05 - Thais

1006 Words
Thais Narrando A casa da dona Vânia é grande, espaçosa. Tem três quartos: um ela usa pra costura, outro ela me deu e disse que eu podia ficar à vontade. Pedi pra ela avisar a doutora Ana que eu tinha chegado e que tava tudo bem. Entrei no quarto, deixei a mochila no canto e senti o cheiro de casa, um misto de água sanitária, café e coisa que a gente usa pra cuidar da casa. Abri a mochila que a doutora Ana me deu e congelei. Roupas dobradas, lingerie, tudo na etiqueta, uma nécessaire com produtos de higiene como se ela tivesse pensado em cada detalhe do meu sumiço. Sentei na cama com a bolsinha na mão e chorei. Chorei por mim, por tudo que me fizeram, por uma vida jogada no lixo. Chorava sem ar, sem saber se era raiva ou alívio. Dra. Ana foi um anjo na minha vida. — Não chora agora, menina — ouvi a voz da dona Vânia no corredor. — Vai ficar tudo bem, tenta descansar a cabeça, para começar uma nova etapa. — Obrigada — respondi, tentando ajeitar a cara. A voz saiu fina. Pensei nos meus pais. Eles acham que eu morri. Como explicar pra quem enterraram minha história, que eu tô viva e com fome de justiça? Nem sei o que a doutora Ana contou pra que aquele caixão não pudesse ser aberto. Talvez disse que eu tava irreconhecível. Ou inventou papelada, ou disse que era melhor assim pra ninguém sofrer. Era tão surreal que agora vira combustível. Para minha dor e minha raiva. Deitei na cama e olhei pro teto. A dor apertou a garganta de novo. Fui enterrada em vida. Essa frase rodou como lâmina. A alma ruiu em pedaços, e cada pedaço doía como ferida que não cicatriza. — Tu quer café? — dona Vânia apareceu na porta com um copo fumegante e um olhar de quem já viu muito. — Quero — falei. Peguei o copo com as mãos tremendo. Pensei em Luiz Ururbur, aquele canälha. Ele derramou meu sangue, e a ferida não é só física. É humilhação, é dor na alma. Prometi, primeiro pra mim, baixinho, depois alto no quarto vazio, que um dia ele vai pagar. Vai pagar o meu sangue derramado, a vida e a inocência que me roubou. Eu vou fazer ele pagar por tudo de ruïm que me fez. Coloquei uma das roupas que a doutora me deu, e sai do quarto. Fui na cozinha dona Vânia estava lá. — Se cuida, minha filha — disse dona Vânia, vindo mais perto, como se lesse minha alma. — Amanhã eu te arrumo um bico aqui na costura. Você pode começar devagar. — Quero — respondi. Não era só emprego. Era renascer. Era pôr o corpo no mundo de novo, com olhos abertos. No fim da noite fiquei olhando a janela, pensando nas tramas. A vida me desfez e agora cabe a mim costurar, ponto por ponto, até a peça ficar do jeito que eu quero. Vou juntar as migalhas da minha vida e transformar em rota, mapa e arma, não pra matar, mas pra desmantelar o que ele construiu. Aprendi que paciência também é força; vou planejar cada passo com atenção. E quando eu encontrar Luiz, ele vai se arrepender. Ajudei dona Vânia a fazer a janta, ela fez uma sopa de carne com osso, bem cheia de legumes e verduras. Tava muito cheirosa, tomei banho e tomamos a sopa. E depois um café preto. Assistimos a novela e fui me deitar. A noite foi pesada. Eu tentei dormir, mas o sono veio arrastado e cheio de sombra. Acabei caindo num pesadelo horrível. Luiz vinha pra cima de mim com uma faca, os olhos dele brilhando de ódio, a respiração pesada no meu ouvido. Eu tentava correr, mas minhas pernas não respondiam, parecia que o chão me prendia. Senti o frio da lâmina chegando perto, o cheiro de sangue invadindo meu nariz. No momento em que ele ia me golpear, eu gritei. Abri os olhos assustada, suada, chorando. Fiquei ali, deitada, o coração disparado, o corpo inteiro tremendo. Fechei os olhos e rezei baixinho, pedindo força, proteção, pedindo que Deus me guardasse daquele maldito. Foi a única coisa que consegui fazer: rezar até o corpo cansar e o sono me pegar de novo. Quando acordei, já não era madrugada. O quarto tava iluminado pela claridade suave do sol entrando pela janela. Senti um cheirinho bom de café, aquele aroma que parece um abraço. Me levantei devagar, escovei os dentes, lavei o rosto e prendi meu cabelo num coque meio torto. Queria parecer gente, mesmo que por dentro ainda estivesse quebrada. Saí do quarto e encontrei dona Vânia terminando de coar o café na cozinha. O pano de prato pendurado no ombro, a chaleira no fogo, o barulhinho da água pingando no coador. Cena simples, mas que me deu uma paz danada. — Bom dia, minha filha — ela falou, sorrindo pra mim. — Bora ali na padaria? O pão saí quentinho essas horas. Assenti com um meio sorriso. Precisava mesmo sair, sentir o ar. Coloquei a sandália e segui com ela. Quando a gente pisou na rua, o morro já tava acordando. Era cedo, mas o movimento começava a tomar forma. Os passarinhos cantando em cima dos fios, o barulho das vassouras varrendo a calçada, criança correndo com uniforme de escola. O sol ainda tímido batia nas casas coloridas, pintando tudo de dourado. Respirei fundo. O ar da manhã parecia mais leve, sem a poeira da correria do dia, sem o peso da noite que sempre traz lembrança ruïm. Pela primeira vez em muito tempo, senti uma coisa boa me invadindo. Um recomeço, talvez. Como se eu tivesse a chance de nascer de novo ali, no meio da simplicidade do morro. Caminhei ao lado da dona Vânia em silêncio, mas por dentro fiz outra oração: que esse sentimento de paz ficasse comigo, que fosse só o primeiro passo de uma vida que eu ainda tenho pra viver.
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