Bambino

1304 Words
Capítulo 10 Vinícius Strondda Não dormi direito. Fiquei deitado de lado, observando o peito dela subir e descer. Lucia parecia calma, mas os olhos fechados não enganavam. O corpo se contorcia, a respiração prendia de repente, como se lutasse contra alguma coisa no sonho. Pesadelos. Passei a mão pelo cabelo, impaciente. Eu, que sempre dormi como uma rocha, agora estava inquieto. Meu corpo queimava de raiva por não saber lidar com aquilo — com ela, também com o fantasma que a assombrava. Quando a madrugada começou a clarear, levantei. Ainda estava escuro, o vento frio batendo nas janelas do casarão. Caminhei até o jardim, sem camisa, os pés afundando na grama molhada de orvalho. O silêncio era pesado, só ouvia o som distante de um corvo. Vi as rosas enfileiradas, intactas, perfeitas. Estendi a mão e arranquei uma. Segurei firme, os espinhos perfurando minha pele, o sangue escorrendo. Apertei até o talo se despedaçar, até não sobrar nada. Joguei os restos na terra, respirei fundo e murmurei: — Assim será com quem ousar tocar nela. Me senti melhor. Virei as costas e voltei. No salão, reuni meus homens de confiança. Carlo, Enzo e Matteo, todos firmes como cães de guarda. Cruzei os braços e encarei cada um deles. — Vocês têm vinte e quatro horas. Quero a vida inteira de Lucia Bianchi sobre a mesa. Se mentiu. Se tiver merda escondida, vou saber antes que o sol se ponha. — pausei, a voz seca. — Meu pai chega amanhã. Preciso estar armado com informações. Eles assentiram, sérios. Carlo foi o primeiro a falar: — Entendido, Don Vinícius. Não vai sobrar sombra na história dela. — É estranho me chamarem de Don. Não me acostumei. — Bene. — fiz um gesto de corte com a mão. — Vão. Segui até o reduto no jardim — o espaço reservado ao Don, onde meu pai sempre resolvia assuntos internos. Abri a melhor garrafa de vinho branco e servi a taça. A bebida desceu queimando minha garganta, mas a cabeça ainda fervia. Resolvi alguns papéis, dei ordens rápidas para os negócios de importação, e já me sentia no papel de Don. Mas então… o barulho de um motor chegando me fez congelar. Olhei pela janela e quase engasguei com o vinho. O carro do meu pai. Estava muito mais perto do meu quarto do que eu. — Che cazzo… — o copo quase escapou da minha mão. — A maledetta tá na minha cama. A mamma vai enlouquecer. Saí pelos fundos correndo, a taça ficou na mesa, e subi dois degraus de cada vez até meu quarto. Entrei ofegante. — Levanta, ragazza. — sacudi o ombro dela. — Lucia, pelo amor de Dio, levanta vá bene? Ela piscou sonolenta, sem entender. — Que foi? — Arruma o roupão, merda! — puxei o tecido sobre os ombros dela. — Vai pro quarto de hóspedes, rápido! Ela tentou se erguer, tropeçou no lençol e… caiu direto sobre o meu peito. A porta abriu no mesmo instante. Minha mãe. Fabiana entrou como uma tempestade, o olhar fulminante. — O que está acontecendo aqui? — os braços cruzados, a voz fria. — Senhor Vinícius, por acaso essa é sua noiva? Engoli seco. — É, mãe. Mas não aconteceu nada. — Vinícius! — ela apontou o dedo para mim. — Você quebrou a tradição? Por que ela está de roupão na sua cama? Antes que eu respondesse, ouvi passos firmes atrás dela. Meu pai. — Não iriam chegar amanhã? Ou depois? — questionei. — Pensou que eu não estaria no casamento do meu filho? Se a gente chegasse e já tivesse ocorrido, você casaria de novo. Está me ouvindo? Don Antony entrou com a imponência de sempre, ajeitando o paletó. Olhou pra mim, depois pra mamma, colocando a mão sobre seu ombro. — Fabi, fica tranquila. Eu resolvo, vá bene? — Antony! — ela virou-se indignada. — Ela está sem roupa no quarto dele e ele sem camisa! Se os acionistas sonham com isso… Levantei as mãos, impaciente. Ah, se ela soubesse quantas vezes enfiei a Gracy nessa cama e ela nunca descobriu. — Mamma, já aproveita e arruma roupas pra Lucia. — falei com naturalidade. — Pronto. Problema resolvido. — Amorzinho… — meu pai segurou o braço dela de leve. — Cuida da roupa da ragazza, tá? Vou conversar com o bambino. Respirei fundo. Pro meu pai eu nunca cresci. Mas pelo menos estava ajudando a resolver. Mamma bufou, mas chamou Lucia com um gesto ríspido. — Venha comigo, menina. Agora. Quando as duas saíram, meu pai se aproximou devagar, me olhando de cima a baixo e encostou a porta. O peso daquela presença me atingia, como sempre. — Agora a conversa é entre homens. — a voz grave cortou o silêncio. Cruzei os braços, firme. — Papà… você me pede pra assumir a máfia Strondda diariamente, mas não me deixa fazer do meu jeito. Ela é minha noiva. Não tem mais porcaria nenhuma de lençol pra provar virgindade. Dio, eu sou homem! Ele ergueu a mão, pedindo calma. — Bambino, espera. Eu não reclamei nada. Só preciso saber algumas coisas. É que é estranho... Sua ex noiva — levantou a mão — Que diavolo a tenha — Nunca chegou a passar pela porta da cozinha, capisce? — Papà. Pelo amor de Dio... Aquela ragazza era uma puttana. Deu em cima de mim desde o primeiro instante e odeio isso. Você sabe. Pelo que disse, tu também era assim. Eu iria casar com ela e pedir a Dio pra que me ajudasse gerar no mínimo um bambino. — Aqui na máfia Strondda sempre foi assim, temos regras. De certa forma fico contento que tenha reagido. Também odeio essa parte. Se gosta da sua noiva, io também gosto. — Ela me traiu com o capo que me olhou sorrindo no outra dia. Eu bem que imaginei alguma merda, mas não isso. — Fez bem. Na verdade, vou matar a família dela inteira amanhã. Não queremos surpresas depois, não é? — Sim. É o certo. — Só me responde a minha dúvida? — Tá, vamos ver então. — Você desonrou a ragazza Vinícius? — os olhos dele não piscavam. Respirei fundo, o maxilar travado. — Não. Mas eu… — Pronto, Vini. Já respondeu. Não tenho interesse no resto — ele ajeitou o paletó. — Agora me diga: ela é de confiança? Maicon me contou que invadiu o jardim. Outros disseram que tentou fugir. Me aproximei um passo, a voz mais firme. — Papà, se ela é ou não, já não importa. Minha casa, minhas regras. Ela precisa entender que serei o Don. Eu mando. Ela obedece. Va bene? Um sorriso de canto surgiu no rosto dele. — Gosto da sua postura. É assim mesmo. Pense como homem, como Don. Coloque suas regras. Soltei o ar pesado. — Obrigado, papà. Ele pousou a mão no meu ombro, firme. — Só quero seu bem, bambino. Se me dá sua palavra que é seguro, é o que vale. Como Don, precisa saber que não é só sua vida que importa. Não é só sua família. Muitas cabeças dependem de ti. Precisa proteger toda uma geração. Estou confiando em sua palavra. — Vá bene, vou lembrar. Só isso, papà? — ergui a sobrancelha. Ele deu uma risada curta. — Não. Hoje você não dorme com ela. Temos uma palavra a zelar. Amanhã é o casamento. Aí sim poderá levá-la para sua casa. E assim que houver a consumação, faremos a festa de cerimônia formal. Ali será eleito como próximo Don. É preciso seguir algumas regras, capisce? Passei a mão no queixo, rindo de lado. — Va bene. Mas amanhã, ninguém segura essa ragazza de mim. Meu pai sorriu com orgulho, mas os olhos carregavam o peso da responsabilidade. — Isso eu quero ver, bambino. Isso eu quero ver.
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