Capítulo 24
Lucia Bianchi
O olhar de Vinícius queimava. A mão dele apertava tanto meu braço que quase senti o osso ranger. A cada segundo, meu coração batia mais rápido, como se fosse me denunciar ali mesmo, naquele banheiro abafado.
Senti o suor escorrer pelas minhas espinhas. Seu olhar me prendia. Senti vontade de contar a verdade. É horrível mentir olhando em olhos como os dele. E ainda saber que é o futuro Don.
— Eu… não sei do que aquele homem está falando — menti, a voz fraca, mas firme o bastante para não soar como um sussurro covarde. Torcendo pra funcionar.
— Io não acredito. Che Cazzo?
Não tive tempo de inventar mais nada. A porta abriu e a figura imponente de Fabiana entrou. Graças a Dio.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou com aquela calma perigosa que só ela sabia ter. Seus olhos me varreram primeiro, depois cravaram em Vinícius. — Vinícius, este é o banheiro feminino.
Ele não recuou de imediato, continuava me prendendo entre o corpo dele e a pia. O maxilar trincado, as veias do pescoço dilatadas, pulsando.
— Só estou conversando com Lucia, mama. — A voz dele veio baixa, mas tão carregada de fúria que me deixou sem ar. Seus olhos nos meus, me impediam de respirar.
— Pois saia — ordenou Fabiana, firme. — Mesmo que se torne o novo Don, não pode invadir um banheiro feminino assim. Terá a noite toda para conversar com sua esposa.
Os olhos dele ficaram nos meus. Um abismo verde de raiva e domínio. Depois, soltou meu braço devagar, como se fosse contra a vontade.
— A gente conversa depois. Temos a noite toda amore mio… — sussurrou, tão perto que senti o hálito quente.
Engoli seco.
Fabiana se aproximou, pousando a mão no meu ombro. Soltei o ar de repente.
— Está tudo bem, ragazza?
— Sim… está tudo bem. — forcei um sorriso que não chegou aos olhos.
Ela me avaliou com cuidado, mas decidiu não insistir.
— Antony me disse que o casamento foi consumado. Você está bem com isso?
Um rubor me subiu ao rosto, mas eu mantive a postura.
— Estou sim, senhora. Seu filho tem altos e baixos, mas fique tranquila. A senhora criou um homem de verdade.
Fabiana sorriu, orgulhosa.
— Fico feliz em ouvir isso. Sei que meu bambino tem algumas questões complicadas, mas com jeitinho você consegue lapidar. Antony também era como ele e tive problemas no início, mas considerando que o de vocês foi consumado tão rápido, acredito que esteja funcionando o matrimônio.
Respirei fundo.
— Sim. Tirando a parte que ele quase me matou por ter plantado flores no jardim e depois destruiu tudo...
— Oh! Santo Dio. — Ela levou a mão ao peito. — Meu bambino fez isso?
— Desculpe, senhora Strondda. Eu nem deveria ter dito isso. Ignore.
— Ah, ragazza… Vini tem essa necessidade de destruir quando está estressado. O Antony se feria tentando consertar o jardim e plantando rosas excessivamente. Ele não… Vini precisa ter algo nas mãos para estragar. Não necessariamente flores, mas como em casa sempre tinha de sobra, ele usava uma ou outra pra isso. Mas converse com ele. Ele pode te ouvir.
— É porque se não tiver flores, ele vai destruir o quê? Eu? — a pergunta escapou antes que eu pudesse conter.
Fabiana riu, então segurou minha mão.
— Não. Calma, ragazza. Ele tem um coração maravilhoso. Nunca faria isso. Digo de coração. Ele pode explodir se ficar nervoso e começar a quebrar as coisas, mas se tem uma coisa que ensinei, foi respeitar as mulheres. Te garanto. Ele surta, grita, quebra —E pode deixar quebrar, tá? Ele sempre limpa depois e compra o que quebrou. Isso alivia a raiva dele. Mas não vai te machucar.
Meu peito doía com a dúvida.
— Como vou fazer isso dar certo? — deixei escapar.
— O segredo é evitar o stress. — Olhei para os lados.
— Evitar? Mas ele adora uma briga.
Ela riu baixinho.
— Mas também adora você. Nunca vi meu bambino olhando pra alguma ragazza como olha pra ti. Tenho certeza que vai saber conduzir esse casamento. Fica tranquila.
— Tomara, senhora…
— Venha, vamos voltar pra lá. A atenção está toda em você, hoje.
Segui com ela, tentando esconder o tremor nas pernas.
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No salão, todos ainda conversavam. Antony logo abriu um sorriso largo ao nos ver.
— Aí estão as damas da máfia… — disse, abraçando Fabiana e batendo a mão no ombro de Vinícius. — Que orgulho do meu bambino! Amanhã será o novo Don da máfia Strondda e Io vou viajar o mundo com minha linda esposa, capisce?
Fabiana retribuiu o gesto, e Vinícius estendeu a mão para mim. Hesitei, mas segurei. Ele me puxou para perto e beijou minha cabeça.
"Será que está tudo bem?" pensei. Ou será que na frente do pai ele muda de papel, só para disfarçar?
Manuela estava séria, os olhos fixos.
— Quero ir embora. — murmurou. — Aquele Moretti não para de olhar pra mim e tirar fotos pra levar pro primo.
Isso me deixou na defensiva de novo. Tudo que não preciso agora é de um Moretti casado com minha cunhada. Que Dio me ajude.
Vinícius estreitou os olhos.
— Calma, Manu. Se depender de mim você não casa com um Moretti. São muito falsos. — Ele deu uma olhada pro cara e entendi que não gosta de alguma coisa ali.
Um alívio me atravessou. Pelo menos nisso, estávamos de acordo.
O jantar terminou. Seguimos para o carro. Vinícius estava sério, calado, como se cada passo fosse calculado.
Quando entramos, o silêncio dele se quebrou em uma ordem gelada:
— Todos pra fora! Estão dispensados. Quero apenas os soldados do lado de fora. — ele dispensou os empregados, a governanta, cozinheira e comecei a me preocupar.
As portas bateram. O casa ficou só para nós dois.
Recuei até encostar na parede da sala, o coração disparado.
Ele girou o rosto lentamente para mim, me deixando sentir seu perfume. O silêncio entre nós tinha peso de sentença, agora.
Seu olhar voltou a me queimar.
O que será que ele vai fazer?