Capítulo 32
Vinícius Strondda
A dor na cabeça me acordou antes do sol terminar de entrar. Latejava atrás dos olhos como se alguém tivesse esquecido um martelo dentro do crânio. Abri um olho. A casa estava limpa. Limpa demais para o estado em que deixei ontem. Vidro nenhum no chão, móveis no lugar, cheiro de algo… quente. Comida?
Não me lembrava de ter chamado os empregados.
Levantei devagar, tomei um banho e segui o rastro do cheiro até a cozinha. Parei na porta.
Lucia estava de costas, usando outra das minhas camisas — m*l abotoada, caindo no ombro — e o cabelo vermelho preso num coque torto, metade escapando, metade preso por pura teimosia. Mexia numa panela como quem negocia com um inimigo.
— Mamma mia… — falei, a voz rouca. — Quem foi que deixou você assumir o fogão?
Ela virou de lado, sem se ofender, só com aquela cara de quem não dormiu: olheiras, mas o queixo em pé.
— Ah, boa tarde. Estou com fome. Eu como muito, Vinícius. E você não chamou a cozinheira. — E me deu meio sorriso, sacana.
Respondi com outro, curto. Doeu a cabeça, mas a cena tinha sua graça.
— E agora io sou obrigado a passar m*l contigo ragazza? — fiz cara feia, de propósito.
— Você nem provou. Para de ser negativo.
Aproximei um passo, olhei a bancada. O que vi me fez desejar ter ficado bêbado até a semana que vem. Tinha um “risoto” que claramente havia sido feito como arroz comum, lavado em água corrente até perder a alma, depois jogado numa panela com… ketchup. Tinha também uma mistura que parecia “carbonara”: creme de leite, alho, queijo ralado e — por algum motivo que só Deus explica — salsicha fatiada e orégano por cima. Em outra boca do fogão, uma panela com massa grudada, cortada com faca para “soltar”.
Respirei fundo.
— Isto é o quê? — apontei com dois dedos, como se fosse explodir.
— Risotto alla Lucia — respondeu, orgulhosa. — E carbonara. Com um toque meu.
— Toque seu? Tua carbonara tem… creme de leite, ketchup e salsicha? Mama mia.
— Fica cremoso.
Fechei os olhos um instante, pedi paciência aos santos que já não me atendem. Quando abri, controlei o tom. A culpa é minha dela estar com fome.
— Lucia, vou entregar um celular, vá bene? No armário da sala tem uma gaveta grande. Todos os números importantes estão lá. Quando precisar da cozinheira, você chama. Capisce?
— Capisco. — respondeu, simples. — Mas hoje vai provar o que preparei.
Fiquei olhando ela terminar. A camisa subia quando esticava o braço pra pegar sal. Pensei, por meio segundo, se tinha calcinha ou não. Cortei o pensamento com a mesma rapidez. Não vou virar escravo dessa ruiva que mente.
"Tá bem gostosa."
Sentei tentando dar uma olhada se via alguma coisa ali embaixo.
Ela trouxe um prato. Serviu como se estivesse me oferecendo uma vitória. Peguei o garfo. Tentei.
A massa grudou no dente de tanta luta. Engoli assim mesmo. O “risoto” tinha gosto de escola pública no terceiro dia da semana. A “carbonara” melhor não comentar.
— Eu sei que já perguntei ontem, mas como faremos a respeito dos Moretti? — ela disse de repente, lavando as mãos e secando na barra da camisa. Minha camisa. Ecco.
Deixei o garfo, segurei o copo de suco. Encostei melhor na cadeira, encarei.
— Ainda tem os documentos originais como Isabella Romano? — Ela parecia sem ar. Colocou as duas mãos sobre a mesa.
— Aqui não. Eu vim sem nada e você me prendeu. Mas no casebre onde me escondi está guardado.
— Santo Dio. — passei a palma no rosto. — Mas que lugar é esse?
— Aqui perto. — ela respondeu, sem hesitar.
— E se alguém pegou, Lucia?
— Acho que não. Escondi bem.
Assenti uma vez.
— Então vamos comer e você vai me levar até lá. Vou falar com meu homem de segurança. Ele vai arrumar um carro dos homens dos Moretti. Aliás, quero um dele. Meu homem vai roubar pra que a gente forje um acidente com a sua morte. Isabella Romano estará morta em breve. Definitivamente morta. Capisce?
Ela piscou.
— Então serei eternamente Lucia Bianchi? — colocou a mão sobre a minha, mas tirei.
— Já não disse? Me casei com Lucia. Será Lucia pra sempre. O fato de você ter mentido não muda nada.
— Caramba.
— Escuta uma coisa, Lucia... Io só te perdoei porque não mentiu quando te dei a última oportunidade. Se não tivesse dito, certamente Io te mataria.
— Mataria?
— Acha pouco Io ter que armar pra te ter como esposa agora?
— Sinto muito. Será que pode me perdoar?
— Se não tivesse perdoado, não estaríamos aqui, tendo essa conversa, va bene? Só me dá espaço que ainda estou atordoado.
— Claro. Mas seu homem vai conseguir?
Parei de mastigar e a encarei apertando o guardanapo.
— Não tem nada que um Strondda não consiga. Nada Lucia. Grava isso na tua cabeça.