CAPÍTULO 2 — CONHECENDO EMILY

901 Words
Emily Narrando. Me chamo Emily Souza, tenho vinte e dois anos e nasci e cresci no Morro do Cantagalo. Fui criada por uma mãe solo. Eu fui aquela filha planejada que minha mãe sempre quis ter, mas nunca encontrou o homem certo. Como ela mesma dizia: Não tem homem bom nesse lugar onde vivemos, então não cometa o erro de se apaixonar. Ela ficou uma noite com um homem aleatório fora do morro, um homem que eu nunca conheci e que, pelo que ela dizia, provavelmente nem sabia da minha existência. Ela queria uma filha só para ela. E aqui estou eu. Minha mãe sempre foi uma batalhadora. Montou o próprio restaurante dentro do morro, me criou dando tudo do bom e do melhor e batalhando sempre sozinha. Quando percebeu que eu tinha gosto pela cozinha, me mandou estudar fora do morro aos dezessete anos. Ela bancou meu afastamento até eu terminar o curso de gastronomia e conseguir um emprego, onde consegui me destacar e ganhar bem. Mas tudo mudou há um ano. Em uma certa noite, uma amiga e funcionária da minha mãe me ligou e contou que ela estava doente. Larguei tudo e voltei. Minha mãe falou que não tinha me contado justamente por saber que eu voltaria sem pensar em nada. E ela estava certa. Eu não pensei. Ela era minha mãe. Depois de tudo que fez e se dedicou por mim, como eu poderia fazer diferente? Infelizmente, ela morreu há dois meses. E, com ela, morreu uma parte de mim. A parte da Emily que tinha uma mãe, uma pessoa que cuidou dela a vida inteira e que partiu cedo demais. Pelo que entendi, ela escondeu a doença de mim durante anos. Câncer de mama. Essa doença tirou minha mãe aos poucos. Durante o último ano, precisei dividir meu tempo entre cuidar dela e cuidar do restaurante. Eu não deixaria um lugar pelo qual minha mãe lutou tanto simplesmente falir porque ela não estava mais aqui. E fiz. No começo foi difícil. Muito difícil. Mas consegui. Depois da morte dela, decidi que continuaria. Com a ajuda da amiga de longa data dela, dona Regina, e da filha dela, Isis, que sempre foi minha amiga, estamos seguindo em frente. E está dando certo. Mesmo que minha mãe tenha pedido para eu seguir minha vida, eu não consigo abandonar isso aqui. Ainda lembro de quando a obra começou. Nós morávamos no fundo. Ela construiu uma casa em cima e foi expandindo tudo aos poucos. O restaurante que antes cabia apenas três mesas passou a caber vinte. Ela virava noites, corria de um lado para o outro atrás de novidades para atrair clientes. E eu ficava atrás dela, brincando de boneca. Esse restaurante tem história. É a história da minha mãe. E eu nunca vou deixar essa história morrer com ela. Ela sempre será lembrada aqui. Por mim. E pelos clientes que ainda entram pela porta e comentam sobre a falta que a comida dela faz. Mantive todos os pratos. Não mudei nada no restaurante. Deixei tudo exatamente como ela gostava. A única coisa que mudou foi a cozinheira. E uma fotografia dela que coloquei na entrada. Eu sinto minha mãe comigo toda vez que entro na cozinha e começo a preparar os pratos. É corrido. É cansativo. Não tenho outra vida além disso. Acordo antes do sol e vou dormir de madrugada. Mas estou conseguindo. E, até conseguir contratar mais funcionários, vou continuar. Eu nunca fui de viver muito a minha vida. Quando digo viver, falo de sair, me divertir, namorar... Nada disso. O máximo que eu fazia era ir à praia. Eu amo o mar. Amo tomar sol. E faço isso com gosto quando tenho tempo. Mas sempre me dediquei aos estudos. Quando foco em uma coisa que quero muito, nada me para. Eu vou até conseguir. Pode doer. Posso me cansar. Mas sigo firme. Porque, se tem uma coisa que aprendi, é que, se eu não lutar pelo que quero, ninguém vai lutar por mim. E perder, para mim, nunca foi uma opção. Se isso é bom ou r**m, eu não sei. Acho que depende muito do ponto de vista. Minha mãe vivia dizendo que eu precisava viver mais. Que eu era nova. Bonita. Que precisava de um namorado. Eu até tentei ser essa pessoa que curte a vida. Mas aí aparecia um prato novo. Uma matéria interessante. Uma pesquisa. E eu abandonava tudo para aprender e me dedicar àquilo. Nunca tive um namorado. Cheguei a ficar com alguns caras, mas nada sério. Nenhum deles me dava aquele frio na barriga. Aquelas borboletas no estômago. Então eu simplesmente deixava de lado, por mais que alguns continuassem insistindo. Eu quero sentir. Sabe? Quero perder o ar com uma aproximação. Quero sentir meu coração acelerar. Quero aquele frio na barriga que faz a gente esquecer até o que estava pensando. E eu sei que vou sentir isso. Quando acontecer, vou saber que ele é o cara certo. E vou agarrar com unhas e dentes. Só não sei quando. Nem onde. Nem se isso realmente vai acontecer comigo. Mal tenho tempo para mim. Vivo praticamente trancada em uma cozinha. Então acho muito difícil isso acontecer. Mas quem sabe? Talvez um dia. Em um lugar qualquer. Com uma pessoa que eu nunca tenha visto antes. Simplesmente aconteça. E, quando acontecer, eu vou estar pronta. Até lá, sigo vivendo a minha vida.
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