A manhã nasceu sem pudor algum, derramando luz sobre o que a noite escondera. Mas, nas sombras de um casarão abandonado, um homem observava o amanhecer com olhos de fera. Antenor acendeu um cigarro com mãos trêmulas. A fumaça subiu lenta, preguiçosa, desenhando espirais no ar frio da manhã. Ele tragou fundo, e o gosto amargo do tabaco misturou-se ao gosto ainda mais amargo da obsessão. A brasa vermelha iluminava por instantes aquele rosto duro, coberto por olheiras profundas, onde cada ruga parecia talhada pela vingança. — Você acha que pode fugir de mim, Rosa? — murmurou, o tom rouco, quase um gemido de dor e fúria. — Você acha que o amor o salvará de mim, Felipe? Do lado de fora, o vento sussurrava entre os galhos secos, e as folhas mortas rolavam como lembranças sopradas pelo destin

