A água gelada batia com força na minha nuca calejada, descendo pelas minhas costas e limpando a crosta de fuligem preta, suor azedo de medo alheio e o rastro de sangue da farda do capitão que eu tinha queimado vivo na curva do S. Eu observava aquele líquido vermelho e nojento sumir pelo ralo do banheiro de luxo, girando num redemoinho que parecia o único destino possível pra todo mundo que inventava de cruzar o meu caminho no Rio de Janeiro. Enrolei a toalha preta na cintura com brutalidade, ignorando com um sorriso cínico as pontadas violentas de dor nos cortes que as unhas de arame farpado do Coveiro tinham aberto no meu peito lá no porão da Lona Preta. Eram feridas abertas, latejando no mormaço, me lembrando que por mais que eu tentasse ser apenas uma máquina feita de aço, ódio e pólvo

