2. Camila

988 Words
A frase veio baixa, mas afiada. Bem colocada. Do jeito que ele sabia fazer quando queria me reduzir sem parecer descontrolado. Heitor abaixou os olhos pro prato. Caio me olhou, confuso. Eu sentia o sangue pulsando nas têmporas. — Come, filho — falei baixinho, para os dois, embora estivesse falando comigo também. Lucas provou o purê e fez uma careta. — Frio. Eu respirei fundo. — Porque você demorou. Ele deixou o garfo cair no prato. O barulho metálico fez Caio se assustar. — Eu demorei? — Lucas repetiu, olhando para mim com aquela calma perigosa que vinha antes da explosão. — Eu trabalho o dia inteiro e a culpa é minha se essa comida tá uma merda? — Eu não falei isso. — Falou com essa sua cara. Eu ri outra vez, só que sem humor nenhum. — Minha cara agora fala? — A sua cara, o seu tom, tudo em você irrita. Ali. Ali alguma coisa dentro de mim vacilou. Porque humilhação, quando é diária, vai virando móvel da casa. Você desvia, conhece o lugar, aprende a não trombar nela toda vez. Mas tem dias em que ela muda de lugar sem avisar e acerta bem no meio do peito. — Então me diz por que você continua aqui — escapou da minha boca antes que eu pudesse impedir. O silêncio que veio depois foi absoluto. Heitor levantou a cabeça devagar. Caio parou de mastigar. Lucas me encarou como se eu tivesse acabado de atravessar uma linha invisível. Talvez tivesse. — O quê? Minha garganta secou. Mas agora já tinha ido. — Se eu sou tão irritante, tão folgada, tão insuportável... por que você continua aqui? Eu sabia a resposta. Porque aquela casa era dele. Porque os meninos eram dele. Porque minha vida, do jeito que ele gostava de lembrar, só funcionava porque ele permitia. Porque me ver tentando e falhando fazia parte do prazer. Mas eu quis perguntar mesmo assim. Só uma vez. Só pra ouvir o som da crueldade saindo da boca dele de forma limpa. Lucas passou a língua por dentro da bochecha e se inclinou um pouco para frente. — Você quer mesmo discutir isso agora? Na frente deles? Quase ri. Quase. — Você não se importa com isso. — Eu me importo mais do que você imagina. — Ele apoiou os cotovelos na mesa. — Você que adora fazer cena. Heitor apertou o garfo com força. Eu percebi. Percebi tudo. O ombro duro, a boca apertada, o jeito que ele prendia a respiração quando achava que eu e o pai íamos começar de novo. Meu filho de oito anos já sabia reconhecer perigo dentro da própria casa. Essa constatação tinha gosto de ferrugem. — Mãe — Caio chamou baixinho, sem entender se podia falar. Lucas virou o rosto para ele rápido demais. — Come. O tom fez Caio encolher. Aquilo foi o suficiente. — Não fala assim com ele — eu disse, mais firme do que devia. Lucas se levantou tão depressa que a cadeira arrastou com violência no chão. Caio levou um susto e começou a chorar na hora. Meu corpo inteiro travou. — Lucas — falei baixo, levantando também. — Para. Ele deu a volta na mesa devagar, os olhos fixos em mim. Não era a primeira vez que ele vinha naquela direção com aquele olhar. Mas a presença das crianças mudava tudo. Ou devia mudar. Devia. Só que ultimamente eu já não sabia mais o que segurava Lucas e o que deixava de segurar. — Você tá muito corajosa hoje — ele disse. Caio chorava alto agora. Heitor saiu da cadeira e foi até o irmão, abraçando-o pela cintura num instinto que nenhuma criança devia precisar ter. — Tá tudo bem — Heitor sussurrou para ele, embora estivesse pálido. Meu coração se partiu num barulho que só eu ouvi. Lucas parou perto demais de mim. Perto o bastante para eu sentir o cheiro do perfume misturado ao suor do dia inteiro. Perto o bastante para eu saber que, se eu recuasse, ele ia notar. E eu me recusei a recuar. Nem que fosse só naquela vez. — Repete — ele falou, baixo. — Repete a forma como você falou comigo. — Lucas, os meninos— — Eu falei pra repetir. A mão dele veio rápida no meu braço. Não foi um tapa. Não foi um empurrão. Foi pior na frente deles porque foi preciso. Calculado. Os dedos cravando acima do meu cotovelo, fortes o suficiente para doer, discretos o suficiente para, se alguém visse de fora, parecer só um marido chamando a atenção da esposa. Mas eu senti. E Heitor também viu. Os olhos dele desceram direto para a mão do pai no meu braço. Minha vontade foi morrer ali. — Solta ela! — Heitor gritou, num ímpeto tão desesperado que o choro do Caio aumentou. Lucas me soltou na mesma hora. Não por vergonha. Por irritação. Virou-se para o nosso filho mais velho com uma expressão fria que me deu vontade de enfiar o corpo inteiro na frente dos dois. — Quem tá falando com você? — Lucas, chega — eu disse, me metendo entre eles. Minha voz tremia, mas eu não ligava. — Chega. Acabou. Ele passou a mão no cabelo, puxando os fios para trás, o peito subindo e descendo num ritmo controlado demais para alguém que estava com raiva. Esse era o pior Lucas. O que parecia calmo. — Você tá deixando esse menino malcriado — falou, me olhando, mas se dirigindo ao Heitor. — Igualzinho à mãe. — Não fala assim — pedi, sem conseguir esconder a súplica. Eu odiava a súplica. Odiava mais do que odiava a agressão. — Eles não têm culpa. Ele deu dois passos para trás, pegou o copo da mesa e bebeu a água de uma vez só. Depois largou o copo na pia com força. — Eu perdi o apetite. Pegou a pasta, o celular, as chaves.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD