Curiosidade

1379 Words
Lua Alcântara Sinto o toque gentil contra os cachos do meu cabelo e o perfume de alfazema que trás uma memória boa da infância. Ergo a mão sem abrir os olhos tocando os dedos finos, abro um sorriso reconhecendo o rosto magro demais. "Vamos filha, precisa se arrumar." a voz sai suave apesar da rouquidão causada pelo tempo fumando cigarro. "Me deixa dormir só mais um pouquinho." Resmungo antes de abrir os olhos para encarar o sorriso acolhedor da Juju. "Bem que gostaria minha menina, mas precisa se arrumar logo, sabe como o Azulão fica quando chega atrasada." Basta ela falar o nome do homem que todo o meu corpo reclama de dor nas costelas, fazendo a magoa subir a superfície se misturando com as lágrimas fujonas caindo. "Oh minha filha." Seu tom maternal acaba fazendo o meu choro se intensificar. "Um dia tudo isso vai passar." "Quando Juju?" Questiono ficando sentada com dificuldade para apoiar o rosto contra o seu colo. "Não suporto mais viver de dor." Ela segura o meu rosto com carinho passando os polegares nas bochechas para limpar as lágrimas. "É na dor que os maiores guerreiros foram forjados, minha filha, confie e tenha fé que o seu momento vai chegar." Demoro um bom tempo entre comer algo bom preparado por Juju com um cafezinho, depois vou finalmente me arrumar, colocando uma calça jeans alta e um cropped junto com um salto alto preto, deixo os cachos caindo soltos por sob os ombros. Não demora muito para que as outras meninas passem no ape da JuJu para avisar que estão saindo depois de organizar a boate, ou dizer que chegaram para trabalhar, a noite pode ser de baile, mas a boate da Juju tá sempre aberto para geral. Quando sinto alguma confiança diante do espelho dou um beijo na pele morena da senhora. "Você está linda meu amor" "Só você mesmo dona Juju para animar o meu dia." Declaro com um sorriso enorme. Então, ajeito a postura saindo de dentro do apartamento, desço as escadas tortas segurando nas paredes com medo de tropeçar em cima do salto alto. Tenho costume de andar nas vielas em cima do salto plataforma, mas vivo dizendo para a Juju que essa escadinha é muito perigosa. Ignoro os olhares e cochichos das garotas, mantendo a cabeça erguida para suportar a loucura da noite que está apenas começando. Ao sair de dentro do lugar, preciso puxar uma longa respiração para ter paciência, pois o olhar do Gato, quase me engole, detesto esse homem com todas as forças, ele vive aos pés do Azulão. É o terceiro no comando do morro, faz questão de ostentar com suas motos sempre com uma piriguete nova na garupa. Ele faz todos os corres que o Azulão pede, sem nem questionar, mas não é nem isso que realmente me incomoda, sinto vontade de morrer todas as vezes que tem um baile porque o cretino fica na minha cola, se aproveitando da minha humilhação para tentar tirar uma casca. Mesmo dizendo não o tempo todo ainda preciso aturar as alfinetadas de Marcela que não consegue calar a boca e fica dando ideias para o maldito do meu pai, me empurrar para esse desgraçado. “Toda gostosa, poh, a noite vai ser nossa morena, já falei com o Azulão.” Estremeço da cabeça aos pés com suas palavras, paro a alguns passos da frente da boate com as mãos na cintura encarando sua roupa de grife, uma camisa golo polo branca da Lacoste e tenis da Nike. “Não tem nenhuma p*****a pra tu infernizar hoje?” Questiono totalmente sem paciência. “Que isso morena, acabei de dizer que vou te fazer uma surpresa, tu vai gostar.” Abre o sorriso amarelado com um dente de outro. “Eu não quero nada com você, Gato, nem surpresa, nem dança e nem nada.” “Fica se desfazendo de mim, porque o Azulão é cheio de proibição pra tu, mas as coisas vão mudar morena.” Dá um passo rápido me encurralando com o hálito de cerveja. “Eu e a Marcela vamo fazer o veio te dar uma trégua.” “Que tipo de trégua?” Pergunto curiosa. Mesmo com a curiosidade, tenho a atenção levada para os carros pretos que aparecem fazendo um som alto com o motor rugindo para subir a ladeira estreita, tomando quase todo espaço da rua. Alguns homens de terno descem de dentro do carro, parando na frente do cerco dos vapores que Gato comanda para ter a noção de quem entra e sai dessa parte mais alta do morro. Pisco atordoada quando encontro um par de olhos verdes encontra o meu olhar, fazendo o pesadelo retornar na minha mente. A sensação de estar perdida dentro do peito revirando tudo, os fios bagunçados caindo para fora de um coque m*l feito, a barba rala e uma expressão séria demonstrando o quanto não gostaria de estar aqui. Sinto um toque na cintura, uma mão se fechando com força contra a minha pele em cima da calça jeans de cintura alta. Pulo no lugar acordando do transe em que estava observando o desconhecido, percebendo o perigo no qual cai ao dar de cara com a proximidade do Gato, um sorriso cafajeste no seu rosto. “Tá ficando louco Gato?” Grito atraindo a atenção de todos os homens. “Num rela em mim senão vou descer a mão na tua cara.” “Tu tá é maluca Lua, num ta escutando o que to falando contigo não? Sua mandada do capeta.” Seus olhos num tom de azul que lembram o de um gato fazendo jus ao seu apelido se apertam exibindo algumas linhas de expressão no canto da pele morena. Quase pior do que o pesadelo que tive hoje de manhã é a sensação de estar sendo analisada por Gato, jogo os cabelos para trás por cima do ombro fazendo pouco das suas palavras antes de tentar disfarçar. “A única coisa que escutei é que você ta ficando louco se acha que tem chance comigo, agora rela da minha frente.” Bato o salto no chão sem perder a postura de mandona, posso até apanhar do Azulão mais tarde e ser mantida aqui no morro como uma escrava pra ele aplacar a fúria, mas não vou ficar sendo feita de estopa por esses machos que não respeitam ninguém. Alguns dos vapores que escutaram, soltam assobios e gargalhadas fazendo Gato ficar ainda mais raivoso, aproveito para olhar outra vez na direção do desconhecido que falou algo para Pixote esse vem trazer a mensagem pro chefe dele, sem desgrudar o olhar dos meus s***s dentro do cropped e nem mesmo disfarça. “É os gringo que o Azulão tá esperando” Anuncia cheio de marra, o baseado entre os dedos e uma arma presa no cós da cintura. Gato coça a nuca como se estivesse se perguntando se fica aqui enchendo o meu saco e atrapalhando a passagem ou se vai em direção ao estrangeiro. “Faz a escolta da Mandada.” Ordena ao rapaz , parando do lado dele tira a arma que estava escondida embaixo da camisa . “De longe e com esse olho longe dela, tá me entendendo?” “Ela se veste toda boazuada e tu não quer nem que olhe?” Gato abre um sorriso que me dá ânsia de vomito. “Olha de longe que eu não sou Gato que divide refeição.” Ri anasalado. Pixote acompanha a risada dele, quero virar o rosto e vomitar no meio da rua, mas engulo a vontade com força só para não lhes dar nenhum gosto de me ver mexida. Encontro o olhar do gringo mais uma vez quando Gato começa a descer na direção deles, a curiosidade dele parece grande igual a minha, mas quando escuto a voz de Gato outra vez ignoro essa sensação firmando os pés nos saltos e saio correndo pela ladeira indo na direção da festa. Só quero fazer a presença que Azulão tanto exige para fingir na frente do morro que é um bom pai, na primeira oportunidade que tiver vou mete o pé, quero paz e algumas horas na frente do espelho para conferir se ainda estou cheia de hematomas depois da última surra.
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