Capítulo 20
Vinícius Strondda
A respiração dela finalmente se acalmou. Os cílios repousados contra a pele pálida denunciavam o sono pesado, arrancado à força pelo cansaço e pela dor. Eu fiquei parado por alguns minutos, só observando.
Mas não sou ingênuo. A ameaça já tinha batido à porta. E sei que tem alguma coisa que Lucia não me contou.
Levantei devagar. No corredor ainda havia um rastro de sangue que me queimava a memória. Abaixei-me, recolhi a vassoura e a pá que estavam atrás da cozinha e voltei à sala.
Comecei a varrer os cacos em silêncio, e cada estalo contra a pá me lembrava a forma como ela gritou. Cada pedaço de vidro era uma acusação contra a minha fúria. Eu, que jurei protegê-la, fui o primeiro a feri-la.
Quando o último caco sumiu do chão, tirei o celular do bolso. O brilho da tela iluminou meu rosto cansado. Abri a conversa com o Consigliere e escrevi:
— Esteja aqui de manhã. Alguém está me enviando mensagem e preciso que descubra quem é. Seu papà viu do que se tratava, acho que é o mesmo número.
A resposta de João Miguel, filho do tio Maicon, não demorou.
— Tá bom. Já vou começar a pesquisar possibilidades.
Suspirei fundo.
— Obrigado, João Miguel.
Guardei o aparelho, mas o olhar caiu sobre o lençol manchado de sangue sobre o armário. O tecido claro trazia a prova da dor dela, e, ao mesmo tempo, um símbolo que ninguém ousaria questionar.
Peguei o telefone de novo. O toque ecoou três vezes antes da voz grave do meu pai surgir do outro lado.
— Mas já sentiu saudades, bambino...
— Papà. — minha voz saiu firme. — Já pode fazer a cerimônia. O casamento está consumado.
Houve silêncio, depois um riso rouco que eu conhecia bem.
— Bravo, bambino. — disse Don Antony, cada sílaba cheia de aprovação. — Eu sabia que não me decepcionaria.
Fechei os olhos, respirando orgulhoso. Mas não parei.
— Vou fazer a apresentação do lençol com a mancha.
Do outro lado, ouvi o pigarro dele, como se buscasse paciência.
— Não precisa disso. Já aboli essa tradição. A minha palavra basta. E sua palavra deve bastar. Entenda, como Don é você que manda, capisce?
Apertei o lençol nas mãos, o cheiro de sangue subindo.
— Eu não gosto de ser como os outros papà. E não venha me falar que gosta, porque sei que não. O senhor não mostrou o lençol quando era obrigatório. Agora que está livre, quero mostrar. Eu gosto assim, papà. Gosto de fazer diferente.
O silêncio dele pesou antes de ceder:
— Va bene, bambino…
Trinquei o maxilar.
— Papà… — quase questionei o “bambino”, mas deixei escapar. Não era hora.
Olhei novamente para o tecido manchado, imaginando a cara de cada homem da família ao vê-lo. Não era apenas um símbolo de honra, até porque se ela não fosse virgem, não ligaria — mas já que é, esse era o meu aviso: Lucia é minha, e qualquer um que ousar se aproximar, terá o mesmo destino da minha ex.
— Papà… como costumavam apresentar esse lençol na época do nonno Pablo?
O riso de papà voltou, baixo, carregado de memória.
— Ah… naquela época se fazia em praça fechada, ou dentro do reduto com membros do conselho. Acredita que tinham infelizes que ficavam na casa de meu papà, esperando o lençol? Apenas os da famíglia viam. O lençol era estendido diante da mesa de vinhos e todos brindavam. Era um ato de poder, mais do que de tradição. Pablo dizia que sangue e vinho eram a mesma coisa: ambos selam alianças. Só que ele também foi bem discreto quanto a isso. Não lembro de ter jogado sobre a mesa.
Fechei os olhos, deixando a imagem tomar forma na minha mente. A mesa era ideal.
— Entendi. — murmurei. — Então será assim.
— Amanhã será o jantar de apresentação de sua esposa a famiglia e depois de amanhã faremos a cerimônia de posse. Será eleito o novo Don da Strondda. Enviarei João Miguel a ti bambino.
— Obrigado papà. Irei honrar esse cargo tão importante.
— Fico feliz que escolheu uma boa esposa. Sem manchas e alguém que você goste. Tem um futuro brilhante pela frente.
— Que Dio te ouça papà.
— Ele sempre ouve, bambino. Sempre ouve. Agora vá. Tua esposa está esperando, hm.
— Ok. Buona Notte papà.
— Buona Notte bambino... — não adianta. Eu não cresci pra ele. Não posso magoar meu papà.
Desliguei o telefone e fiquei em silêncio, olhando para o corredor escuro. O som leve da respiração de Lucia me chamava de volta, mas a fúria dentro de mim já tinha escolhido um caminho.
Se ousaram me mandar aquele vídeo, se ousaram me provocar com o passado, não entendem ainda quem eu sou.
Vou mostrar a todos.
Enviei uma resposta a quem me enviou o vídeo:
— Grazie. Liberaste-me deste fardello. Logo, farai companhia a lei sua — ao lado do diavolo — e ninguém chorará por você.