King Narrando
Meu nome é Felipe, mas no morro geral me chama de King. King significa rei. O Rei do morro, sacou? Tenho 33 anos, sou preto, negäo mesmo, 1,90 de altura e olho castanho. E tenho muitas tatuagens. Cresci ouvindo meu pai falar que respeito se conquista e que a comunidade vem sempre em primeiro lugar. Ele era o cara mais pïca que essa quebrada já conheceu. Ele cuidava da rua como se fosse pai de geral.
Assumi o morro três anos atrás. Antes eu era só o gerente da quebrada, fazia o trabalho sujo e mantinha a ordem. Sempre fui respeitado e temido. Não por matar pra se mostrar, mas por saber ouvir e resolver. Quando tiraram meu pai e meu cunhado, aí não teve conversa. Foi invasão, foi sangue, e a conta foi paga. Não procurei fama, procurei justiça.
Minha mãe é guerreira. Ela cuida da casa, da minha irmã e da minha sobrinha, Olívia. Minha irmã teve depressão pós-parto e até hoje carrega as marcas. Eu vivo à frente, dou o suor e o ombro. Eu não sou o melhor homem do mundo, longe disso, mas pra elas eu sou tudo. Peguei esse papel porque tinha que pegar.
No morro eu sou mais que figura de respeito. Sou referência. Tem gente que me chama de rei de zoeira, tem gente por medo. Mas o que pesa é o carinho no olhar das pessoas quando eu resolvo problema, Mas não entro na casa de ninguém. Para o meu comando entrar tem que ser chamado. O morador tem que pedir. no meu tribunal eu sou o Juiz, o promotor e o júri. Se eu condenar já era, não tem volta. Nem perdão.
Nao gosto de conto de fadas, gosto da quebrada porque tem treta, tem inimigo, tem sangue. Sou procurado pela polícia porque matei um figurão, um tenente que tava no meio da merda e que matou meu pai. Investiguei, juntei pistas e a conta foi acertada. Isso pesa. Toda vez que lembro do corpo do meu velho a raiva surge. Mas não sou bruto sem cérebro; penso antes de agir.
Penso nos meus irmãos: muitos moleque que podiam ser outra coisa se tivesse chance. Só que eu não sou santo; eu abro porta pra quem serve ao meu jogo, não pra quem quer fugir dele. Quando eu trago trampo, é trampo contado, quem não rende cai fora. Quando converso com parceiro de fora, é negócio fechado. Projeto que alivia a rua? Tem não. Projeto aqui é manter ordem e lucro.
O morro é minha pátria. Tem riso, samba, criança correndo, e também enterro marcado. Quando eu passo na viela, a mulher sorri por medo e por respeito, o velho estica o dedo como quem diz “vai com fé” e também pra não se queimar. Meu pai dizia: “Rei que se humilha não perde trono, só ganha alma.” Eu aprendi a não humilhar, aprendi a controlar.
Não vou fingir que sou bonzinho. Eu meto menino no corre. Coloco o moleque pra vigiar, pra entregar, pra patrulhar a rua armado. Dizem que sou c***l? Sou. Mas crueldade tem método: disciplina, obediência, silêncio. O menino que não aguenta o peso é descartado, ou vira exemplo. Ninguém entra na linha sem carregar responsabilidade e às vezes responsabilidade significa arma na mão pra proteger território e interesse.
Tem a investigação também: descobri quem mandou matar meu pai. Não foi só o tenente; teve gente grande por trás. Vou caçar, um por um. Mas vingança não é espetáculo que queima tudo ao redor; eu calculo as jogadas. A prioridade é manter o poder aqui, e manter o morro produtivo pros meus interesses. Se alguém paga, paga sozinho, devagar, sem afundar a casa.
Ser Frente aqui é ter inimigo e ter submisso. Minhas decisões mudam vidas, e eu aproveito isso: obediência, medo e recompensa pra quem se prende ao sistema.
Eu cuido do interesse nosso. Marco presença, boto regra, trouxe umas parcerias que davam grana e punha disciplina. Não é pra salvar ninguém, é pra transformar potencial em serviço útil: vigia, entrega, patrulha. Hoje esses moleque me chamam de referência. Não por amor; por medo. Porque eu mostrei que quem vacila some, e quem obedece sobe no esquema.
No fim das contas, o morro respira do jeito que eu deixo, e se tem riso, tem medo por trás. A coroa pesa, e eu uso esse peso pra manter tudo onde interessa: sob meu controle.
Já morei com uma mina, mas ela não durou nada. Chegou toda se achando, querendo mandar na casa, e um dia gritou com a Olívia, aí acabou. Quando eu voltei da boca e minha mãe contou, eu não pensei duas vezes: botei ela pra fora. Ninguém, entendeu? NINGUÉM maltrata a minha família. Minha vontade foi amassar a cara dela na hora, juro por tudo que é meu, mas eu me segurei. Não aprendi a resolver as parada na porrada como forma de dominar, aprendi a resolver com cabeça.
Ela levou os bagulho, a dignidade, e a porta fechou. Enterrei o coração pro amor, porque casa de King não é circo pra palhaço desfilar. Depois daquele dia jurei que não ia mais trazer mulher nenhuma pra minha casa. Não por medo, nem por orgulho, por respeito. Respeito pela minha mãe, pela minha irmã que já carrega ferida, e pela Olívia que merece paz. Mulher que não vem com paz, que faz cena, que levanta a voz com criança ou que falta com respeito, aqui não fica.
Desde então minha vida ficou mais limpa. Soltei o coração, que já tava preso em promessa e confusão. Hoje tô de boas, o coração tá livre. Às vezes pinta uma vontade de companhia, mas eu penso: E se souber que aqui é casa de família? E se achar que pode mandar? Prefiro ficar sozinho do que abrir a porta pra problema. Já teve gente que tentou, mandei vaporizar: longe da minha casa, longe da minha paz.
A quebrada sabe: Eu cuido do morro e da família com a mesma mão. Quem quiser entrar na minha vida tem que entrar no respeito primeiro. E se não souber chegar certo, sai rápido, porque não tenho tempo pra drama. Assim é a vida , corta o que fere e segue no passo. Minha casa é santuário; minha família é minha assinatura. Respeita ou some.
Hoje quando vejo Olívia rindo no colo da avó lembro porque fechei aquela porta. Não me arrependo. Aprendi a priorizar o que importa. Na rua sou chefe, mas dentro de casa sou proteção.