Quanto tempo

968 Words
Capítulo 17 Lucia Bianchi O silêncio do quarto parecia mais alto do que qualquer barulho. Eu ainda estava deitada, sem forças, observando Vinícius se levantar da cama. O sorriso dele não foi largo, mas o suficiente para me deixar sem ar. Ele olhou para o lençol e eu segui o olhar. O coração me deu um salto. A mancha vermelha estava ali, no lençol. Completamente notória. Eu também estava com marcas de sangue discretas. Engoli em seco, sem conseguir sustentar o olhar. Meus dedos se agarraram ao tecido do travesseiro, como se aquilo pudesse apagar a verdade escancarada diante dele. Que vergonha. — Dio… — murmurou baixinho, balançando a cabeça, quase divertido. — Eu não imaginava que era virgem. Talvez eu guarde esse lençol. Não disse mais nada. Foi até o banheiro, e antes de fechar a porta, virou-se com aquele ar que misturava arrogância, interesse e mais alguma coisa. — Vem comigo tomar um banho? — Eu… eu já vou, depois. — respondi rápido, inventando a primeira desculpa que me veio. — Preciso respirar um pouco sem olhar pra ele. Também não o queria olhando para cada cicatriz do meu corpo em plena luz do dia. Quando não está guiado pelo desejo. Ele ergueu a sobrancelha, mas não insistiu. Apenas entrou no banheiro, e o som da água logo tomou conta do ambiente. Fiquei sozinha. Peguei o sobre lençol e me enrolei nele como se fosse uma armadura contra todos os meus medos. Me escondi, mas, ao mesmo tempo, meus olhos não conseguiam parar de procurar por ele. Minutos depois, a porta abriu. Vinícius saiu de toalha na cintura, a pele ainda molhada. Meu corpo inteiro ardeu. Ele andava pelo quarto com naturalidade, como se não houvesse nada de extraordinário em exibir aquele corpo esculpido, firme, úmido… e livre. Logo a toalha voou para o lado quando ele começou a secar os cabelos. — Dio mio… — sussurrei baixo, quase engasgada, quando vi seu pênis balançando, imponente, cada passo dele um lembrete de que aquele homem tinha motivos de sobra para se mostrar. Ele não parecia notar minha perturbação. Ficou sério de repente, puxou uma cadeira junto da mesa do quarto e se sentou ali pelado. Pegou o celular, deslizando os dedos com rapidez. A expressão dura tomou o lugar do amante que, minutos antes, me tinha feito conhecer o paraíso. Digitava, respondia mensagens, enviava áudios secos, diretos: — Quero o carregamento no porto até amanhã de manhã. — pausa curta. — Não me interessa as desculpas, resolve. Engoli em seco, sentindo o calor no rosto aumentar. Era outro homem agora: o novo Don. Levantei quase fugida, escapando para o banheiro antes que ele notasse o quanto eu estava sem ar com aquela visão. A água quente escorria sobre mim, mas não levou embora o incômodo. Eu fechei os olhos e as lembranças da nossa primeira vez se repetiram em detalhes: as mãos dele, a boca, o jeito que meu corpo respondeu como se tivesse nascido só para isso. E foi aí que o peso voltou. O segredo. A mentira. Ele não merecia se casar com uma farsa. Não merecia dividir a cama com uma mulher que nem sequer carregava o nome que dizia carregar. O próprio Don casado com uma mulher casada? — Basta… — sussurrei para mim mesma, tentando me agarrar a qualquer pensamento que não fosse esse. — Desvia, Isabella. Desvia… Me sequei devagar, mas o meio das pernas doíam. O ardor entre as coxas era uma lembrança c***l de que o corpo tinha cedido ao desejo sem pensar nas consequências. Coloquei a mão na maçaneta para sair. Foi quando a voz dele do outro lado da parede me atravessou, firme, autoritária: — Agora estou ocupado. Conversamos mais tarde. Você é péssimo e ainda quer algum cargo? Eu só te pedi pra investigar a Lucia, mas agora já é minha esposa. O que quer que tenha descoberto pode esperar. Arregalei os olhos. Investigar…? Meu coração disparou. O ar sumiu do peito. Ele mandou alguém me investigar. Será que já descobriram alguma coisa? Será que já sabem que… eu não sou quem digo ser? A mente girava. O pânico veio tão forte que minhas mãos ficaram trêmulas. Abri a porta devagar, tentando não deixar o medo estampar meu rosto. Vinícius estava sentado ainda, mas agora desligava a chamada. Os olhos verdes encontraram os meus, e havia irritação neles. — O que foi? — perguntou direto. — Nada… — forcei um sorriso, que m*l consegui sustentar. — Está tudo bem. Ele ficou me observando, como se tentasse atravessar minha pele. Depois balançou a cabeça e avisou: — Se veste. Um dos meus homens está vindo aqui. Va bene? Um arrepio me tomou inteira. — Homem? — repeti, sentindo o sangue gelar. Será que era o mesmo da ligação? O que diria o que sabe sobre mim? Fui até a cama, tentando disfarçar a pressa. Minhas mãos se embolaram no lençol que precisava trocar, e, enquanto eu me enroscava, as perguntas escaparam sem que eu conseguisse controlar: — Pra… pra quê? O que ele vem fazer aqui? Não é tarde? — ri nervosa. Perguntando do cara — Não seria melhor amanhã? Vinícius ergueu o olhar, estreitando os olhos. — Está escondendo alguma coisa de mim, Lucia? — O quê? Não! — neguei tão rápido que minha própria voz soou suspeita. — Claro que não. Nessa hora, minha mão esbarrou no criado. A taça de vinho que estava ali tombou. — Ah, Dio! — soltei, desesperada, tentando impedir que o desastre fosse completo. Segurei o copo no ar antes que caísse e se espatifasse no chão. O silêncio que seguiu foi ainda pior do que se tivesse quebrado. Segurei a taça junto ao peito, o coração batendo descompassado, e só consegui pensar: quanto tempo ainda até ele descobrir?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD