "você não podia fazer nada para que as coisas fossem diferentes". Ter as explicações médicas do ocorrido não aliviou em nada a dor da depredação do meu filho, nem tirou dos meus ouvidos as acusações de Filippo de não poder gerar um filho, de ser meia mulher. Fui para casa ainda chocada. E depois de alguns dias eu queria voltar ao trabalho: estar constantemente ocupada ajudava minha mente parar, mesmo que apenas por alguns segundos, de me atormentar com sentimentos de culpa que me dominavam e me deixavam sem fôlego. No trabalho todos me tratavam com condescendência, e isso me magoava porque me dava a impressão de que realmente havia algo errado comigo. Aquele nicho que eu havia preparado para meu filho parecia petrificar, e entre mim e Filippo parecia construir um muro, uma rocha intransponível que nos impedia até mesmo do menor contato. * * * Por alguns anos, tentamos ter relações sexuais, sem esperança de poder procriar. Filippo franziu a testa para mim e só falava comigo quando forçado, em monossílabos. Os testes que fizemos mostraram que nenhum de nós era estéril, mas apenas que juntos provavelmente não poderíamos gerar uma nova vida. Os quilômetros de distância entre nós aumentaram. Um dia tive a infeliz ideia de propor ao meu marido uma solução que já vinha zumbindo na minha cabeça há algum tempo: "Filippo, pensei que poderíamos adotar uma criança, por outro lado, se realmente não pudermos trazer uma ao mundo... há muitas crianças esperando por uma família. Sabe, falei com uma colega no escritório e ela me disse que em alguns meses poderíamos conseguir..." "Poderia o quê?" "Pegar uma criança para adoção..." "Você está brincando comigo? Criar um filho de não sei quem, me matando por um pirralho que nem sequer tem meu sangue? Você é muito louca! " O vaso, que estava rachado, se despedaçou com essas palavras. Ele está cochilando na espreguiçadeira, de camiseta. Eu penso em fugir. Mas como posso fazer isso? Os meus pais iriam morrer, ensinaram-me que certas coisas não se fazem. Um compromisso é um compromisso, e deve ser mantido mesmo que isso envolva sacrifícios, mesmo que isso envolva um pouco de infelicidade. No meu caso, sem dúvida, eu poderia ter dito mesmo que envolvesse desistir de viver. E assim continuei a vegetar. Anos se passaram. E os invernos seguiram os outonos. Está tudo bem. Tudo, menos minha existência, que nem se parecia com o que eu não sonhava mais, nem mesmo à noite.
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