Conversando com a sua avó

1050 Words
Na manhã seguinte, Lívia acordou cedo e a primeira coisa que fez foi chamar sua amiga Inês para sua casa. Inês, uma morena simpática de 30 anos, morava ao lado e trabalhava em casa com sua pequena barraca de sanduíches naturais. _____ Bom dia, Lívia. O que deu em você, mulher, para me acordar a essa hora da manhã? — disse Inês, sorrindo e brincando assim que chegou à casa de Lívia. _____ Bom dia, amiga. Desculpe fazer você levantar tão cedo, sabendo que você fica preparando seus sanduíches até tarde. É que preciso muito da sua ajuda, ou melhor, vou precisar muito de você enquanto estiver fora — respondeu Lívia, segurando as mãos dela por cima da mesa da cozinha de sua minúscula e apertada casa. ______Como assim? Você vai viajar? — perguntou Inês, curiosa. _____ Se tudo der certo como estou rezando para dar, vou viajar ainda esta tarde. Surgiu uma grande oportunidade para mim, de mudar de vida e dar uma vida melhor para minha vozinha — disse Lívia, muito empolgada. _____ Nossa, que legal! Fico feliz por você, mas que oportunidade é essa? — perguntou Inês, novamente curiosa. ____ Ontem, na boate, um cara distinto que vinha frequentando o lugar há algumas noites me observando, me convidou para trabalhar na boate dele no exterior. Ele prometeu que eu ganharia muito dinheiro lá. Você sabe que meu grande sonho sempre foi ter dinheiro suficiente, não por mim, mas para tirar minha avó desse buraco e dar uma casa e uma vida melhor para ela. Então, claro que aceitei. Só preciso assinar o contrato para embarcar hoje mesmo para a Europa. Estou tão empolgada que nem lhe ofereci um café. Senta, amiga, e toma um café comigo — disse Lívia, sorrindo. _____ Por mim, tudo bem. Você sabe que sempre poderá contar comigo, amiga, e vou cuidar da Dona Ana com todo carinho. Mas, Lívia, vê se investiga primeiro se esse homem é confiável — disse Inês, preocupada. ____Eu já fiz isso. Conversei com a dona da boate, e ela falou que ele já levou muitas garotas para o exterior, e todas se deram muito bem. Inclusive, ela me disse que foi ela quem falou sobre mim para ele, e eu nem sabia — disse Lívia, sorrindo feliz. Enquanto Lívia explicava o que queria de Inês, sua avó chegou à cozinha e ouviu quando ela disse que não pretendia ficar muito tempo fora do Brasil, apenas o suficiente para juntar um bom dinheiro e dar todo o conforto e descanso que ela merecia. ____Bom dia, Inês. Bom dia, minha neta. Eu cheguei a tempo de ouvir você dizer que pretende me abandonar, ainda mais para bem longe de mim — disse sua avó, dando-lhe um beijo no rosto e sentando-se à mesa com elas. _____ Vó, eu nunca vou abandonar a senhora. Mas realmente terei que fazer essa viagem e vou embarcar hoje à tarde. Quero que saiba que só farei esse sacrifício de me separar da senhora porque quero ganhar dinheiro suficiente para tirá-la daqui e proporcionar todo o conforto e descanso que a senhora merece, minha rainha. A senhora passou a vida toda costurando para fora para me sustentar — disse Lívia, segurando a mão da avó e depositando um beijo nela. _____ Filha, eu não gosto quando você chama nossa casinha de buraco, porque é ela que nos protege da chuva e do sol, e foi o que seus pais deixaram para nós duas — disse sua avó, repreendendo-a. — Desculpe, vó. A senhora está certa, mas sabe que sempre quis mudar de vida e dar-lhe tudo o que merece. Agora que essa oportunidade apareceu, não vou desperdiçar, mesmo que tenha que fazer o enorme sacrifício de ficar longe da senhora por uns três meses, que é o tempo que calculei suficiente para juntar o dinheiro que quero e voltar. O salário que o tal Gino me prometeu é muito alto. Ele é um cara legal, pelo sotaque, acho que é italiano. Então, sua boate é na Itália — disse Lívia, animada, mas ao mesmo tempo triste pela preocupação nos olhos de sua avó. — Lívia, se eu pudesse, impediria você de fazer essa loucura de viajar com um estranho que você nem conhece. Mas como você já é maior de idade, não tenho mais como impedi-la. Também sei que quando enfia uma coisa na cabeça, não sossega enquanto não fizer. Só vou pedir que se cuide e me ligue assim que chegar lá. Não se preocupe com dinheiro, Lívia. Eu já falei que com minha aposentadoria e o dinheiro que ganho com as costuras, você nem precisava trabalhar tanto — disse sua avó, olhando com preocupação para a neta, como se estivesse tendo um mau pressentimento, mas não quis dizer nada para não desanimá-la, já que estava tão feliz. — E a Inês? O que ela está fazendo aqui tão cedo? Tem a ver com a viagem repentina? — perguntou sua avó, séria e curiosa. — Chamei a Inês porque ela vai cuidar da senhora para mim durante o tempo que eu estiver fora. Vou sempre depositar dinheiro para a senhora e para ela assim que começar a receber meu salário. Assim que der, volto para o Brasil — disse Lívia, sorrindo. — Estou ficando cada vez mais preocupada, Lívia. Volto a falar que, por mim, você não faria essa viagem, ainda mais para um país estrangeiro onde não conhece ninguém e nem fala a língua. Sinceramente, não acredito que como garçonete vai ganhar tanto dinheiro assim como pensa — disse Ana, receosa. Lívia esqueceu que sua avó não sabia que, na verdade, ela era stripper. Nunca diria isso para não causar mais preocupação. — Engano seu, vó. Lá, eles pagam muito bem, e pelo que Gino falou, vou receber o dobro do que ganho nos meus dois empregos aqui no Barril — disse Lívia, muito animada. — Tudo bem, Lívia. Faça como quiser, mas não fique muito tempo por lá. Você sabe que é tudo o que tenho, e não sei se vou aguentar tanto tempo sem você — disse sua avó, segurando suas mãos com um sorriso triste. Lívia odiava ver aquela tristeza nos olhos dela, mas sabia que estava fazendo isso porque a amava e queria lhe dar uma vida melhor.
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