CAPÍTULO 1 — CONHECENDO O REI
Rei Narrando.
Me chamo Rayan Ferraz, tenho vinte e oito anos, sou moreno, alto, forte e tenho tatuagens espalhadas pelo corpo. Hoje sou o dono do Morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro.
Mas não se iluda com isso. Não sou filho do dono, não sou herdeiro de nada. Eu sempre fui um ninguém. Estou onde estou hoje com muito esforço.
Não lembro muito da minha infância. Lembro vagamente de uma casa grande, cheia de crianças, onde dormíamos pelo chão e éramos obrigados a pedir esmola pelas vielas para evitar tomar surras diárias.
Se não me engano, aquela mulher morreu ou nos abandonou. Quem ela era, eu não sei. Se era do meu sangue, também não sei.
A minha vida começou de verdade quando eu tinha uns doze ou treze anos, quando comecei a viver por mim mesmo.
Sempre fui sozinho. Não sei quem são meus pais, nem se tenho irmãos. Não sei praticamente nada sobre a minha vida. Só tenho um nome na certidão de nascimento, com uma mãe que nunca vi e um pai desconhecido.
Essa é a única informação que eu tenho sobre mim.
Quando completei doze ou treze anos, cansei dos mais velhos que viviam naquela casa, me obrigando a ficar pedindo dinheiro para eles enquanto eu mesmo passava fome.
Saí de lá sem olhar para trás.
Pedi emprego na boca. Era o único lugar que daria uma oportunidade para um menino de rua como eu.
E consegui.
Comecei como aviãozinho. Conseguia dormir pela boca mesmo e comer com o dinheiro que ganhava. Era pouco, mas, para quem não tinha nada, se tornava muito.
Vivi nisso por dois anos.
Estava mais velho, mais esperto, e me passaram para vapor, vendendo drogas. Ganhava mais, consegui comprar algumas roupas e alugar um barraco para mim.
Conheci pessoas que me ensinaram a não confiar em ninguém.
Moleques que se faziam de amigos e roubavam meu dinheiro.
Mulheres que se aproximavam apenas por interesse.
Isso foi um gatilho para mim.
Me dediquei aos estudos, principalmente a lidar com números. Passava horas, madrugada adentro, dentro de uma lan house, aprendendo a trabalhar com números. Isso me permitiu não ser roubado novamente.
Dois anos depois, ninguém mais fazia de mim um trouxa.
Ninguém mais tentava me roubar.
E, quando tentavam, eu encarava, perdia mais lutava.
Só que eu era magro demais. Fraco demais.
Outro gatilho.
Entrei em uma academia que, até hoje, é meu hobby.
Aprendi a me cuidar, a treinar.
Meu corpo mudou.
Meu rosto mudou.
Minha vida mudou.
As mulheres começaram a se jogar aos meus pés.
Eu gostava daquilo.
Chamar atenção me dava ainda mais gás para continuar.
Aos dezoito, fiz minha primeira tatuagem.
Depois disso, não parei mais.
Hoje tenho várias tatuagens espalhadas pelo corpo, principalmente nos braços, peito e pescoço.
Mas ainda era um menino bobo que se encantou pela primeira mulher que falou que me amava.
Luana.
Ela me tinha aos pés.
Eu fazia tudo que ela queria. Entregava todo o meu dinheiro para realizar as vontades dela.
Coisa de menino carente, quando nunca teve amor na vida e se agarra à primeira pessoa que diz sentir alguma coisa por ele.
E, mais uma vez, fui traído.
Humilhado no meio do baile.
Quebrado por dentro.
Jurei para mim mesmo que mulher nenhuma chegaria tão perto de mim novamente.
Me dediquei a subir na vida para nunca mais passar por aquilo.
Paguei para aprender a atirar e até eu me surpreendi com as minhas habilidades.
A arma virou um brinquedo nas minhas mãos.
Eu nem precisava pensar muito. Apontava e atirava.
Subi mais uma vez de cargo.
Comecei a ajudar o gerente e também nos assaltos fora do morro. Todos os que eu fazia eram bem executados.
Com isso, comprei uma casa.
Depois um carro.
E a minha primeira moto.
Foi quando comecei a chamar a atenção do dono.
Quando me dei conta, tinha virado seu braço direito, aos vinte e três anos.
Ele era velho, sozinho, sem família ou herdeiros.
Morreu de infarto.
E, aos vinte e cinco, eu assumi.
Não teve intervenção.
Com tudo que passei, aprendi a ser frio, calculista e observador.
Aprendi a ser respeitado.
E temido.
O respeito veio bem antes de eu assumir, porque o antigo dono praticamente não dava mais as caras depois que me tornei seu homem de confiança.
Era sempre eu quem ia resolver.
Se precisava bater, eu batia.
Se precisava matar, eu matava.
Se precisava ajudar, eu mesmo ajudava.
Foi daí que veio o meu vulgo.
Rei.
Rei não é quem nasce com a coroa.
É quem conquista uma.
O gerente sempre me ajudou em tudo.
Não queria receber, mas eu gostava de pagar.
Odeio ficar devendo favor.
E, com isso, nos tornamos amigos.
O único em quem eu realmente confio.
O único que me conhece mais do que qualquer um.
Fiz dele meu braço direito.
Além de meu amigo, ele se tornou meu sub.
Murilo.
Mas todos chamam de Maumau.
Não me pergunte o porquê. Desde que conheço ele, é assim que o chamo.
Com o posto de dono, veio mais dinheiro, uma mansão no alto do morro e todos aos meus pés.
Inclusive as mulheres.
Mas nem nelas eu confio.
Eu uso e jogo fora.
Quer de novo?
Uso de novo.
Nada fixo.
Nada de sentimento.
Essas mulheres são chamadas de lanchinho.
E é exatamente isso que elas são para mim.
Um lanche de uma noite.
Inclusive a Luana, que se rasteja atrás de mim por uma noite.
E eu dou essa noite quando não tenho nenhuma opção.
Sou meio estourado também.
Às vezes, o Murilo precisa me parar.
Não tenho paciência para mentiras.
Se as contas não baterem, quero o nome, o dia e a hora em que tiraram o dinheiro ou droga do lugar.
E resolvo tudo com uma bala na cabeça.
Comigo não existe essa história de trabalhar para pagar.
Se teve coragem para roubar uma vez, rouba outra.
E, depois de todo o tempo em que me faziam de trouxa, em que roubavam de mim e eu ficava quieto, não vou permitir que aconteça novamente.
Está fazendo bagunça no meu morro?
O aviso vem uma vez.
Na segunda, apanha.
Na terceira, morre.
E f**a-se.
Murilo, vive falando.
Não é assim, Rei.
Vamos com calma, Rei.
Se controla, Rei.
Nem sempre eu escuto.
Mas confesso que, sem ele, eu teria feito muita merda na minha vida.
Então não questiono.
Sempre escuto.
Mas, no final, faço o que eu quero.
Ele se tornou o meu equilíbrio entre a loucura e a sanidade.
No meu morro, quem manda sou eu.
Quem dá as ordens sou eu.
Quem não obedecer vai ter que ter peito para me enfrentar, porque eu vou para cima com tudo.
É meu.
E o que eu decido que é meu, ninguém toca, ninguém descuida e ninguém desobedece.
Ou segue minhas regras...
Ou morre.
Pode até tentar fugir.
Mas eu adoro uma caçada.