Traição

1219 Words
Capítulo 12 Lucia Bianchi Não saí do lado dele por medo, simples assim, mas Vinícius não iria saber. Cada passo que ele dava, eu me grudava como se um puxão invisível me prendesse ao braço dele. Fora dos muros, qualquer Moretti podia estar escondido, pronto para puxar meu vestido e arrastar minha sorte de volta para o inferno. Perto do carro ouvi uma voz — grave, amanteigada, conhecida o suficiente para fazer meus músculos enrijecerem. Francesco. Um nó de pânico subiu pelo meu peito. Não deixei que minha mão tremesse; finjo firmeza melhor do que falo a verdade. Vinícius cumprimentou o homem com uma naturalidade perigosa enquanto eu me escondia no carro ao lado de Fabiana, com as mãos coladas ao tecido do assento, repetindo baixinho uma oração que não sei de cor, só sei o sentido: me proteja. Quando a porta bateu, ouvi Vinícius falar com sua mãe: — Souberam do meu casamento, mas avisei que será apenas para a famiglia. — Ele falou firme. Consegui respirar de novo. — Fez certo, meu filho. Saímos. Pensei que iríamos para a casa grande, mas o carro entrou numa rua diferente, numa via mais reservada. Uma casa menor, moderna; não tinha frescor de palácio, mas era linda. Soldados nas esquinas. — Onde estamos? — perguntei. — Bom, Vinícius mandou construir para morar com a esposa. Então bem vinda! — Fabiana sorriu. — Obrigada. — Mamma, ajude Lucia. Tenho coisas pra resolver, capisce? — Certo. Pode ir tranquilo Vini. Vinícius beija a mãe na testa com uma rapidez quase automática, depois volta-se para mim e, por impulso me afastei. No mesmo instante ele me puxou de volta para um beijo que me deixou boba. A boca dele é quente, segura. Por um segundo esqueci do Moretti, do vestido, do que planejava antes. Aquela sensação de chama dentro do peito me deixou atordoada e, ao mesmo tempo, aterrorizada — porque não sei identificar se é medo, desejo ou apenas autoengano. Fabiana começou a me mostrar a casa. Cada cômodo tinha um propósito: lá o almoço, aqui as reuniões íntimas, ali os retratos que não precisavam existir. Sua voz era prática. — Aqui você receberá convidados da famiglia. Aqui comandará os recibos da casa. Como esposa do futuro Don, você tem deveres. — Ela enumerou. Você só precisa ser fiel e tratar bem do marido. Trair é pedir a morte. Quando falou em traição, minha pele formigou. — Hm? — Traição é motivo de morte. — Fabiana deixou a frase pendurada no ar, como se esperasse que eu repetisse para gravar. — Relaxe, só estou dizendo o protocolo. Minha boca secou. Tentei sorrir. Eu jamais trairia, mas mentir que sou solteira causaria minha morte? Bom, ninguém iria saber. E então, minha mente me lembrou de uma coisa... Vinícius estava com outra no seu quarto, é curioso, eu perguntei o que mais queimava a minha língua. Porque passei por muita coisa, mas não fui traída. Pelo menos não, por mulher. Se fui traída por homem não tenho certeza. — Será que ele vai continuar fazendo sexo com as empregadas? — Saiu antes que eu pensasse duas vezes. Fabiana me olhou como quem avalia se devo ser instruída como criança ou avisada como rival. — Não, isso não aconteceu. — Ela começou, como se desfizesse um boato. — Ele anda pegando uma v***a na boate que eu sei, mas empregada não. — Ah... entendi. Então a Gracy é da boate... — Eu repeti o nome por mágica, tentando armazenar a informação como se fosse um talismã. Gracy... o nome parecia leve demais para a sujeira que eu já imaginava. Fabiana empalideceu por um segundo, irritada. — Gracy? A minha Gracy? Seja mais clara, bambina. O que está me dizendo? — Bom, eu entrei lá e ela estava quase nua, com a boca subindo e descendo do... Como se aquilo fosse uma traição ao orgulho da casa, Fabiana arregalou os olhos. — Santo Dio, pare. Eu vou matar aquela puttana! — a exclamação dela soou como um aviso e uma promessa. — Bem que desconfiei que era boazinha demais. Era só o que faltava. A ragazza sairá de lá hoje mesmo. Aprende comigo, Lucia. Agora você é a dona da casa, é você que manda. Se outra dessas aparecerem, coloca pra correr. — Tudo bem. Entendi. Então ele não... — Não. Prezamos sempre o casamento como sagrado. Se ele fizer depois de casado, pode complicar as coisas como Don. Então facilita a vida dele, ok? — Sim senhora. Enquanto Fabiana continuava a lista de deveres — visitas a organizar, como me portar frente à famiglia, as horas certas para sorrir — me peguei olhando para a janela, havia um gramado imenso e nenhuma flor. Certamente eu arrumaria isso. Quando a demonstração terminou, Fabiana foi embora e disse que voltaria amanhã. Me chamou para ficar em sua casa, mas gostei daqui. Não tenho nenhuma lembrança r**m desse lugar, talvez seja um recomeço. Ela me deixou sozinha — só eu e meu vestido, agora pendurado como sentença. Também tinha algumas roupas no quarto principal. Tomei banho sem pressa e me surpreendeu o cuidado das empregadas. Fazia tempo que eu não comia tão bem. Vinícius não voltou a aparecer. Mas agora não penso em sair daqui. Nem na casa onde cresci fiquei tão confortável. Anoiteceu. A casa parecia maior agora. Só que ter uma cama dessas só pra mim essa noite, era como um conto de fadas pra quem vinha dormindo no chão. Ao fugir não trouxe nada comigo. Assim que o dia clareou, fui acordada como uma rainha. Mulheres organizadas e uniformizadas me fizeram se sentir a melhor pessoa da face da terra. Se eu soubesse que seria assim antes, não teria dificultado para meu noivo. Meu ex fazia questão de me humilhar e me fazer cuidar até das empregadas se pudesse. Penso que sentia raiva de mim por não ser um homem completo. Me sentaram numa cadeira maravilhosa. Uma ragazza para meu cabelo, outra na minha pele do rosto. Haviam duas cuidando das unhas. Ganhei depilação, e até massagem. — Senhora Strondda, aqui está a lingerie nova que a senhora Fabiana enviou. Não tire a fitinha azul da peça branca. É tradição, como deve saber. — Tudo bem. Respirei mais leve. Eu nem precisei me vestir, fizeram isso por mim. Olhei no espelho e vi o vermelho do meu cabelo muito mais vivo com o produto que Fabiana enviou. Agora vi meu vestido com outros olhos... Nossa! É espetacular. — Está maravilhosa senhora. A máfia Strondda nunca recebeu uma dama com cabelo tingido de vermelho assim. Será um sucesso... — Uma delas disse e senti um frio na barriga. Será que no fim das contas eu tive a sorte que Fabiana me disse? Um carro se aproximou. Eram os pais do Vinícius. Antony entregou um buquê de rosas vermelhas para a esposa, coisa mais linda... Então ela veio até mim e me entregou. — Antony fez seu buquê. — É o mais lindo que já vi. Obrigada senhores. — Ah... Você é tão meiga e diferente das moças que Vinícius costuma andar. Agora entendi porque te escolheu. Boa sorte minha querida... — sorri, parecia um elogio, mas... — Com que tipo ele costuma andar, senhora? — Bobagem minha, ragazza. Bobagem. Agora vamos, que o casamento vai começar.
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