Mostrar o lençol

845 Words
Capítulo 20 Vinícius Strondda A respiração dela finalmente se acalmou. Os cílios repousados contra a pele pálida denunciavam o sono pesado, arrancado à força pelo cansaço e pela dor. Eu fiquei parado por alguns minutos, só observando. Mas não sou ingênuo. A ameaça já tinha batido à porta. E sei que tem alguma coisa que Lucia não me contou. Levantei devagar. No corredor ainda havia um rastro de sangue que me queimava a memória. Abaixei-me, recolhi a vassoura e a pá que estavam atrás da cozinha e voltei à sala. Comecei a varrer os cacos em silêncio, e cada estalo contra a pá me lembrava a forma como ela gritou. Cada pedaço de vidro era uma acusação contra a minha fúria. Eu, que jurei protegê-la, fui o primeiro a feri-la. Quando o último caco sumiu do chão, tirei o celular do bolso. O brilho da tela iluminou meu rosto cansado. Abri a conversa com o Consigliere e escrevi: — Esteja aqui de manhã. Alguém está me enviando mensagem e preciso que descubra quem é. Seu papà viu do que se tratava, acho que é o mesmo número. A resposta de João Miguel, filho do tio Maicon, não demorou. — Tá bom. Já vou começar a pesquisar possibilidades. Suspirei fundo. — Obrigado, João Miguel. Guardei o aparelho, mas o olhar caiu sobre o lençol manchado de sangue sobre o armário. O tecido claro trazia a prova da dor dela, e, ao mesmo tempo, um símbolo que ninguém ousaria questionar. Peguei o telefone de novo. O toque ecoou três vezes antes da voz grave do meu pai surgir do outro lado. — Mas já sentiu saudades, bambino... — Papà. — minha voz saiu firme. — Já pode fazer a cerimônia. O casamento está consumado. Houve silêncio, depois um riso rouco que eu conhecia bem. — Bravo, bambino. — disse Don Antony, cada sílaba cheia de aprovação. — Eu sabia que não me decepcionaria. Fechei os olhos, respirando orgulhoso. Mas não parei. — Vou fazer a apresentação do lençol com a mancha. Do outro lado, ouvi o pigarro dele, como se buscasse paciência. — Não precisa disso. Já aboli essa tradição. A minha palavra basta. E sua palavra deve bastar. Entenda, como Don é você que manda, capisce? Apertei o lençol nas mãos, o cheiro de sangue subindo. — Eu não gosto de ser como os outros papà. E não venha me falar que gosta, porque sei que não. O senhor não mostrou o lençol quando era obrigatório. Agora que está livre, quero mostrar. Eu gosto assim, papà. Gosto de fazer diferente. O silêncio dele pesou antes de ceder: — Va bene, bambino… Trinquei o maxilar. — Papà… — quase questionei o “bambino”, mas deixei escapar. Não era hora. Olhei novamente para o tecido manchado, imaginando a cara de cada homem da família ao vê-lo. Não era apenas um símbolo de honra, até porque se ela não fosse virgem, não ligaria — mas já que é, esse era o meu aviso: Lucia é minha, e qualquer um que ousar se aproximar, terá o mesmo destino da minha ex. — Papà… como costumavam apresentar esse lençol na época do nonno Pablo? O riso de papà voltou, baixo, carregado de memória. — Ah… naquela época se fazia em praça fechada, ou dentro do reduto com membros do conselho. Acredita que tinham infelizes que ficavam na casa de meu papà, esperando o lençol? Apenas os da famíglia viam. O lençol era estendido diante da mesa de vinhos e todos brindavam. Era um ato de poder, mais do que de tradição. Pablo dizia que sangue e vinho eram a mesma coisa: ambos selam alianças. Só que ele também foi bem discreto quanto a isso. Não lembro de ter jogado sobre a mesa. Fechei os olhos, deixando a imagem tomar forma na minha mente. A mesa era ideal. — Entendi. — murmurei. — Então será assim. — Amanhã será o jantar de apresentação de sua esposa a famiglia e depois de amanhã faremos a cerimônia de posse. Será eleito o novo Don da Strondda. Enviarei João Miguel a ti bambino. — Obrigado papà. Irei honrar esse cargo tão importante. — Fico feliz que escolheu uma boa esposa. Sem manchas e alguém que você goste. Tem um futuro brilhante pela frente. — Que Dio te ouça papà. — Ele sempre ouve, bambino. Sempre ouve. Agora vá. Tua esposa está esperando, hm. — Ok. Buona Notte papà. — Buona Notte bambino... — não adianta. Eu não cresci pra ele. Não posso magoar meu papà. Desliguei o telefone e fiquei em silêncio, olhando para o corredor escuro. O som leve da respiração de Lucia me chamava de volta, mas a fúria dentro de mim já tinha escolhido um caminho. Se ousaram me mandar aquele vídeo, se ousaram me provocar com o passado, não entendem ainda quem eu sou. Vou mostrar a todos. Enviei uma resposta a quem me enviou o vídeo: — Grazie. Liberaste-me deste fardello. Logo, farai companhia a lei sua — ao lado do diavolo — e ninguém chorará por você.
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