Capitulo 2 A SEMENTE DO M.AL E O BATISMO DE SANGUE

906 Words
Mas a história não começou com champanhe e ouro, não. Eu vim do lixo, do esgoto, da lama mais podre da parte baixa da favela, ali onde o córrego corre a céu aberto exalando carniça e a p***a da esperança morre engolida pela fome antes mesmo do trabalhador tomar o café da manhã com pão duro. Há dez anos, eu era só o Noah, um moleque fodido de chinelo de dedo arrebentado, sem eira nem beira, que passava o dia inteiro descarregando caminhão no mercado pra ganhar uma miséria e passava a noite esmurrando saco de areia no treino de Muay Thai. Eu achava, na minha total inocência de o****o, que os meus punhos e a minha disciplina no ringue iam ser a chave pra me tirar daquela miséria desgraçada e dar uma vida digna pra minha família. Naquele tempo, eu tinha a Maya. Minha irmãzinha caçula, de apenas 12 anos. O único motivo de eu ainda ter um pingo de humanidade e alma no meio daquela escuridão toda. A Maya era o sol brilhando no meio de um temporal de bosta. Uma menina estudiosa pra c*****o, meiga, que passava o dia com os livro rasgado debaixo do braço e vivia dizendo que ia ser enfermeira padrão pra cuidar dos doente do morro e não deixar ninguém morrer na fila do hospital do governo. Até que veio a noite maldita. Uma noite escura que mudou o meu destino pra sempre. Numa operação criminosa e sem mandado nenhum, o Bope entrou quebrando os portão, rasgando tudo o que via pela frente na base da covardia. Foi o puro suco de tiro, porrada e bomba pra cima de morador inocente que não tinha p***a nenhuma a ver com o kô do tráfico. Eu tava voltando de um bico cansativo de segurança de boate na Zona Sul, andando rápido pelas viela escura, quando ouvi a gritaria ecoando lá de baixo e o barulho ensurdecedor de tiroteio de calibre pesado. Corri no desespero, pegando os atalho tudo no toque, pulando muro, com o coração saindo pela boca de tanto pavor. Quando eu finalmente consegui embicar na nossa casinha humilde de um cômodo só, o teto de telha de amianto tava furado e o meu mundo desabou direto no inferno. A Maya junto com meus pais tava jogada no chão de cimento batido, o uniforme branco da escola pública todo encharcado de um vermelho vivo, ensanguentado. Um "tiro de comprometimento" de fuzil 7.62 que os cana dispararam na blindagem da parede entrou rasgando direto na garganta dela, destruindo tudo. Os verme da polícia tavam em pé na porta, rindo alto com os fuzil atravessado no peito, debochando da tragédia e cochichando entre eles que era "menos uma semente de bandido, menos uma cria de favelado pra dar trabalho no futuro". Eles viraram as costas, pegaram o rumo do asfalto e nem olharam pra trás, deixando o rastro de destruição deles. O silêncio mortal que ficou dentro daquela sala minúscula foi o som mais alto e perturbador que eu já ouvi na minha vida inteira. O mundo parou. Eu caí de joelhos no chão, puxei o corpo frágil da Maya pro meu colo, e o sangue quente e viscoso dela começou a escorrer pelos meus braços, sujando a minha roupa, colando na minha pele. Naquela maldita hora, o Noah que sonhava em ser campeão mundial de luta livre morreu sufocado no próprio luto e no ódio. O que nasceu ali, com as mãos atoladas no sangue morno da minha irmã morta, foi uma criatura desumana, um bicho escuro que não conhece e nunca mais vai conhecer o significado da palavra misericórdia ou perdão. Eu não derramei uma p***a de uma lágrima. Meus olhos secaram no mesmo instante, virando pedra. Eu levantei com o corpo dela no chão, saí na viela feito um fantasma e localizei um dos soldados deles que tinha ficado pra trás, moscando na atividade, aproveitando a confusão pra saquear a televisão da casa de uma vizinha de idade. Cheguei por trás feito uma assombração, desarmei o infeliz num movimento rápido de arte marcial, tomei o fuzil Falcon da mão dele e descarreguei o pente inteiro de trinta bala direto na cara do maluco, até a cabeça dele virar uma poça de massa encefálica e osso triturado no chão de terra. Aquele foi o meu batismo de sangue, a minha entrada triunfal pro crime. Depois daquela noite, o freio de mão da minha mente quebrou de vez e eu não parei mais. Subi o morro decidido a me tornar o maior pesadelo que o Rio de Janeiro já viu, determinado a tomar o controle de tudo e de todos. Se a lei dos engravatados do asfalto não me protegia, eu mesmo ia criar a minha própria lei na base do terror. Dois anos depois, matei o antigo chefe da facção da Rocinha, o "Dadá", um cara prepotente que achava que era intocável. Matei o safado na frente de mais de duas mil pessoa, bem no meio de um baile funk de comunidade, com o som estourando no talo. Não gastei nem um projétil de munição. Usei só as minhas mãos puras. Quebrei o pescoço dele com as técnica de estrangulamento que aprendi, estalando a espinha dele como se fosse um graveto seco de árvore, e sentei direto na cadeira de chefe dele com o sangue dele ainda respingando morno na minha cara. Dali em diante, o Monstro assumiu o trono.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD