1. Camila
Eu sempre sei quando Lucas vai chegar de mau humor.
Não é pelo barulho da chave, nem pela forma como a porta abre. Também não é pelo jeito que ele pisa, embora exista uma diferença clara entre o homem que entra em casa querendo jantar e dormir e o homem que entra querendo descontar em alguém o fracasso do próprio dia.
Eu sei antes.
Sinto no corpo.
É como se o ar da casa afinasse, como se as paredes encolhessem um pouco e tudo ficasse mais apertado. Minha nuca endurece, meu estômago embrulha, e até o som da televisão dos meninos, baixa na sala, parece longe demais.
Eu estava na cozinha terminando de montar os pratos quando ouvi a fechadura girar, e o nó veio antes mesmo de eu olhar para a porta.
Respirei fundo, ajeitei o cabelo atrás da orelha e forcei um sorriso que ninguém merecia.
— Pai! — Heitor gritou primeiro, largando o carrinho no tapete e correndo até a entrada.
Caio veio logo atrás, tropeçando no próprio pé pequeno, com aquela pressa desengonçada de criança que ainda acha que o pai chegando em casa é sempre uma boa notícia.
Lucas m*l teve tempo de fechar a porta e os dois já estavam agarrados nas pernas dele. Por um segundo, eu quis acreditar que a noite seria tranquila.
Só por um segundo.
— Calma, c*****o — ele soltou, ríspido, afastando Heitor com a mão no ombro. — Não dá pra respirar nessa casa?
A frase cortou o ar.
Heitor congelou na mesma hora. Tinha oito anos, mas já conhecia o tom. Conhecia tão bem que o rostinho dele mudou antes mesmo que a cabeça baixasse. Caio, mais novo, continuou sorrindo, sem entender direito, até perceber que ninguém mais estava sorrindo também.
Sequei as mãos no pano de prato e saí da cozinha.
— Eles só estavam animados porque você chegou — falei, tentando manter a voz leve, quase brincalhona. Eu sempre tentava assim primeiro. Como se adoçar o ambiente pudesse impedir que ele estragasse de vez. — Não precisa falar desse jeito.
Lucas virou o rosto devagar na minha direção.
A gravata já estava frouxa no pescoço, o primeiro botão da camisa aberto, os olhos cansados e duros daquele jeito que me fazia sentir suja mesmo sem ter feito nada. Ele me olhou dos pés à cabeça como se eu fosse mais uma coisa fora do lugar naquela casa.
— Ah, pronto — disse, largando a pasta em cima do aparador com força demais. — Começou.
Eu sorri. Não porque achei graça. Porque às vezes sorrir era a única forma de não deixar o medo crescer na frente dos meninos.
— Não comecei nada. Só falei—
— Você sempre fala. — Ele passou por mim em direção à sala. — Impressionante. Eu chego cansado e você já tá armada pra encher a p***a do saco.
Heitor olhou para mim. Depois para ele. Depois para mim de novo.
Aquele olhar me rasgava inteira.
O olhar de criança que ainda não entende tudo, mas entende o suficiente.
— Vamos lavar a mão pra jantar, meus amores — eu disse para os meninos, num tom doce demais, quase teatral. — Vai, os dois. Correndo.
Eles obedeceram, em silêncio.
Ficou só o som da torneira do banheiro e a televisão ligada em volume baixo, um desenho qualquer com bichinhos coloridos demais para aquela casa.
Lucas afrouxou o relógio do pulso e o jogou no sofá.
— O que tem pra comer?
— Frango, arroz, salada e purê.
Ele foi até a cozinha sem dizer nada. Pegou a tampa da panela e olhou como se eu tivesse servido veneno.
— Frango de novo?
Fechei os olhos por um segundo.
Um segundo só.
— Tinha descongelado desde cedo.
— Você não sabe fazer outra coisa?
Eu ri pelo nariz, de nervoso.
Era isso. O espetáculo começava sempre de um detalhe ridículo. O arroz, a roupa, o barulho, o desenho, o jeito que eu respirava. Nunca importava de verdade o motivo. Ele só precisava de um.
— Lucas, pelo amor de Deus, é jantar. Se você quiser outra coisa, eu faço amanhã.
— Amanhã. — Ele soltou uma risada curta, debochada. — Você é muito folgada mesmo.
A palavra bateu em mim com força desproporcional. Não por ser a pior que ele já tinha usado. Já ouvi coisa pior. Muito pior. Mas porque tinha sido um dia longo, Heitor acordou com febre, Caio chorou porque perdeu um brinquedo, a máquina de lavar vazou, eu m*l consegui sentar cinco minutos desde a hora em que abri os olhos. E ainda assim, na cabeça dele, eu era folgada.
Olhei para a panela, depois para ele.
— Folgada?
— É. Folgada. Vive nessa vidinha de mãe em tempo integral como se isso fosse alguma grande coisa.
Meu peito queimou.
— Não faz isso.
— Isso o quê?
— Na frente deles.
Ele sorriu.
E eu odeio quando Lucas sorri assim.
Porque nunca é um sorriso. É um aviso.
Os meninos voltaram do banheiro justamente nessa hora, as mãozinhas molhadas, a atenção dividida entre nós dois e a mesa posta. Heitor já sentia que tinha alguma coisa errada. Caio só queria sentar na cadeira e pedir suco.
— Sentem — eu falei depressa. — Vamos jantar.
Eu puxei as cadeiras, servi os pratos, empurrei o copo azul do Caio para mais perto dele e tentei manter as mãos firmes. Do outro lado da mesa, Lucas se sentou sem agradecer, sem olhar para mim, sem olhar de verdade nem para os filhos.
Heitor ficou me observando enquanto espetava o arroz com o garfo.
Caio começou a contar, animado, que tinha desenhado um foguete na escola.
— E aí a tia falou que tava lindo, pai. Tinha fogo embaixo e—
— Mastiga de boca fechada — Lucas cortou, sem sequer erguer a cabeça.
Caio parou.
Foi um silêncio pequeno, mas c***l.
Eu engoli seco e sorri para ele.
— Continua, meu amor.
— Não precisa incentivar tudo — Lucas murmurou, pegando o copo. — Depois você não sabe por que eles ficam assim. Sem limite.
Eu contei até três por dentro.
Um.
Dois.
Três.
— Eles são crianças.
— E você é uma criança grande. Essa é a diferença.