Capítulo 33
Vinícius Strondda
Ela parou por um momento.
— Olha… — ela inclinou a cabeça, pensando. — Tem um carro que é uma relíquia de Giovanni. Vive na mecânica pra consertar porque ele força o motor até fazer fumaça. Com sorte, está lá. É mais fácil de roubar.
— Qual?
— Um Lancia Delta HF Integrale. Vermelho. Ele trata como se fosse um filho.
Soltei um som curto, quase um riso. Claro que o pavão teria um Integrale.
— Deixa que eu resolvo isso. — voltei ao plano. — Vamos fazer parecer um acidente. Derrapagem na estrada velha da marina. Documento seu no porta-luvas, fios de cabelo que não foram tingidos de vermelho, perfume... pode ser uma roupa que caiu ao lado do carro. Se o veículo cair na água, melhor. Se não, fogo. Eu escolho lá.
— E se me verem algum dia? Sei lá, num restaurante ou algum evento — ela perguntou, sem tremer.
— Quem ousará questionar o Don da Strondda? — respondi, seco. — E também evitaremos que você saia em público.
— Entendi.
— E escuta bem: a partir de agora, os Moretti estão fora das negociações da máfia. Porta fechada pra esses figlios de puttana. E minha irmã jamais será entregue a algum deles.
— Que bom. — ela disse, e dessa vez não foi provocação; foi alívio. — Manuela não merece isso.
— Nem pensar. Se um deles encostar um dedo nela Io mato.
Silêncio curto. Eu empurrei o prato, dei mais um gole no suco para lavar a afronta gastronômica que Lucia fez.
Ela me observava, medindo meu humor. Então iria levantar, mas ela disse:
— Vinícius… — ela voltou, com aquele tom que pede faca e flor ao mesmo tempo. — E quanto a Gracy? O que aquilo significa? Eu sei que está fazendo muito por mim, mas não pretendo aceitar traição. Então seja sincero.
Olhei pra ela sem desviar. A cabeça ainda doía, mas agora a pergunta doía mais.
— Significa que eu bebi — falei, sem adoçar. — E que gente como Gracy fareja porta aberta e empurra o corpo. Não repita o erro de achar que ela tem lugar aqui. É só uma v***a que me viu na boate e aproveitou a oportunidade.
— Então… — ela puxou o ar — acabou seu caso com ela?
— Não começou. — recolhi o prato, empurrei para longe. — E não terá palco nesta casa. Eu só comi porque era fácil, mas se o que ela disse for verdade e minha mãe foi a responsável do rosto dela naquele estado... É melhor Io cair fora. Fabiana Strondda não é pra brincadeira não.
Ela ficou me olhando como quem tenta ler uma sentença escondida. Não dei mais nada. Levantei, alcancei a carteira, tirei uma chave.
— O celular está no quarto, numa das gavetas. E os números principais na gaveta grande da sala. João Miguel vai passar em alguns minutos. Você come essa… — apontei para a tragédia culinária — coisa, toma um banho e veste algo que não seja a minha camisa. Depois me leva ao casebre.
— Sì. — respondeu, mordendo o canto do lábio para não sorrir da minha cara para o “risoto”.
Fui saindo. Parei na porta, sem virar.
— E Lucia… — falei, devagar. — Se Gracy aparecer de novo, você não encosta. Deixa na minha mão. Não quero você com mais sangue nas unhas do que já tem.
— Ela que não apareça e nem encoste em mim. Posso estar sem paciência numa próxima vez — veio rápido.
Não respondi. Segui pelo corredor. Eu mesmo vou resolver isso com Gracy.
Atrás, ouvi o barulho da colher batendo na panela. Ela ainda tentava salvar a carbonara. Sorri sozinho, curto, e deixei o som morrer no fundo da casa.
Olhei no relógio, João Miguel estava atrasado.
— Che Cazzo!
Quando chegou Io já estava impaciente.
— Ma que demora. Que demora. — Veio até mim.
— Meu pai queria vir comigo. Disse que queria ter certeza que eu iria trabalhar pra ti como ele ensinou. Precisei de mais tempo — Ri debochando.
— Tio Maicon é puxa saco do meu pai. Eu não conseguiria fazer nada sem que Don Antony soubesse. Ainda bem que você é diferente.
Caminhamos até o carro dele. Abriu o carro. Coloquei a mão na maçaneta pra entrar.
— Pode contar comigo primo. Seu segredo está bem guardado. — Virei pra ele.
— Merda! Então io já te contei sobre Lucia? — ele balançou a cabeça incrédulo com um sorriso.
— Tô vendo que bebeu pra valer. Já esqueceu o que aconteceu ontem? — estreitei a sobrancelha.
Che Cazzo.
— O que aconteceu ontem?