Me diz, Lucia

1248 Words
Capítulo 25 Lucia Bianchi Senti a parede gelar nas minhas costas como se fosse um aviso. O concreto apertava as minhas escápulas enquanto ele se aproximava, cada passo calculado e pesado como a batida de um martelo. O ar da sala parecia ter encolhido — tudo distante, como se eu estivesse dentro de um aquário e o resto do mundo tivesse sido desligado. Vinícius ficou a um palmo do meu rosto. O cheiro dele — um misto de colônia amadeirada e suor que parecia ter açúcar — me invadiu. Minhas pernas vacilaram, e eu tive que encaixar o pé direito atrás do esquerdo para não ceder. Ele me olhava como se tentasse decifrar um mapa antigo, como se minhas veias fossem linhas que levavam a um segredo proibido. A mão que segurava meu braço era firme, quase dolorosa, mas não suficiente para deixar marcas; era uma posse silenciosa, uma declaração de propriedade não verbalizada. — Me diga, Lucia... O que está escondendo de mim? — a voz dele veio baixa, afiada. Os dentes sobem e descem no ritmo das palavras. Engoli com força. O gosto de metal da ansiedade encheu minha boca. Tentei puxar o braço, fazer um gesto natural, mas percebi que qualquer movimento brusco seria interpretado como resistência. E resistência, pensei, poderia ser pior. — Eu... — comecei, mas as sílabas se embaralharam. Minhas mãos ficaram úmidas; a unha do polegar roçou a costura do vestido como quem procura uma ponta de segurança. — Io... Ele apoiou a outra mão na minha cintura, firme, e com a ponta dos dedos começou a mexer no meu cabelo, afastando uma mecha que teimava cair no meu rosto. O toque foi estranho: carinhoso e autoritário ao mesmo tempo. Era como se, pelo movimento, ele tentasse provar que eu pertencia a ele. Minha respiração acelerou. Aquela mão que brincava com meus fios tinha um poder que eu não sabia nomear — era intimidadora porque era a mesma que prendia, controlava, comandava. — Não ouse mentir, ragazza — Ele enfiou as palavras entre os dentes. — Posso tolerar se me contar agora que io estou perguntando. Nunca vou aceitar uma mentira. Porque agora é minha esposa. O peso é diferente. Fiquei com o rosto quente, o corpo pequeno diante da presença dele. Por um instante me senti uma criança observada pelo pai severo que exige obedecer. O pânico bateu com força no peito; uma memória de todas as pequenas mentiras que tinha contado para sobreviver me assaltou. Mentiras para esconder um passado, para me proteger, para enganar o destino. E ali estava Vinícius, com olhos de quem poderia desmontar tudo com um sopro. Eu tentei mentir de novo, mas não consegui. Não olhando nos olhos dele. — Eu não posso — disse, a voz fina, e senti que, por mais que tentasse parecer firme, minhas costas tremiam. — Você pode me perdoar? Ele riu, sem humor. O riso cortou o ar como uma lâmina. — Perdoar? Você está zoando seu Don, ragazza? — falou e, de novo, mexeu no meu cabelo, mas agora sua mão não era leve. A proximidade era sufocante; meus cílios quase roçaram as pestanas dele. — Meu homem me confirmou hoje que muitas informações não batem no seu histórico. Tem algo a me dizer sobre isso? As palavras deram um nó na minha língua. Eu podia sentir a coragem escorrer como se fosse água por entre os dedos. — Pense bem Lucia. Não queria perder ele — não naquele momento em que eu havia, por tanto tempo, sonhado com a possibilidade de ter um lugar ao lado de um homem que me desse carinho, proteção por ser poderosíssimo. Havia, escondido em mim, um desejo de ser reconhecida, de pertencer a ele. Mas havia também o medo — um medo bruto e primitivo de dizer demais e ver aquilo ruir. Ele nunca me aceitaria como Isabella Romano. Até porque continuo casada com o Giovanni. — Não posso. — Repeti, porque era a verdade que eu tinha naquele instante: não podia revelar. Não podia confessar histórias que, se expostas, poderiam estilhaçar a pequena paz que agora me cercava. Mas senti medo. Sei muito bem quão bruto um homem pode ser se estiver irritado — Por favor, não me machuca. Você... eu gosto de você. Se me machucar eu vou quebrar em cacos. Ao ouvir aquilo, algo mudou no rosto dele. Por um segundo vi um lampejo de dúvida, quase ternura. Ele inspirou fundo; o peito subiu e desceu como se houvesse uma batalha interna. Era claro que Vinícius era um homem dividido entre a violência herdada e uma afeição genuína que o confundia. Mas com essa frase, eu sabia que assinaria minha sentença. — Lucia... — falou ele, a voz baixa, quase humana por um instante. — Estou perdendo a paciência. Não tem nada que uma mulher precise esconder do marido. Então me diga de uma vez que p***a é essa. Antes que Io enlouqueça. A palavra saiu como um trovão. Uma corrente elétrica percorreu meu corpo. Minha visão ficou estranhamente dilatada; eu vi a sala em um lento movimento de câmera, percebendo os detalhes que antes eu considerara irrelevantes: o brilho dourado das molduras, a sombra que projetava a estátua no canto, o reflexo de luz numa taça vazia. Tudo parecia estar à distância, observando como um público c***l. — Não. — A palavra escapou com um fio de desespero. — Não posso. Ele perdeu a compostura. Em um gesto impensado, ergueu a mão e desferiu um soco na parede ao meu lado. O impacto ecoou como um trovão de metal; os cacos de gesso saltaram e uma fissura serpenteou pelo reboco. A força do golpe me fez ondular na parede; senti a vibração subir pelo meu corpo. O som abafado do estalo me fez encolher. Vinícius prendeu os dentes. Sangue escureceu entre os nós dos seus dedos — um corte na pele que não me surpreendeu. Ele olhou para a própria mão, surpreso, e por um segundo a raiva se transformou em dor. A mão dele ficou coberta de pó e vermelho, e ele respirou com dificuldade, como se a ferida tivesse atingido algo além do corpo. Eu não sabia o que fazer. O medo se metamorfoseou em pânico. Minha visão ficou turva; o mundo oscilou. O som da conversa, do que ele dizia chegou como se alguém tivesse virado o volume muito alto e muito baixo ao mesmo tempo. O sangue do ferimento dele parecia pulsar no mesmo ritmo que meu coração. — Lucia... — ele murmurou, quase para si. A voz tremia. — Io... Minhas pernas não deram mais suporte. Talvez fosse o choque, talvez uma compulsão física de me proteger do próprio corpo que falhava. Senti minhas forças abandonarem-me como um cobertor puxado. As mãos tremiam, a respiração ficou curta e minha cabeça começou a girar. Uma sombra levou as bordas da minha visão e, com a sensação de que estava caindo sem chão, meu corpo cedeu. Antes de perder a consciência, ouvi a voz dele — era abafada, próxima, sufocante: — Non... non ti preoccupare — disse algo que parecia um pedido e uma promessa, mas as palavras se perderam nas cortinas do meu desmaio. O último contato que senti foi a palma da sua mão — a mesma que me havia dominado durante toda a noite — pousando firme nas minhas costas, como se, mesmo em sua fúria, ele quisesse segurar aquilo que lhe desse alguma segurança. Depois, o breu me envolveu.
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