Capítulo 23
Vinícius Strondda
O corpo dela brilhava sob aquele vestido. Porcaccia miseria… eu só queria cancelar esse jantar e rasgar o tecido ali mesmo, no chão. Mas não posso.
— Você está uma tentazione hoje. — falei baixo, roçando os olhos pelo decote dela, até ouvir a respiração presa na garganta. — Difícil vai ser esperar. Mama mia.
Lucia não respondeu. Fingiu que não ouviu, mas eu conhecia aquele rubor nas bochechas — gosta quando falo assim com ela.
Sei que está chateada e fazendo drama. O problema é dela. Io não ligo.
E mesmo se ela resolvesse me provocar outra vez com esse maledetto jardim, eu brigaria de novo. Se preciso fosse, esmagaria todas as flores com minhas próprias mãos. Não adianta ela plantar, se minha vontade é esmagar.
Quando saímos, vi a cara dela ao passar pelo caminho e notar o resto das flores esmagadas. Quase riu com desdém, quase me amaldiçoou em silêncio. Brava a ragazza e eu adoro, mas não manda em mim.
Na escada, antes dela subir no carro, minha mão desceu firme e dei um tapa na b***a dela. O salto dela falhou por meio segundo, e eu mordi um sorriso ao segurar sua cintura.
"Depois io acalmo questa ragazza…”
Ficou em silêncio no carro enquanto eu olhava pra ela.
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No jantar
A grande maioria da família estava presente. O salão iluminado, os talheres soando, e cada olhar avaliando a mulher ao meu lado.
Lucia se portou como se tivesse nascido para aquilo. Ombros erguidos, sorriso educado, taça na medida certa entre os dedos. Cada gesto dela arrancava elogios discretos de tias, primas, até dos homens mais velhos que raramente reconhecem mérito em alguém de fora, como tio Salvatore.
Brava… pensei, observando como conseguia ser ao mesmo tempo delicada e firme.
Até que Manuela roubou a ragazza por alguns minutos. Vi minha irmã arrastar Lucia para as apresentações. A Heloá, filha de Enzo e Rebecca; a Julia, filha de Laura e Alex; e também Mikaela, filha do tio Maicon e da Duda. Todas sorriram, curiosas, estudando a nova Strondda como quem observa uma peça rara.
Eu bebia o vinho, mas meu olho seguia nela o tempo inteiro.
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Depois do jantar, um dos convidados se aproximou. Reconheci o sotaque — Alfredo Moretti. O sujeito veio de mansinho, um copo na mão, um sorriso enviesado. Io sei o que ele quer.
— Então se casou… será o novo Don — ele começou, a voz arrastada. — Meu tio quer casar o meu primo mais novo com sua irmã. Deveria ajudar na negociação. Seu pai não mostrou muito interesse.
Cruzei os braços, erguendo a sobrancelha.
— Manuela vai ajudar na escolha do noivo. Então não vai depender só de mim. Vamos esperar, capisce?
Nesse instante, senti um perfume familiar. Virei o rosto — era ela. Lucia apareceu como se tivesse ouvido o nome dela ecoar.
Estiquei a mão e a puxei para perto, firme na cintura.
— A propósito, essa é minha bela esposa, Lucia. Amanhã será a cerimônia para eu assumir como Don. Lucia estará presente.
Alfredo levantou o olhar para ela… e ficou branco. O sorriso dele morreu na boca. O copo quase escorregou da mão.
— Algum problema, Alfredo? — minha voz veio baixa, mas pesada.
— Como disse que se chama sua esposa? — ele piscava rápido, como se tentasse enxergar de novo. — Porque ela é igualzinha à falecida esposa do meu primo Giovanni. Que Deus a tenha. — Fez um sinal de cruz.
A mão de Lucia tremeu na taça. Eu senti o corpo dela endurecer, como se tivesse levado um soco no estômago.
— Lucia Bianchi. — respondi sem hesitar. — Acho que se confundiu. Ela nunca foi casada. Aliás, casou com um Strondda ontem. Acabei de falar. Não sei se não entendeu direito...
Só que me espantei, Lucia se engasgou com o vinho branco e virou parcialmente de costas, tossindo, como se quisesse desaparecer. Alfredo recuou, pigarreando.
— É… pode ser. Isabella não era ruiva. Mas é bem parecida. Seria irmã de Isabella Romano?
Lucia saiu depressa, sem olhar pra trás.
Eu disfarcei com um gole de vinho, mas meu sangue já queimava. Saí logo em seguida sem responder ao Moretti.
Ela pegou um corredor e foi em direção aos banheiros.
A porta do banheiro estava entreaberta. Empurrei sem pedir licença.
Ela estava diante do espelho, a mão apoiada na pia, a respiração descompassada. Quando me viu no reflexo, virou de lado, os ombros tensos. Assustada.
Fechei a porta e avancei devagar, cada passo ecoando no azulejo.
— O que foi isso, Lucia!? — segurei o braço dela e a girei para mim. — Desse jeito me deixa intrigado.
Ela tentou se afastar, mas eu a encurralei contra a pia, as mãos apoiadas dos dois lados, prendendo-a.
— Você conhece alguma Isabella? — meu rosto colado ao dela, os olhos cravados. — É uma irmã? Uma prima? Porque saiu daquele jeito?
Ela piscava, os lábios entreabertos, mas nenhuma resposta saía. O rubor subiu no pescoço dela, e o coração batia tão forte que eu conseguia ouvir.
Aproximei mais, deslizando a mão pelo queixo dela e forçando-a a me encarar.
— Fala, ragazza! — rugi baixo, a voz carregada. — Quem é essa Isabella? Você não morava com uma tia?
Lucia engoliu seco. O olhar fugiu para o lado, mas eu não deixei. Meu polegar roçou o lábio inferior dela, sentindo o tremor.
— Não me esconda nada… — murmurei, quase rosnando. — Porque se esse nome voltar a aparecer, juro que vou arrancar a verdade nem que seja à força. E Io faço. Não me provoca quando faço uma pergunta.
Ela estremeceu inteira, a respiração falhando, e por um segundo tive certeza: havia um segredo ali.