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O MONSTRO E A PSICÓLOGA

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Blurb

Noah Ferraz é o sinônimo do medo. O homem que controla o morro com mãos de ferro e derrama sangue nas jaulas de um octógono clandestino. Ele vive no limite do próprio caos, mas um ataque de fúria quase fatal nos ringues o coloca diante de um ultimato: ou ele aceita o tratamento psicológico, ou será banido do único lugar onde descarrega seus demônios.

Olívia Villar é o oposto de tudo o que ele conhece. Brilhante, controlada e perigosamente corajosa, ela é a única psicóloga disposta a encarar a mente perturbada de Noah. Para ela, ele não é uma ameaça; é apenas um paciente que precisa de limites.

Esse é o erro fatal de Olívia.

O que começa com sessões de terapia obrigatórias logo se transforma em um jogo de poder doentio. Noah não conhece o meio-termo. Ele não sabe desejar pouco. E, a partir do momento em que fixa os olhos em Olívia, as regras do consultório deixam de existir. Ela deixa de ser sua médica para se tornar sua maior obsessão.

Olívia achou que poderia entrar na mente do monstro e salvá-lo. Ela só não entendeu que monstros não aceitam cura. Eles exigem sacrifícios. E Noah está disposto a queimar o mundo inteiro, contanto que ela permaneça trancada com ele na escuridão.

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PRÓLOGO: O DONO DA POR.RA TODA
O cheiro de sangue, suor azedo e cerveja barata é o que me move nessa p***a. Tem quem precise de oxigênio pra respirar; eu só preciso do som de osso quebrando e do desespero nos olhos de um o****o que achou que podia bater de frente comigo. Pra grande massa que tá moscando no asfalto, pros playboys que sobem a favela pra buscar o do bom e pros vermes da polícia que tentam, sem sucesso, rastrear meus passos, eu sou o fantasma. O cara que manda e desmanda na Rocinha. O traficante mais temido, o terror dos canas, o mano que dita as leis na maior comunidade dessa p***a de Rio de Janeiro. Ninguém sabe meu rosto lá embaixo, ninguém vê minha cara nos jornais, porque quem vê, não vive pra contar a fofoca. Meu nome é um sussurro que faz vagabundo tremer as pernas e morder a língua pra não falar merda. Sou frio, sou violento pra c*****o, e não tenho um pingo de pena de quem atravessa meu caminho. A vida me ensinou que ou tu bate, ou tu apanha. E eu escolhi ser o cara que esmaga o crânio dos outros. Só que quando a lua bate no topo do morro e o plantão da boca tá fluindo na responsa dos meus soldados mais fiéis, eu mudo de pele. Deixo o fuzil de lado por algumas horas. O asfalto e a favela pensam que eu tô dormindo, que tô escondido em alguma mansão na crista da comunidade curtindo o luxo do dinheiro sujo. Puro kô. Eu desço pro inferno. O octógono clandestino da Lona Preta é o meu verdadeiro santuário de sangue. Um galpão abandonado na zona portuária, caindo aos pedaços, cimentado com a desgraça de quem aposta o que não tem. Ali, ninguém me chama de Noah Ferraz. Ali, eu não sou o chefe do tráfico. Ninguém nem sonha que o cara que tá destruindo vidas dentro daquela jaula de ferro é o mesmo que comanda as bocas de fumo que abastecem metade do estado. Ali, eu sou o Monstro. Uma lenda viva das lutas ilegais, o cara que nunca perdeu uma p***a de um round. Eu tava de pé, encostado nas grades de ferro enferrujadas da jaula, terminando de enrolar a faixa branca nas minhas mãos. Minhas mãos já tavam calejadas, grossas, marcas de anos socando parede, dentes e costelas. O barulho em volta era ensurdecedor. Uma horda de lunáticos, viciados em adrenalina, apostadores cheios de grana e piranhas de luxo gritando, balançando notas de cem reais pro alto, sedentos por ver a covardia acontecer. O ar ali dentro era pesado, quente pra c*****o, uma mistura de fumaça de maconha com o bafo de cachaça da plateia. — Dá o papo, Monstro! Vai quebrar o maluco em quantos pedaços hoje? — um dos organizadores da banca de apostas, um magrelo com os dentes podres e cara de rato, gritou perto de mim, babando de empolgação. Eu nem olhei na cara do infeliz. Só dei um puxão forte na faixa, travando o nó no meu pulso com os dentes. Minha mente tava focada no erro que ia acontecer ali dentro. Olhei pro outro lado do octógono e vi o meu adversário da noite. Um brutamontes que os caras trouxeram de fora, um tal de "Trator". O bicho tinha quase dois metros de altura, uma montanha de músculos cheia de tatuagem barata, bombado até os dentes com suco de testosterona. O cara tava pulando de um lado pro outro, dando soco no ar, fazendo pose pra torcida e me encarando com um sorriso de deboche que me deu até azia. Otário. Ele achava que tamanho era documento na Lona Preta. Ele achava que tava entrando num ringue de MMA com juiz, regrinha de três minutos e médico pra parar a luta se o nariz sangrar. m*l sabia o coitado que ali dentro a única regra era sair vivo, e eu não tava com a menor paciência de deixar ele respirar por muito tempo. — Entra na jaula, p***a! — o locutor gordo e careca berrou no microfone rachado, fazendo a caixa de som chiar. — De um lado, a máquina de matar que veio direto do inferno pra reinar na Lona Preta... O MONSTRO! A plateia veio abaixo. Os caras batiam nas grades, chutavam os galões de ferro, uma gritaria do c*****o. Eu caminhei devagar, pisando descalço no chão de lona sujo de marcas de combates passados. Cada passo meu era calmo. O verdadeiro psicopata não corre atrás da presa; ele sabe que ela não tem pra onde fugir. Quando entrei na jaula, o Trator veio logo pro meio, colando o peito dele no meu, tentando me intimidar na marra. O bafo do cara fedia a energético e arrogância. — Vou arrancar essa tua máscara de marrento, ô comédia — o bicho rosnou na minha cara, testando minha postura. — Tu é lenda até trombar com o bonde certo. Hoje tu cai. Eu continuei estático. Meus olhos tavam fixos nos dele, frios como o gelo, vazios de qualquer humanidade. Eu não sinto raiva nessa hora. A raiva te faz errar o soco. Eu sinto um vazio absoluto, uma vontade doentia de provar pro mundo que ninguém, absolutamente ninguém, é mais forte que a minha vontade de destruir. Não falei uma palavra. Só dei um meio sorriso, o tipo de sorriso que faz o coveiro preparar a cova. O gongo soou. Uma chapa de ferro batendo contra a outra. Fudeu pra ele. O Trator veio com tudo, parecendo um touro bravo, soltando um cruzado de direita que passou raspando na minha orelha. O vento do soco foi forte, admito. Mas eu me esquivei com a facilidade de quem tá dançando. Dei um passo pro lado, abaixei o tronco e vi a guarda dele escancarada. Eu podia ter acabado com a luta ali, com um direto bem no queixo, mas qual seria a graça? Eu gosto do processo. Gosto de ver a esperança do cara sumindo aos poucos, saca? Ele tentou me acertar de novo, um chute baixo na minha coxa. Eu absorvi o impacto sem nem piscar, a perna dura feito concreto. No contra-ataque, soltei meu primeiro golpe: um soco seco, com o esquerdo, direto na boca do estômago dele. O som foi de um saco de areia estourando. O Trator perdeu o ar na hora. O sorriso dele sumiu, e os olhos saltaram pra fora enquanto ele dobrava o corpo. — É só isso? — sussurrei perto do ouvido dele, antes de segurar a nuca do maluco com as duas mãos enfaixadas e desferir uma joelhada brutal bem no meio do nariz dele. O osso quebrou na mesma hora. Um chafariz de sangue quente espirrou no meu peito nu. O cara deu dois passos pra trás, cambaleando, com a mão na cara, o sangue escorrendo por entre os dedos dele. A plateia tava ensandecida, o galpão parecia que ia desabar com os gritos. Os caras queriam ver sangue, e eu sou o melhor fornecedor dessa p***a de mercado. — Vamos lá, Trator! Levanta essa p***a! Reage, c*****o! — os apostadores dele gritavam, desesperados com o dinheiro que tavam perdendo. O maluco, num ato de puro desespero e puro instinto de sobrevivência, tentou se jogar nas minhas pernas pra me derrubar e levar a luta pro chão. Ele conseguiu me encurralar contra a grade. Senti o ferro frio cortando minhas costas enquanto ele empurrava o peso dele contra mim, tentando me sufocar. — Eu vou te matar... seu puto... — ele gemia, tentando achar apoio. Minha paciência zerou ali. O instinto de bicho r**m falou mais alto. Eu apoiei minhas mãos na grade atrás de mim, peguei impulso e desferi uma cotovelada violenta de cima para baixo, bem no topo do crânio dele. Uma, duas, três vezes. Na terceira, o corpo dele fraquejou. Eu aproveitei a brecha, mudei a posição e joguei o bicho de costas no chão da lona. Aí o bagulho virou covardia de verdade. O sadismo tomou conta da minha mente. Eu montei em cima do peito dele, travando os braços dele com os meus joelhos. O cara tava imobilizado, com o rosto já desfigurado, sangrando por todos os buracos possíveis, me olhando com um terror que eu conheço muito bem. É o mesmo olhar dos caras que tentam roubar minha carga no morro antes de eu meter uma bala na testa deles. É o olhar de quem sabe que encontrou o fim da linha. — Piedade... — ele tentou balbuciar, a voz saindo frouxa por causa do sangue que tava engolindo. — Na Lona Preta não tem essa palavra, ô comédia — respondi, a voz saindo grossa, arrastada, totalmente sem alma. Comecei o ground and pound. Socos alternados, sem parar, sem dar tempo do cara respirar. Direita, esquerda, direita, esquerda. Cada golpe meu entrava como uma marreta de ferro na cara dele. O som dos meus punhos batendo contra a carne dele ecoava pelo galpão, abafando até os gritos da torcida que, aos poucos, foi ficando quieta, chocada com o nível de brutalidade que tava rolando. O sangue dele já tinha empapado minhas faixas brancas, que agora tavam totalmente vermelhas. Minha cara tava respingada de sangue alheio. Eu não sentia cansaço, não sentia dor nas mãos, não sentia nada a não ser uma fúria cega, um t***o doentio pelo estrago. O Trator já não se mexia mais, os braços tavam largados no chão, os olhos virados pra trás, mas eu não conseguia parar. Era como se um demônio tivesse assumido o controle dos meus músculos. Eu queria apagar a existência dele dali. Queria quebrar cada dente, afundar o osso da bochecha, fazer o cara virar poeira. — Monstro! Para! Cara, para, ele já tá apagado! Vai matar o maluco! — o árbitro da luta, um cara que costuma ser casca-grossa, tentou segurar meu ombro, mas o medo na voz dele era nítido. Eu dei uma cotovelada pra trás sem nem olhar, acertando o peito do juiz, que voou longe e caiu sentado perto da grade. Ninguém mandou se meter na minha fome. Voltei a descarregar meus punhos no rosto do Trator. O som mudou. Não era mais som de soco na carne; era som de osso esmagado, o rosto do cara tava virando uma poça disforme. A galera do galpão começou a dar passos pra trás, o clima de festa sumiu, virando um silêncio tenso, de puro pavor. Os caras tavam vendo um assassinato ao vivo, sem filtro, na frente deles. Eu ia terminar o serviço. Ia meter o soco final pra afundar o osso frontal do crânio dele de vez. Foi quando quatro caras da segurança da Lona Preta, todos armados e grandes pra c*****o, pularam dentro da jaula e se jogaram em cima de mim. — Segura ele! Segura esse psicopata! Ele tá fora de si! — berrava o dono da banca, o cara que gerenciava as lutas, com a cara pálida. Eu lutei contra eles, joguei dois pro lado com a força do ódio, tentei morder, quebrar, mas os caras conseguiram travar meus braços por trás e me arrastar pra longe do corpo estirado do Trator. Eu tava bufando, o peito subindo e descendo, a boca aberta, os dentes sujos de sangue, travado na adrenalina pura. Olhei pro chão e vi o estrago. O Trator tava tendo uma convulsão, o corpo tremendo todo, um som horrível saindo da garganta dele, com o rosto totalmente destruído. O chão em volta parecia uma cena de filme de terror. — Tu tá maluco, Monstro?! — o dono do evento veio na minha direção, mas mantendo uma distância segura, com as mãos levantadas. — O cara quase morreu aqui dentro! O campeonato é clandestino, mas a gente não quer o BO de um cadáver aqui dentro com a polícia batendo na nossa porta! Tu passou dos limites, p***a! Essa merda não é um abatedouro! — Me solta, c*****o! — gritei, dando um solavanco que fez os seguranças cambalearem. — Se o comédia entrou aqui sabendo do risco, o problema é dele. Se morrer, enterra no quintal. — Não é assim que a banda toca, Noah... quer dizer, Monstro — o cara se corrigiu rápido, limpando o suor da testa. — Tu é a nossa maior atração, o cara que traz mais grana pra essa p***a, mas tu tá descontrolado. O conselho do campeonato foi bem claro: ou tu se desintoxica dessa fúria doentia, ou tu tá fora do circuito. Não vou deixar tu lutar de novo pra transformar o octógono num necrotério. Eu dei uma risada escrota, irônica, cuspindo o sangue que tinha entrado na minha boca pro lado. — Tu tá me ameaçando, ô cuzão? Sabe com quem tá falando? — dei um passo pra frente, e os seguranças tencionaram o corpo, com as mãos nas pistolas sob as camisas. Eu sabia que se quisesse, estalava os dedos e meu bonde subia aquele galpão e metia bala em todo mundo ali, mas eu precisava manter o disfarce de lutador. O campeonato era a minha única válvula de escape pra não surtar de vez no morro. — Não tô te ameaçando, Monstro. Tô te dando um ultimato pro teu próprio bem e pro bem do nosso negócio — o cara falou, tentando manter a postura de empresário. — Tem um esquema. Uma condição pra tu voltar a lutar no próximo mês e disputar o cinturão de ouro. Tu vai ter que passar por uma avaliação. Um acompanhamento com uma profissional. Alguém de fora, que não sabe quem tu é no crime, só que tu é um lutador violento demais que precisa de um laudo pra voltar pro ringue. — Psicólogo? — perguntei, a palavra saindo da minha boca como se fosse um insulto. — Tu quer que eu sente num divã pra chorar as minhas mágoas com uma doutorzinha de bosta? Tá de s*******m com a minha cara? Eu não preciso de psicólogo, eu preciso de mais otários pra quebrar! — Ou é isso, ou a tua carreira na Lona Preta acabou hoje. Escolhe. Tu tem uma semana pra se apresentar no endereço que eu vou te mandar. Se o laudo dela disser que tu tá apto e equilibrado, tu volta. Se não, arruma outro lugar pra fazer teus massacres. Eu encarei o sujeito por longos segundos. O ódio queimava nas minhas veias, a vontade de meter a mão na cara dele era quase insuportável, mas eu precisava daquela p***a de octógono. Sem as lutas, a minha mente ia fritar na rotina de gerenciar a guerra do tráfico na Rocinha. O sangue precisava escorrer de um jeito ou de um outro. — Manda a p***a do endereço — rosnei, me soltando dos seguranças com um empurrão violento. — Mas já avisa pra essa infeliz preparar o caixão, porque eu não tenho paciência com quem tenta entrar na minha mente. Uma semana depois. Eu tava de pé no topo do morro, na laje da minha principal base de operações na Rocinha, olhando a vista da favela que parecia um mar de luzes na escuridão. O radinho na minha cintura não parava de chiar, os soldados reportando a movimentação dos acessos, o plantão do tráfico rodando a pleno vapor. Eu tava fumando um baseado, tentando aliviar a tensão que tinha ficado no meu corpo desde o dia da luta. O Trator não tinha morrido por pouco, o bicho tava num hospital público qualquer em coma induzido, com a cara cheia de placa de titânio. Eu não sentia remorso nenhum. Só sentia tédio. Dei a última bola no beck, joguei a ponta no chão e pisei em cima. Olhei pro relógio de ouro no meu pulso. Tava na hora daquela palhaçada de consulta obrigatória. Tirei a minha camisa de grife, peguei uma regata preta simples que cobria parte das minhas tatuagens, enfiei uma pistola Glock 9mm na minha cintura, por dentro da calça, cobrindo com o pano, e peguei a chave da minha moto XRE preta, sem placa. Eu ia pro asfalto. Ia pra um consultório de luxo num bairro nobre da Zona Sul, bem longe da realidade do morro. O contraste daquela merda sempre me irritava. A descida do morro foi rápida, cortando o trânsito com a moto, os meus crias só dando passagem e batendo no peito quando eu passava pelos acessos. Quando entrei nas ruas arborizadas e limpas do Leblon, parecia que eu tava mudando de planeta. Prédios espelhados, portarias com segurança de terno, madames passeando com cachorros que valiam mais que a vida de um vapor na boca de fumo. Uma verdadeira piada de mau gosto. Estacionei a moto na calçada, sem me importar se iam multar ou não. Tirei o capacete, passei a mão no meu cabelo curto e dei uma checada na pistola pra garantir que tava bem escondida. Entrei no prédio comercial de luxo, o ar condicionado do saguão me dando um arrepio na espinha. O recepcionista com cara de o****o me olhou de cima a baixo, vendo minhas cicatrizes e meus braços fortes, provavelmente achando que eu era um segurança ou um entregador. Azar o dele. Subi pelo elevador até o décimo andar, a música ambiente me irritando a cada segundo. Quando a porta do elevador abriu, achei a placa de vidro com as letras douradas: Dra. Olívia Villar — Psicologia Clínica e Comportamental. Abri a porta de vidro e entrei na recepção. O lugar fedia a lavanda, com paredes brancas, móveis de madeira clara e um silêncio que me incomodava profundamente. Parecia um hospital, só que gourmet. Não tinha ninguém na recepção além de uma secretária jovem que tava digitando no computador. — Noah Ferraz? — uma voz feminina, vinda de uma porta entreaberta no fundo, chamou meu nome. Não era uma voz irritante. Era uma voz calma. Calma demais pro meu gosto. O tipo de voz que parece que tá querendo te ninar, saca? Eu caminhei na direção da sala, empurrando a porta com o ombro, sem pedir licença. Entrei com a marra que eu tenho no morro, a postura ereta, os ombros largos, pronto pra assustar a doutora e fazer ela assinar aquela p***a de papel logo de uma vez pra eu ir embora. Minha tática era simples: intimidar na base do tamanho e do olhar feio, pegar o laudo e sumir. Só que quando meus olhos focaram na mulher sentada atrás da mesa de vidro, meu cérebro deu um nó de leve. Ela era... diferente do que eu imaginei. Achei que ia encontrar uma velha de óculos, com cara de professora de escola pública, ou uma dondoca nojenta que ia olhar pra mim com cara de nojo. Mas a Dra. Olívia Villar era uma parada totalmente fora da curva. Ela devia ter uns vinte e poucos anos, uma pele clara, cabelos castanhos longos e lisos que caíam pelos ombros, e um terno feminino azul-marinho bem alinhado que deixava ela com uma pose de mulher poderosa, de patroa. Mas o que me travou de verdade foram os olhos dela. Uns olhos castanhos expressivos, compridos, que fixaram em mim no exato momento em que pisei no tapete da sala. E o pior de tudo, o que me deixou puto de verdade: ela não piscou. Ela não desviou o olhar. Geralmente, quando um homem do meu tamanho, com a minha cara de bicho r**m e cheio de cicatriz de guerra entra num recinto, as pessoas abaixam a cabeça, desviam o rosto ou começam a suar frio. É o reflexo do medo. É o instinto de sobrevivência do ser humano comum. Mas aquela mulher continuou me olhando de frente, com uma serenidade que parecia um soco no meu estômago. — Boa tarde, Noah. Pode sentar — ela falou, indicando uma poltrona de couro preta que tava na frente da mesa dela. Ela deu um sorriso pequeno, cortês, sem demonstrar um pingo de hesitação. Eu caminhei devagar, analisando o terreno. Cruzei a sala e me joguei na poltrona de qualquer jeito, abrindo as pernas e encostando os braços no apoio, mantendo a minha postura de dono do mundo. Olhei em volta, fingindo desdém pelas prateleiras cheias de livros grossos de psicologia e pelos quadros de arte abstrata na parede. — Vamos adiantar esse bagulho, doutora — falei, a voz saindo grave, rústica, contrastando totalmente com a suavidade do ambiente. — Eu não tô aqui porque quero. O chefe do evento me mandou pra cá pra tu me dar um laudo dizendo que eu tô pronto pra quebrar mais dentes no ringue. Assina o papel aí, bota teu carimbo e eu sumo da tua frente pra não tomar teu tempo precioso. Olívia não mudou a expressão. Ela juntou as mãos em cima da mesa, entrelaçando os dedos, e continuou me fixando com aqueles olhos que pareciam que tavam lendo a minha alma através da minha pele. Aquilo tava me deixando incomodado pra c*****o. Ninguém me olha desse jeito. Ninguém. — As coisas não funcionam assim no meu consultório, Noah — ela respondeu, a voz mansa, mas com uma firmeza que me pegou de surpresa. — Eu recebi o relatório da Lona Preta. O que você fez com aquele rapaz na semana passada não foi uma luta. Foi uma tentativa de homicídio. Você continuou batendo mesmo depois dele estar inconsciente, agrediu o árbitro e precisou de quatro homens pra te conter. Meu papel aqui não é te dar um visto de saída rápido. Meu papel é entender o que acontece na sua cabeça pra você ter esse nível de sadismo e violência. — Sadismo é o c*****o — retruquei, me inclinando pra frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, ficando bem perto do rosto dela, tentando quebrar aquela pose de corajosa. — Ali dentro é o meu mundo. Quem entra na jaula sabe que pode sair num caixão de madeira. Se o maluco era fraco, a culpa não é minha. Eu sou pago pra destruir o que tá na minha frente. É isso que eu faço. É o que eu sou de verdade. — E fora do ringue? Quem é você, Noah? ela perguntou, sem recuar um milímetro sequer, mesmo com a minha proximidade que costuma fazer marmanjo chorar. — O relatório diz que você é um lutador de rua, sem histórico oficial de federação, que apareceu do nada e virou o principal nome do circuito clandestino. Mas você não tem cara de quem vive só de bolsa de aposta de luta de galpão. Seus olhos são de alguém que já viu muita morte, alguém que comanda, não que obedece. De onde vem toda essa frieza? A pergunta dela bateu na trave da minha realidade. Dei um sorriso de lado, um sorriso perigoso, sentindo a adrenalina voltar a circular no meu sangue. Essa mulher era corajosa demais. Ou era muito corajosa, ou era completamente maluca. Ela tava cutucando uma onça com uma vara extremamente curta. Se ela sonhasse que o cara sentado na poltrona dela era o Noah Ferraz que mandava picotar vagabundo no micro-ondas na Rocinha, ela ia sair correndo gritando por socorro. Mas ela tava ali, me encarando como se eu fosse só mais um paciente com problema de controle de raiva. — Tu faz pergunta demais, doutora — falei, abaixando o tom de voz, deixando o som bem ameaçador, quase um sussurro. — Tem certas coisas que é melhor tu não saber. Curiosidade mata, saca? Principalmente com gente do meu tipo. Tu devia ter medo de mim. Todo mundo tem. Por que tu tá me olhando desse jeito? Olívia soltou um suspiro leve, recostando-se na cadeira dela. Ela pegou uma caneta e anotou algo num bloco de notas, mantendo a postura impecável. — Porque eu vejo além da sua fachada de monstro, Noah — ela disse, olhando diretamente nos meus olhos de novo, com uma intensidade que me fez travar os dentes. — Eu já atendi criminosos, viciados, homens desesperados de todos os tipos. O medo é uma reação pra quem não entende o perigo. Eu entendo perfeitamente o perigo que você representa. Mas também sei que, por trás de toda essa violência gratuita, tem uma mente que tá tentando gritar por socorro, ou se esconder de algo muito pior. Você usa a dor dos outros pra preencher um vazio teu. E eu não vou assinar papel nenhum até a gente descobrir o que é esse vazio. Eu continuei olhando pra ela, a minha mente processando aquelas palavras. Uma mistura de ódio, incredulidade e... uma parada nova, que eu nunca tinha sentido por mulher nenhuma antes. Uma faísca de fascínio. Aquela mulher era calma demais. Corajosa demais. Ela não piscou pra mim. Ela me desafiou na minha própria cara, na base da palavra, sem precisar de uma arma na mão. Minha mão direita, por baixo da mesa, tencionou, os dedos roçando na coronha da Glock que tava na minha cintura. Eu podia acabar com aquela marra dela em dois segundos. Podia puxar o cano, meter na testa dela e ver o pavor finalmente tomar conta daquele rosto lindo. Mas, pela primeira vez na minha vida, eu não quis usar a violência física. Eu quis outra coisa. Eu quis quebrar aquela mente brilhante dela. Quis ver até onde ia aquela coragem toda. Quis entender que p***a de feitiço era aquele que ela tinha nos olhos que tava me deixando sem saber como reagir. Uma obsessão perigosa, escura e doentia começou a nascer no meu peito naquele exato momento. O monstro que habita em mim, o cara frio que não tem pena de ninguém, encontrou algo que ele queria de verdade. E homens como eu não sabem querer pouco. Quando eu boto o olho numa parada, aquilo passa a ser meu, por bem ou por m*l. Ela achava que tava entrando na minha mente pra me consertar, mas m*l sabia a Dra. Olívia Villar que ela tinha acabado de entrar na jaula de um bicho que nunca mais ia deixar ela ir embora. — Tu acha que sabe de tudo, né, doutora? — falei, me levantando da poltrona devagar, o tamanho do meu corpo parecendo ocupar a sala inteira. Olhei pra ela de cima, mantendo o sorriso sombrio nos lábios. — Beleza. Vamos fazer o teu joguinho. Tu quer sessão? A gente vai ter sessão. Mas eu te aviso de antemão: entra por tua conta e risco. Porque o que tem aqui dentro da minha cabeça... não é lugar pra uma mulher direita como tu passear. Olívia continuou me olhando de pé, com a mesma calma irritante e fascinante. — Te vejo na próxima semana no mesmo horário, Noah — ela respondeu, simplesmente. Dei as costas e caminhei até a porta. Quando segurei a maçaneta, olhei pra trás por cima do ombro. Ela já tava focada no bloco de notas dela, mas eu sabia que o jogo tinha começado. O dono da Rocinha, o Monstro da Lona Preta, tinha achado a sua nova presa. E eu ia saborear cada segundo daquela destruição mútua.

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