Capitulo 4

1423 Words
— Acende essa p***a — falei friamente, sem nem piscar o olho, dando as costas pro condenado. O Menor riscou o isqueiro e jogou na gasolina. As chamas subiram alto pra c*****o, estalando no céu escuro, iluminando a laje inteira com um clarão alaranjado da morte. O calor absurdo do fogo batia nas minhas costas, mas eu não me afastava um milímetro sequer. Fiquei ali, parado igual uma estátua, assistindo o espetáculo macabro do início ao fim. O cheiro insuportável de borracha derretida grudando na pele e carne humana assando no fogo alto não me incomodava em nada, o meu estômago é de ferro. Pra mim, aquele cheiro horrível era o cheiro do progresso, a fragrância da ordem e do respeito sendo restaurados na base da crueldade pura. Eu sou c***l com o mundo porque a p***a do mundo foi infinitamente mais c***l comigo primeiro. Eu sou o resultado exato de cada injustiça, de cada bala perdida e de cada covardia que essa favela já sofreu na mão de quem tá no poder. — Agora que o fogo baixou, limpa essa bagunça toda aí, recolhe o que sobrou dos osso carbonizados desse infeliz, bota num saco de linhagem e joga na entrada da autoestrada Lagoa-Barra de manhã cedo — ordenei pro Menor, que apesar de ser cascudo na pista, tava pálido de ver a cena do micro-ondas de perto. — É pros alemão do Vidigal e pros cana da delegacia saberem que na Rocinha o Monstro não dorme e a cobrança é no chicote de fogo. Girei nos calcanhares e entrei direto pro meu escritório de luxo que ficava nos fundos da laje. O lugar era uma verdadeira fortaleza blindada, parede de concreto armado de trinta centímetro, porta com fechadura biométrica e uma parede cheia de monitor de segurança de última geração transmitindo em tempo real as imagem de alta definição de cada câmera escondida nas entrada, nas viela e nos beco estratégico do morro. No canto da sala, pendurado por uma corrente grossa de aço, tinha um saco de pancadas imenso, feito de couro legítimo de boi, que já tava todo remendado com fita isolante e rasgado de tanto soco violento que eu desferia ali diariamente. Eu tava com a mente fervendo, precisava aliviar aquela tensão que parecia que ia explodir o meu crânio. Comecei a socar o saco de couro com as mãos puras, sem faixa de proteção, sem luva de boxe, sem p***a nenhuma pra amortecer o impacto. Eu queria sentir a dor física, queria que o impacto seco rasgasse a minha própria pele pra ver se a dor de fora anestesiava a dor que corria por dentro da minha alma morta. Cada golpe violento que eu dava era uma imagem nítida que passava na minha tela mental: o rosto dos cana do Bope rindo na porta, o corpo ensanguentado da Maya, a cara de pavor do Dadá quando quebrei o pescoço dele, o cheiro de carne queimada do x9 de hoje. Eu não era um homem comum, eu era a p***a de uma máquina de destruição em massa sem botão de desligar. Meus golpes de Muay Thai saíam rápidos, pesados, precisos, e o som do couro estalando com o impacto das minhas mãos parecia tiro de canhão de calibre .50 ecoando dentro das quatro parede daquela sala blindada. Só parei de esmurrar o saco de areia quando os nós dos meus dedos tavam totalmente estourados, sangrando e o chão de porcelanato importado tava cheio de respingo vermelho. Eu tava completamente ofegante, o suor escorrendo pelo meu peito nu e musculoso. Encostei a minha testa quente no couro frio do saco de pancadas, fechando os olhos, deixando a carcaça de Monstro desabar por um breve instante de fraqueza. — Maya... minha irmãzinha... — sussurrei baixinho, a voz saindo falhada, num tom que ninguém na face da Terra jamais ouviu ou vai ouvir de mim. A única vez que eu me permito lembrar que um dia tive um coração batendo de verdade dentro do peito é quando eu tô trancado sozinho entre essas quatro parede blindadas. — Eu cumpri a promessa, maninha. Eu tomei o controle dessa p***a toda, do morro de ponta a ponta. Eu sou o rei absoluto dessa p***a de cidade, o cara mais temido do crime organizado. Mas eu juro por Deus, Maya, que eu trocaria cada fuzil AR-15 da minha armaria, cada quilo de pó puro que vem da fronteira e cada centavo desse ouro que tá no meu pescoço só pra ter você aqui de volta na mesa, viva, reclamando do meu cheiro de cigarro e me pedindo ajuda com o dever de casa da escola... O momento de vulnerabilidade e fraqueza durou exatamente dois segundos na minha mente fria. Endireitei o meu corpo de 1,90m na mesma hora, bati a mão na cara pra acordar pra realidade da favela, limpei o sangue fresco dos nós dos meus dedos direto na minha camisa preta de marca e voltei instantaneamente a vestir a carcaça impiedosa do Monstro. O Noah romântico e sonhador tava enterrado a sete palmos do chão junto com a irmã dele. O dia tava começando a clarear no horizonte do Rio de Janeiro, os primeiro raio de sol batendo no mar de São Conrado e iluminando os barraco de tijolo baiano da Rocinha. A favela tava acordando sob o meu total e absoluto domínio de ferro e sangue. O trabalhador tava saindo pra pegar o ônibus pra Zona Sul sabendo que ali dentro quem dita as regra da vida e da morte sou eu, o cara que garante a segurança deles na base do fuzil. Eu sabia muito bem que a guerra do tráfico nunca tem fim, que o descanso é o leito de morte. Tinha sempre a p***a de um novato embalado querendo tomar o meu lugar na marra, tinha sempre um cana corrupto do asfalto querendo a minha cabeça pra ganhar medalha do governador e tinha sempre um rival do Comando de outro morro de olho no lucro milionário das minhas boca de fumo. Mas eu tava mais do que pronto pra qualquer kô que viesse. Eu sou o traficante mais temido do país porque eu sou o único que não tem absolutamente nada a perder na vida. Eu já morri por dentro na sarjeta há dez anos. O que sobrou aqui andando e mandando matar é só a carcaça fria de um homem que aprendeu da pior forma possível que no topo do morro, ou tu assume o papel de carrasco impiedoso, ou a tua cabeça é a próxima a rolar na corda do tribunal do crime. E eu, Noah Ferraz, nasci com a vocação exata pra segurar a p***a da corda e apertar o nó até o fim. Peguei o rádio de alta frequência de novo, apertando o botão lateral com força, a voz ecoando firme pra todos os plantonista do morro ouvirem o comando do general: — Presta atenção no comunicado, visão pra todos os plantão de todas as boca de fumo da Rocinha: Quero todas as contenção da subida e dos acesso em alerta máximo, com os pente de fuzil de setenta bala engatado na agulha. O baque que a gente deu ontem nos verme foi só o cartão de visita, só o aviso de entrada. Hoje a gente vai mostrar pra esse estado falido do Rio de Janeiro que quem manda na p***a da cidade inteira não é a p***a do governador engravatado que mora em palácio, sou eu, o Monstro! Se o caveirão da polícia botar a cara na subida do morro, não é pra recuar nem um metro: é pra jogar granada direto no motor da barca e descarregar o cano do fuzil até os cana derreter lá dentro! É guerra total, p***a! É tudo nosso e nada deles! A resposta dos meus soldados veio imediata, explodindo em coro sincronizado através das frequência estalada de todos os radinhos da favela: — É a guerra do Monstro, chefe! Tudo monitorado no controle total, paizão! É o bonde do psicopata, ninguém passa na nossa barreira! O morro tá dominado. Abri um sorriso sinistro no canto da boca, os olhos azuis brilhando com o reflexo das chamas que ainda terminavam de queimar o x9 na laje. O dia ia ser longo pra c*****o, violento, e eu tava com a mais pura fome de sangue de inimigo na minha mesa. O mundo me transformou num monstro sem alma, agora a p***a do mundo que arque com as consequência do demônio que eles mesmos criaram no meio do esgoto.
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