Passageiro
Os homens costumam ficar me encarando pelo retrovisor central do carro, inclusive os que entram carregando uma aliança de vários quilates de ouro na mão esquerda. Aliás, esses geralmente são os piores, sendo bem sincera. É sempre uma situação extremamente constrangedora. Sempre faço reclamações para o aplicativo já que, como motorista, eu preciso ter a minha segurança pessoal. Pelo menos dos próprios passageiros, acho.
Bom, meu tio sempre diz que esse não é um trabalho pra mulher. Se eu tivesse um pai, tenho certeza que ele jamais permitiria. Por medo, por machismo, entre outros fatores. Mas, de certa forma, o chato do meu tio tem razão. Às vezes eu ouço a voz do meu tio quando algo r**m acontece. Quer dizer, este não é um tipo de trabalho pra mulheres por conta dos próprios homens (e eu acho que ele meio que prefere ignorar essa parte).
— Filha, você vai mesmo trabalhar dirigindo hoje? Mesmo depois…
— Mãe, a conta de luz venceu segunda e eu não tenho dinheiro. Enquanto eu não arrumar um emprego decente, o dinheiro do estágio…
— Eu sei — ela me interrompeu. — Mas eu prefiro ter o nome sujo por uma conta i****a do que algo aconteça a você. Eu nunca vou me perdoar.
— Mãe. Eu tô viva, não tô? — disse, dando um beijo em sua testa. — Não vou demorar muito. Antes de anoitecer eu volto pra casa.
— Isso. Hoje o sol se põe cinco e quarenta e dois. Não esquece!
— Pode deixar, moça do tempo — disse, e em seguida fechei a porta da sala atrás de mim.
Desci as escadas do prédio e dei um olá para o Canetinha (que é como eu o chamo), o gato sem dono que vive rondando minha rua, principalmente o prédio onde moro. O carro me esperava do outro lado da calçada, estacionado cuidadosamente por mim, uma ótima motorista, bem debaixo de uma árvore praticamente sem folhas. Quando eu estava prestes a entrar - uma perna fora, outra dentro -, ouvi o grito de Eduardo vindo da janela de seu quarto.
— Vai sair agora? — disse ele. Tive que olhar para cima, na mesma calçada onde meu carro estava, para conseguir vê-lo. O sol estava forte, então usei minha mão direita como p******o para os meus olhos.
— Vou. Trabalhar, no caso. Quer carona?
— É por isso que eu te amo! — gritou Eduardo.
— Vai pra onde? — perguntei quando nós dois estávamos dentro do carro, lado a lado, um ou dois minutos depois.
— Ah, minha mãe quer que eu passe no mercado pra comprar umas coisas. Eu ouvi a sua voz conversando com o Canetinha, aí…
— Me ouviu conversando com o Canetinha?
— É. Eu tava na janela.
— Mas eu praticamente sussurro pra falar com ele! — disse, rindo. — Eu já te disse que você é um super-humano. Você tem algum tipo de ultraudição, sério.
— A sua é fodida porque ouve música com fone de ouvido no máximo. Sempre!
— Cara, o Canetinha é um gato super dócil. Se você subir o tom de voz um pouquinho ele já sai correndo.
— Tá querendo me elogiar assim por quê? Tá carente, bebê? — Eduardo riu. À essa altura, eu já virava a esquina para entrar na rua principal do bairro, e o mercado era apenas alguns quilômetros à frente.
— Carente de dinheiro.
— Eu pensei que você não fosse trabalhar mais dirigindo. Sei lá. Aquele cara passou de todos os limites.
— É o que eu tenho por enquanto. A parcela desse carro não vai ser paga sozinha — disse, subindo o carro na calçada do supermercado.
— Toma cuidado, tá? — Edu pegou a minha mão direita, que estava sobre a marcha, e deu um beijinho.
— Você não tinha um encontro hoje? — perguntei assim que meu amigo saiu do carro.
Ele apoiou os dois braços na janela e disse:
— Tenho. Mas tenho que terminar aquela resenha que Rodolfo passou.
— Você ainda não fez? Misericórdia, Edu.
— Procastinei. Como sempre.
— Nada de novo, né? — disse, e nós sorrimos. — Tá bom. Vou lá.
— Toma cuidado, Clari.
— Pode deixar.
Aproveitei que estava parada para abrir o aplicativo e iniciar o trabalho. A primeira corrida não demorou a aparecer. Uma corrida de vinte e seis reais. Não é meu lugar preferido, mas, para primeira corrida, ótimo. Ainda é cedo, uma da tarde. Quando chego ao destino, o passageiro está lá: um homem. Meu coração começou a bater mais forte, principalmente quando ele se inclinou sobre a janela do carona:
— Clarissa? — o homem perguntou. Parecia ter trinta e poucos anos, calça jeans, uma blusa preta com uma frase que não consegui ler e uma bolsa de alça de couro marrom.
Eu apenas assenti com a cabeça. Ele sorriu, satisfeito, e entrou no carro pela porta traseira.
— Boa tarde — disse, assim como todos dizem. Ou pelo menos a maioria.
— São Cristóvão, é isso? — perguntei quando o destino da viagem finalmente apareceu.
— Isso mesmo, Clarissa.
Tive que conter o riso. Nada demais, apenas pelo fato dele ter dito o meu nome sem…necessidade? Não sei. Talvez eu só estivesse nervosa demais, ficando doida, sei lá.
— Sabia que eu nunca tinha pegado uma motorista? Mulher?
Virei a direita e, por muita sorte, um b****a que apareceu do nada, vindo de trás, não bateu em mim. Uma ótima maneira de reiniciar toda essa m***a depois de um pequeno trauma.
— Eu quis dizer pegar no sentido de andar num carro de uma motorista, tá? — o homem resolveu abrir a boca outra vez. Foi quando eu finalmente olhei para ele direito através do retrovisor central, como eles geralmente fazem comigo.
— Não, não. É que o b****a quase me fechou e aí…Mas eu entendi sim.
— Você deve ouvir muito isso, né? Ainda mais uma garota bem nova como você.
— Pois é — disse. Dei uma nova espiada nele antes de voltar minha atenção para a rua. Mais bonito que a maioria, mas chato na mesma proporção. Mas, assim, bem mais bonito mesmo. Mesmo, mesmo.
— d***a — resmunguei quando olhei para o painel do carro.
— Que foi? — o homem perguntou imediatamente.
— Você se incomoda se eu parar num posto pra abastecer? Eu esqueci da última vez e agora…
— Sem problema — disse em um tom amigável.
Chegando ao posto, nem pedi para que o tal homem saísse do carro. Quando o frentista, veio, pedi para que ele completasse e me afastei, como manda o protocolo, me aproximando do meu passageiro.
— Espero que você não se importe — ele disse logo depois de acender um cigarro.
— Bom, só não vai dar tempo de terminar. Porque dentro do carro…
— Não, não. É só aqui mesmo. Só pra… Sei lá, dar uma aliviada. Você quer? Quer dizer, você fuma?
— Às vezes. Mas é que agora nem tem tempo, então…
— Certeza? — Ele tirou um maço do bolso direito da calça e esticou em minha direção.
Por fim, acabei aceitando. Já que fosse para desperdiçar um cigarro, que não fosse um meu, pelo menos.
— Então, você gosta de Stephen King? — o homem falante voltou a falar depois de eu tragar pela primeira vez. Semicerrei os olhos por um momento, mas logo me lembrei que estava com a minha blusa de IT.
— Ah… Sim. Quer dizer, tem que gosta muito pra poder ler as quase mil páginas daquele livro, né?
— Então você gosta bastante de ler, né?
— Moça! — o frentista me chamou.
— Gosto sim — disse enquanto caminhávamos lado a lado de volta ao carro.
Combustível pago, voltamos para o carro. Assim que entramos, o homem, chocando zero pessoas, abriu a boca de novo.
— Eu sou professor de literatura.
Eu apenas sorri para ele e assenti, tudo pelo retrovisor central. De repente, ele pareceu mais interessante. Quer dizer, é por isso que ele gosta de falar. Faz sentido. O Rodolfo, meu atual professor de literatura da faculdade, é exatamente como ele, só que f**o.
— Literatura brasileira? — perguntei quando voltei para o caminho do destino do tal professor.
— Também — Eu o vi sorrir logo depois de dizer isso. — Você… Desculpa perguntar. Mas você faz faculdade? Ou tem vontade de fazer?
Antes que eu pudesse responder, o telefone do professor começou a tocar, e ele o atendeu segundos depois. Prestando atenção, eu percebi que ele falava com a mãe sobre a ex-...mulher? Namorada? Algo do tipo. De qualquer forma, a forma dele de falar com a mãe me lembrou de meu melhor amigo (e ex-namorado) Eduardo e sua mãe, minha ex-sogra. Parecia uma coisa genuínamente fofa. E eu tenho uma queda livre por homens fofos. Um professor de literatura? Clichê demais até pra mim. Mas, vamos combinar, ele não é meu professor. Então…
Quando chego ao destino do homem, ele continua a falar no telefone, a conversa aparentemente havia ficado mais tensa (o assunto, não o modo como se tratavam), então, como não estava com pressa - e, no fim de tudo, não era em um lugar tão perigoso -, eu apenas parei, pus o carro em ponto morto e me perdi naquele retrovisor central, olhando para o meu passageiro.
— Clarissa? — o professor me chamou.
Eu não sei bem como aconteceu. Quando vi, estava entrando na casa do meu passageiro, passando pela sala, depois pela cozinha, caindo em uma cama de casal junto daquele homem.
O professor, que parecia tão dócil no telefone com a mãe, me pegou pelo cabelo, beijou meu pescoço, tirou a minha blusa, tudo com uma intensidade que me fez desejar tê-lo dentro de mim.
Já nua, senti o toque de suas mãos em meu pescoço, depois em meus p****s, passando pelo meu quadril, finalizando com um aperto bem forte em minha b***a. Certamente deixaria uma marca, mas eu não liguei.
De maneira bruscra, ele me girou rapidamente, me colocando em cima dele.
— Senta — ele disse em um sorriso malicioso. — Quero ver você sentar.
E, aos poucos, fui sentindo seu m****o grande e grosso, adentrar em meu corpo, fazendo meu corpo estremecer de tanto prazer. Quando finalmente o senti completamente dentro de mim, o professor me chamou:
— Clarissa?
— Oi — disse, abrindo os olhos, saindo de dentro da minha cabeça.
Nada havia acontecido. Estávamos ali, parados, eu no banco do motorista, ele no de trás, olhando para mim com o celular na mão.
— Tá tudo bem?
— Ah, tá sim. Tô sim. Nós já chegamos. É aqui mesmo?
— Não, sim. Desculpa. É que eu me distraí com o celular.
— Eu também acabei me distraindo — disse sem saber onde enfiar minha cara, vermelha de vergonha. Por dentro, claro. Por fora, plena.
— Obrigado. Bom trabalho pra você! — o professor falou antes de sair do carro e fechar a porta.