Todos os olhos dispararam na minha direção, exceto os da cor mel. O CEO continuou virado para o meu lado oposto sem esboçar nenhuma reação.
Percebi, para meu total espanto, que Sophia saberia o que dizer. Todos esperavam como se aquele tipo de provocação entre Elaine e a minha irmã fosse normal.
Eu não fazia ideia do que Sophia diria.
— Acho que o chefe definiu bem — falei, optando pela acidez e desejando sumir. — Está tudo errado no projeto de vocês.
As palavras queimaram na minha língua. Eles pareciam decepcionados e com medo de serem demitidos e eu não queria reforçar aquele misto de sentimentos negativos. Sabia, porém, que a minha gêmea faria muito pior.
Era demais para mim. O mundo corporativo me esmagaria. Estava prendendo o ar, sufocando por uma pergunta pequena.
Para o meu desespero, Elaine não parou. Ela cruzou os braços e disse: — Aponte um erro, Sophia. Sei que está louca para fazer isso.
Troquei o peso dos pés, a dor que fisgava em meu tornozelo soando como uma fuga para o desamparo da situação.
— Não é papel da minha secretária corrigir vocês, Elaine — interveio o CEO, assustando-nos.
Ele pegou as folhas do projeto e se levantou.
Elaine quase caiu da cadeira com a intromissão dele. Talvez não fosse comum que ele fosse ao socorro da minha irmã.
A grandiosidade dele golpeou-me novamente. Ele se virou para mim, estendendo-me os papéis com vaga despretensão. Meu corpo era feito de brasas, as mãos trêmulas conforme eu tomava os documentos.
Eu devia parecer um gatinho tomando banho, assustado e trêmulo.
— Vamos — disse o CEO em voz baixa.
Ele seguiu a passos firmes para a porta.
Envergonhada, observei todos os funcionários antes de sair. O desgosto quase se personificava e me abatia com a pavorosa maldade prometida pelos olhos deles — principalmente os de Elaine.
Sem pensar duas vezes, segui o encalço do chefe e saí da sala.
Ele não olhava na minha direção. Andava calmamente em direção ao escritório, a mente parecendo distante. Conforme o sol batia na vidraça do prédio, os músculos dele ganhavam formatos perfeitamente delineados pela camisa social que usava.
Distraída, não notei quando chegamos na minha sala. Só percebi quando ele parou e se virou, os olhos claros piscando ao me encontrar próxima dele.
Ele não precisou falar. Levantou a sobrancelha com condescendência e ficou óbvio que eu tinha agido de um jeito estranho o seguindo daquele jeito.
— Eu… Hã… — Devo parecer uma tola. Suspirei, desviando os olhos para me concentrar numa boa desculpa para o meu comportamento avoado. — Quero me desculpar por não ter dito nada na reunião.
Voltei meus olhos para ele a tempo de observar um breve pestanejar.
— Você quer pedir desculpas — repetiu.
Algo que Sophia provavelmente não faria.
Tomada pelo nervosismo, assenti.
— Fiquei parecendo uma novata no trabalho que faço melhor — esclareci, tentando parecer prepotente como minha irmã. — Não quero que eles pensem que sua secretária é inexperiente.
Lentamente, o CEO assentiu.
— Que tal me mostrar que não é essa novata, Sophia?
A proposta me assustou.
— Perdão?
Um lampejo de diversão passou pelos olhos dele.
— Já que é tão boa no seu trabalho, diga-me o que há de errado com o projeto deles.
Pisquei.
Ali estava o CEO detestável que minha irmã odiava, mostrando-me as garras depois de ter sido bonzinho.
Incapaz de manter meus olhos nos olhos profundos dele, olhei para baixo.
— Eu posso dizer que o trabalho deles é bom — murmurei, incerta. O piso era de porcelanato e brilhava impecavelmente como tudo ao redor daquele homem. Minhas mãos suaram. Podia sentir o olhar dele. — O que falta é… Perspectiva.
— Perspectiva — ele ecoou.
Voltei a encará-lo.
— Você tem o costume de repetir o que as pessoas dizem?
Lá estava novamente a centelha de diversão nos olhos dele.
— Não. Só estou surpreso.
Devia ficar quieta, mas o homem estava me irritando. Ele zombava de mim. Sem pensar, falei: — Acho que o senhor não quer realmente a minha opinião. Está brincando comigo.
Ele desviou os olhos. O único sinal de que minhas palavras o afetaram foi o subir e descer do pomo de adão conforme ele engolia.
— Não quis passar essa impressão — sussurrou.
O modo como ele pronunciava as palavras o tornava sincero. Tive a impressão de que seria igualmente rude se precisasse, o que me deixou mais confortável na presença dele; gostava de pessoas que agiam com sinceridade.
Querendo criar espaço entre nós, caminhei até a minha mesa e me sentei.
Ele esperou de pé na frente da própria sala.
Minhas próximas palavras foram suaves: — A fragrância com proposta floral exige delicadeza, mas o frasco que desenharam é quadrado. Quadrado dá a ideia de um quarto fechado e sufoca o olhar das pessoas. Serviria para cheiros menos delicados, mas o que queremos ao procurar florais é delicadeza e graciosidade. O nome da marca, Arômata, é maior do que o da linha de florais. Estamos vendendo o perfume ou a empresa? Não faz nenhum sentido.
O CEO olhou para as janelas atrás de mim e eu pude jurar ter visto um rápido sorriso passar pelos lábios dele.
— Perfeito — foi tudo o que disse.
Perfeito.
Senti meu rosto corar suavemente. Ele não parecia o tipo que elogiava livremente as pessoas.
Um raio de sol iluminou o mel dos olhos dele. Lentamente, nossos olhos se cruzaram. Ele não disse mais nada: assentiu, deu as costas e entrou na sala anexa à minha.
Soltei devagar a respiração que não percebi estar segurando.
— Queria saber o seu nome — sussurrei, fascinada.
E então percebi que tinha um computador à minha frente e que uma rápida pesquisa revelaria o nome de um homem famoso como ele. Empertiguei-me, os dedos disparando pelas teclas conforme procurava o proprietário da Arômata.
No topo das pesquisas, revelou-se o homem do olhar penetrante que trabalhava poucos metros distante de mim.
Ethan Bennett.