Datas

1724 Words
Capítulo 18 Vinícius Strondda A campainha tocou. Nem olhei para a porta; apenas destravei pelo painel, mãos ainda úmidas do banho. O soldado entrou sem barulho — passo treinado, que sabe pesar pouco no chão. Postura alinhada, olhar baixo. Como deve ser. — Feche a porta. — indiquei com o queixo. Ele obedeceu e ficou a dois passos de mim, a pasta de couro apertada contra o peito. E a casa tinha um rastro tênue do perfume de Lucia que pairava no ar. Eu preferi ignorar. — Fale. O que seria tão importante pra vir hoje? — Don… — ele pigarreou, contendo a ansiedade — revisamos tudo o que conseguimos em vinte e quatro horas. O básico bate: altura, tipo sanguíneo, histórico escolar recente. Mas… — abriu a pasta e puxou a primeira folha — há uma inconsistência. Estendi a mão; o papel pousou sem tremor. Reconheci o timbre do cartório italiano de San Nicola, um selo antigo e as anotações manuscritas com tinta azul. Embaixo, grampeado, um registro suíço mais recente, digitalizado. — Qual? — Data de nascimento. Um registro diz quinze. O outro, dezesseis. Meses e ano iguais. Um dígito. Pode ser erro de transcrição, mas... Meu olho percorreu as linhas de novo. Um dígito é pouca coisa para quem vive de burocracia. Para mim, não existe “pouca coisa”. — Onde você puxou o primeiro? — Certidão antiga, cópia do comune. O outro é revalidação em cartório suíço, feito em Lugano quando ela esteve por aqui. — “Ela”? — ergui o olhar e deixei a palavra pesar. — Como você se refere à minha esposa? — A… signora Strondda. — Ele corrigiu, com pressa. — Melhor. — Passei o dedo devagar sobre o número “16”. — Quem assinou a revalidação? — Um tabelião em Lugano. Temos um contato indo lá agora confirmar livro e folha. — Confirma pessoalmente. Nada de telefonema. — Fiz uma pausa. — E verifique hospital e paróquia em San Nicola. Se nasceu de madrugada, pode ter dado erro no lançamento do dia. Eu quero a certidão batismal se existir. E o livro físico — página fotografada. Sem fotos de celular borradas. — Sim, Don. Ele ainda não tinha percebido, mas a minha cabeça já estava três quadras à frente, montando trilhas. Um dígito. O tipo de “sorte” que os mentirosos chamam de detalhe. Um sussurro de tecido atrás de mim avisou que o corredor tinha ganhado vida. Vi de canto de olho o robe branco deslizando. Lucia passou pela lateral do quarto, o rosto ainda levemente corado do banho, os cabelos úmidos em mechas na clavícula. O soldado, i****a por um instante, deixou o instinto levantar o olhar antes de derrubá-lo ao chão. Bastou. — Fuori. — Minha voz saiu funda, cortando a sala. O homem congelou. — Se ousar levantar os olhos para a minha mulher mais uma vez, eu arranco os seus e faço você me entregar a própria pasta guiado por bengala. Entendeu? — Sim, Don. — A nuca dele suou na hora. Lucia parou, surpresa, e esse “surpresa” era o que mais me irritava: como se ela não soubesse que pertence ao meu círculo, e no meu círculo os olhos alheios pesam caro. Ela se recompôs, engoliu seco e sumiu na direção da cozinha. Eu voltei ao papel, de propósito, como quem guarda a faca antes de cravar. — Continue. Procedência, pais, registros de escola, qualquer lacuna. — Há uma mudança brusca de endereço entre dois anos — ele disse, abrindo outra folha. — Da Itália para o Cantão do Ticino, por poucos meses, antes de surgir a matrícula em Milão. Mas não achamos histórico do colégio no Ticino — o arquivo foi desativado. Pode ser por reorganização administrativa; o arquivo local foi realocado, segundo o funcionário. — Nada de “pode ser”. — Olhei para o relógio. — Ache alguém que trabalhou lá naquele ano. Zelador, secretária, faxineira. E me traga o nome completo do homem que disse “arquivo realocado”. Eu vou decidir se ele diz a verdade. Ele assentiu. Eu abri a boca para perguntar do sobrenome materno quando Lucia voltou, silenciosa, como brisa antes do tiro. Trazia uma bandeja, duas taças de vidro com água e gelo. O robe amarrado com nó torto, as mãos firmes, mas não completamente. Ela pousou um copo à minha direita, outro diante do soldado. A água mexeu, o gelo tilintou. Eu segurei o pulso dela no ar, sem força desnecessária; não queria machucar, queria educar. — Não precisa servir homem nenhum além de mim — falei baixo, sem tirar os olhos dela. — Entendeu? O que brilhou nos olhos dela não foi medo. Foi orgulho ferido. Ela assentiu devagar, soltando o copo com um cuidado quase insolente. O cristal tocou a madeira sem som. Virou-se e saiu, postura ereta. O nó do robe ainda torto. Mesmo depois de vazia a minha mão; a pele dela ficou no meu dedo como marca quente. — Voltando. — Indiquei a pasta. — Sobrenome materno? — Cruzado em três fontes. Bate. Mas… — ele vacilou. Eu não gosto de reticências. — Fale. — Uma tia… desaparece dos registros. Era presença constante nos documentos italianos, some nos registros suíços. Nem óbito, nem casamento, nada. Pode ser só mudança de nome. Meu maxilar apertou. — Localize. — Joguei outra ordem, limpa. — E não traga “talvez”. Traga a mulher ou a resposta disso Ele respirou fundo, juntou os papéis com cuidado e recuou um passo, esperando a dispensa. Antes que eu o liberasse, um estalo leve de copo contra a pia veio do corredor. Não foi alto. Para mim, bastou. — Pode ir. — Eu disse, enfim. — Futuro Don. — Ele curvou a cabeça e saiu, arrastando quase nada a sola, como aprendeu. Fiquei de costas para a porta aberta por uns bons dez segundos, ouvindo a casa respirar. A bandeja de Lucia ainda devia estar sobre a bancada. Então fechei a pasta, coloquei o papel do “16” por cima, bem visível, e caminhei até a poltrona, sentando devagar. Contei até três. A portinha da curiosidade sempre abre no “dois” para quem tem segredo. A maçaneta girou, um quase nada que um distraído nem ouviria. A porta cedeu um palmo, depois mais um. Lucia entrou de lado, como quem pede desculpa ao corredor. Não me olhou primeiro — olhou o tampo da cômoda, como se procurasse um brinco inexistente. — Perdeu alguma coisa? — Minha voz cortou suave. Ela sobressaltou um milímetro, só o bastante para denunciar os nervos. Virou-se com um sorriso pequeno, ensaiado. — É... achei que tinha deixado um brinco… — apontou para a madeira lisa, vazia. — Não tinha brinco nenhum. — Inclinei-me na poltrona, cotovelos nos braços. — O que você ouviu? Os olhos castanhos arregalaram o necessário, como se a própria pergunta fosse uma acusação injusta. — Eu? Nada. Só trouxe água e… — Ela engoliu. — E achei que… — Você quer mentir pra mim sem treino, Lucia? — interrompi, abrindo um sorriso sem dentes. — É isso? Ela calou. Recuou meio passo sem sair do lugar. O robe fez um ruído de algodão cansado. A pulsação no pescoço dela era um tambor acelerado; dava para ver. A pele, ainda quente do banho, cheirava a flores e a algum medo que ela acreditava esconder. Levantei. Cada passo foi calculado para não fazer barulho; prefiro o peso da quietude. Cheguei perto o suficiente para ver o brilho molhado alinhando os cílios. Encostei a mão na parede, atrás da cabeça dela, aprisionando sem tocar. O que eu precisava era da verdade, e a verdade costuma vir pelo ar, não pela força. — Está escondendo alguma coisa. — A frase não veio como acusação; veio como constatação. — E eu vou descobrir o quê. — Vinícius… — a voz dela quase falhou. — Eu… eu tenho vergonha, só isso. — Olhou para o lençol que guardei sobre um armário. — Da mancha no lençol eu não tenho vergonha nenhuma — retruquei, baixo. — Eu guardo, se quiser. — Inclinei o rosto, rente ao ouvido. — Vergonha não faz você voltar duas vezes à mesma porta quando eu mandei sair. Ela inspirou curto. O corpo respondeu primeiro que as palavras; o queixo ergueu um grau, como quem decide em qual mentira apostar. — Eu só fiquei… nervosa. Gente diferente, não sei como me portar. Como nova dona da casa, talvez devesse ser boa anfitriã. A desculpa era boa. Não boa o bastante. A ponta dos meus dedos roçou a faixa do robe, ajustando o nó torto, como quem arruma uma gravata m*l feita. — Não testei você ainda, por isso. — Testar…? — sussurrou. — Vou apresentar você amanhã à noite — soltei, como quem não muda de assunto, mas abre um buraco sob os pés alheios. — Jantar pequeno com a famiglia. Você vai sorrir onde eu mandar e calar quando eu olhar. E não vai passar perto de soldado nenhum de novo. Va bene? Ela assentiu rápido demais. — E quanto ao… — hesitou — quanto ao que ele trouxe? Sorri. Minha mão fechou devagar sobre a faixa do robe, puxando apenas o suficiente para ela sentir que eu poderia desfazê-lo em um gesto. — Ao que ele trouxe, eu cuido. — Fiz uma pausa, olhos presos nos dela. — E o que você está tentando esconder, eu descubro. Com ou sem ajuda de papel timbrado. Soltei a faixa, um toque só, e recuei um passo. Estiquei o braço, peguei o papel por cima da pasta e mostrei a ela o “16” impresso, sem explicar, sem perguntar. O olhar dela caiu sobre o número e, por um segundo, sumiu a cor do rosto. A mão esquerda procurou apoio na própria cintura, quase invisível. — Durma — ordenei, dobrando o papel e guardando no bolso do blazer. — Amanhã você vai precisar de energia. Acordo sempre bem disposto. Virei as costas antes que ela respirasse de novo. Fui até a janela, abri a cortina dois dedos. No vidro, meu reflexo devolveu um homem que não perdoa detalhes. Se ela pensava que podia enganar um Strondda, estava jogando com fogo. E eu sempre fui o homem que acende o fósforo.
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