Lua Alcantara
No alto do morro em um espaço coberto como uma enorme quadra que Azulão fez algumas adaptações para ser o ponto exclusivo dos bailes, três entradas e saídas para facilitar a movimentação em caso de uma invasão. Mas já faz tantos anos que não vejo alto tão grande acontecendo aqui no morro, é como um tempo de calmaria.
Isso significa que Azulão está molhando as mãos certas dentro da policia, alguns milicianos estão também na sua folha deixando seu poder maior dentro dos complexos de favelas do Rio de Janeiro.
Não são mais tantos que tem coragem de peitar quando sabem que vão ser mortos no momento de assumir o poder.
Chego no lugar escutando o MTG truando nos alto falantes, o baile parece ter começado a algum tempo, espero que seja o suficiente pra que a minha presença já não seja tão necessária. Várias conhecidas estão usando shortinhos curtos exibindo a polpa da b***a rebolando do lado de fora, geralmente são as que já tem rolo com alguém.
Zulmira a veia beata que vive tratando como prostituta, já esta sentada numa mesa perto da entrada observando todo mundo fofocando com a Dagmar, outra beata, engraçado é que as duas se juntam em dia de baile não só pra falar m*l de todo mundo, como pra tomar a cerveja bancada pelo Azulão.
Ergo bem a cabeça para passar por essas duas, nem no meu pior dia vou deixar que essas velhas vejam o quanto estou machucada por dentro, a nossa tristeza é a vitória do inimigo e esse gostinho, eu não dou nem fodendo. Pixote que veio durante o tempo todo calado, seguindo os meus passos como um cão farejador se sente livre o suficiente para ir atrás da Nalvinha, uma garota novinha que acabou de fazer quinze e quer seguir os passos da Marcela. Reviro os olhos para eles, entrando dentro do espaço, está tudo lotado, no canto tem uma escada pra uma espécie de segundo andar que não cobre a quadra toda.
É uma espécie de camarote para os convidados de honra do Azulão, dois vapores cada um usando segurando um fuzil na mão faz a proteção da entrada da escada. Evito encarar eles, principalmente por saber que não se importam nenhum pouco quando escutam os meus gritos de madrugada implorando por ajuda para escapar das surras.
Os dois se afastam liberando a passagem, subo as escadas sem a menor empolgação para tentar curtir esse baile, num dia normal, poderia escapar para o outro lado da quadra depois das entradas dos banheiros, quase ninguém vai até lá. Único canto que consigo dançar, curtir as músicas sem ficar sendo assediada por algum dos frequentadores do clube da Juju.
O Pocpoc estronda no som, fazendo uma onda de gritos ecoar pelo lugar, antes de chegar no segundo lance das escadas, encontro com um casal se esfregando, passo de ladinho pra não atrapalhar os dois. Já pegando a visão do lugar cheio, Azulão sentado em cima de uma cadeira de madeira que fica em cima de um tipo de pedestal que dá a visão da quadra inteira.
Marcela está agarrada nos tijolos da varanda, descendo pra baixo, rebolando para atrair a atenção de todos os homens, usando um vestido bem curto com as costas abertas em cima de um salto quinze.
“Tava quase mandando fechar aquela caralha que a Juliete chama de Boate!” Sua voz ecoa meio rouca pelo cigarro, atraindo a atenção de todos. “Onde é que já serviu a filha do Azulão trabalhando no lugar de ser a primeira a chegar no baile?”
Termina de falar exibindo um sorriso de ponta a ponta, fazendo as marcas de sol ficarem ainda mais evidentes ao redor dos olhos, os dentes inferiores com placas metálicas enquanto os de cima já são quase todos de ouro. Usando uma bermuda jeans, chinelão e camisa de marca. O homem que se diz meu pai se levanta do lugar junto com a risada dos seus afetos.
Andando na minha direção, fico paralisada forçando o sorriso quando sua mão se encaixa na nuca, seu olhar escuro faz todo o meu corpo estremecer com medo.
“Essa aqui é o orgulho do pai!” Exclama fazendo todos berrarem erguendo as cervejas, abro um sorriso amarelo mantendo o papel, antes dele aproximar a boca do meu ouvido. “Tenho um convidado especial hoje, se comporta direitinho que nem a Marcela vai conseguir te tirar da tua cama.”
Arregalo os olhos surpresa com as suas palavras.
“O que precisa?” Sei que não deveria confiar nele tão fácil, mas o cansaço e o corpo dolorido grita muito mais alto.
Faz tantos meses que não vejo a minha cama que só de imaginar poder deitar na cama e aproveitar, sinto os olhos marejando de emoção.
“Você vai ser uma boa filhinha ficando ali do meu lado sentadinha e só vai abrir a boca quando eu mandar, nada de piadinha ta me ouvindo Lua?”
Aceno concordando com os seus termos, acompanho Azulão, a mesa num instante é colocada do seu lado me obrigando a sentar perto dele, a visão da quadra na frente. Ele serve um copo de cerveja, mesmo sem querer sei que preciso tomar para obedecer suas ordens.
Ficar quietinha e sentadinha, significa que os seus homens vão passar não só para cumprimentar ele como para ficar passando a mão em mim. Por isso não venho no baile de short desde os quinze, muitos homens que Azulão recebe aqui podem ter idade pra serem meu pai ou tem filhas da minha idade. Mesmo assim, não consigo fugir do radar deles.
O ciúme de Marcela não passa despercebido, ela pega uma bebida com um dos garçons, uns garotos que ele contrata pra fazer um bico em dia de baile, o olhar dela é cheio de inveja, pela atenção dos homens. Na verdade o pior de tudo é porque não quero nada disso, tomo outro gole da cerveja gelada, sentindo a primeira mão passando pela minha nuca.
Desvio o olhar da peguete do meu pai, encontrando o Chocolate, um n***o de tom chocolate com olhos verdes, as tatuagens marcando sua pele, usando uma camiseta da Rebook e uma bolsa lateral, ele é o segundo no comando do morro. Mais um de confiança do Azulão, diferente do Gato, ele consegue disfarçar os olhares maldosos.
Por um momento achei que poderia confiar em alguém até que o peguei dentro do meu quarto com uma calcinha minha, depois disso cansei de ter que atender ele na boate da JuJu. Seu olhar verde cheio de cobiça faz o meu nojo aumentar, termino a cerveja no copo para disfarçar o desgosto.
“Vai com calma, Luazinha, você não vai querer perder a melhor parte da festa.” Sorri puxando a cadeira se sentando do meu lado.
Olho para o lado encontrando Azulão dando atenção pra outra Maria Fuzil, procuro por Marcela percebendo que ela deve ter ido no banheiro. Chocolate pega a garrafa da cerveja servindo o meu copo.
“Até agora só fiquei sabendo que tem um convidado ai, não vi nada diferente.” Digo querendo mudar de assunto, antes de me mexer na cadeira querendo que ele tire a mão da minha nuca.
“Ahh Luazinha, hoje vamos ter uma surpresa pra você.”
Cruzo os braços ficando com raiva pois é a segunda vez na noite que escuto essa porcaria, primeiro com Gato e agora com o Chocolate.
“Que surpresa é essa Chocolate, num to gostando disso desde a hora que o Gato comentou.” Retruco fazendo seus olhos faiscarem com raiva.
Os dois parecem estar o tempo todo em uma briga para saber qual deles dois vai ganhar a benção do chefe para pegar a princesinha do morro.
“Já tava dando trela praquele i****a, Lua?”
“Eu não dou trela pra ninguém, mas ele tava querendo relar em mim.” Digo como quem não quer nada.
Vejo suas narinas se inflando com a raiva, as vezes a melhor maneira de se defender é jogar um contra o outro. Por isso faço questão de deixar as palavras soltas, voltando a tomar cerveja como senão tivesse dito nada, para que a imaginação de merda dele faça o restante do trabalho.
Chocolate agarra os meus fios com tanta força que sinto alguns dos lugares doloridos da surra de ontem, não consigo conter a maneira como os meus olhos se enchem de lágrimas.
“Deixa aquele filho da p**a relar em ti que tu vai ver o banho de sangue escorrendo no morro.” Ameaça com os olhos fervendo.
Quero pedir que me solte, mais sei que não adianta e por isso fico calada balançando a cabeça como se acatasse sua ordem. Na realidade não quero é que nenhum deles toque em mim, nunca senti desejo por nenhum dos caras aqui do morro, ser obrigada a dançar de sutiã e calcinha na boate pra ter o que comer em casa, aguentando o olhar dos bêbados, as mãos bobas e as palavras sujas deles se tocando, me fez ter um abuso por esses homens.