Eu peguei aquele panfleto imundo com o mais puro desdém, olhando de r**o de olho. No papel vagabundo, tinha o desenho rústico e malfeito de duas mãos ensanguentadas se fechando num soco inglês, com umas letras garrafais vermelhas que pareciam escritas com menstruação ou sangue de galinha. O texto dizia:
"LONA PRETA: ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ. LUTA CLANDESTINA. VALE-TUDO DO SUBMUNDO. SEM REGRAS. SEM JUIZ."
— Luta clandestina, é? Vale-tudo de porão? — dei uma risada curta, seca e totalmente sem humor, olhando fixo pro endereço borrado de caneta no fundo do papel.
Aquilo ficava num galpão abandonado da zona portuária, uma área esquecida por Deus, cheia de carcaça de navio, longe pra c*****o da vista da polícia e do asfalto vigiado.
— Tu sabe muito bem que eu não tenho p***a nenhuma de paciência pra lutinha de academia, Menor. Esses playboyzinho engomado de jiu-jitsu da Barra da Tijuca que vivem de tomar whey protein se borram todo nas calça quando o bagulho fica doido de verdade, quando a porrada come com sangue escorrendo no olho e sem luva pra proteger a cara de moça deles. Isso aí é evento pra divertir rico.
— Mas aí que tá a visão de mestre, chefe! Tu não tá entendendo o kô! — o Menor se empolgou de um jeito bizarro, gesticulando com as duas mãos, quase babando na minha frente. — O cracudo falou que o bicho lá tá pegando de um jeito demoníaco, papo de psicopata. Não tem essa de luvinha, não tem tempo de round, não tem p***a de médico pra parar o combate. É mão pura no osso, dente arrancando carne, cabeçada no nariz, dedo no olho... o que vier pra destruir o oponente tá valendo.
O Menor deu um passo pra trás, limpando o suor da testa antes de continuar o relato:
— O moleque falou que tem um tal de "Coveiro" lá dentro que é o terror da jaula. O cara é um monstro gigante que já mandou três o****o direto pro hospital de estado com traumatismo craniano e um comédia direto pro cemitério do Caju em menos de um mês de aposta. Os cara do asfalto tão movimentando grana de gente grande ali dentro, Monstro. Dinheiro de bicho, empresário da Zona Sul, político corrupto, geral subindo a aposta pra ver quem é o primeiro homem com coragem de derrubar esse carrasco. O prêmio tá acumulado numa mala cheia de dólar, patrão.
Eu olhei pro panfleto de novo, fixando os olhos naquelas mãos desenhadas. Senti as minhas próprias mãos começarem a formigar de um jeito que eu não sentia há anos. O nó dos meus dedos, calejados de tanto esmurrar saco de pancadas e quebrar osso de traidor, começou a latejar com força na batida do meu coração de psicopata. Senti o gosto de sangue na boca de pura antecipação.
O tédio desgraçado de ficar só sentado na p***a de um trono dando ordem pros outros, mandando executar moleque e contando milhão de dinheiro tava me corroendo o juízo por dentro, me deixando doente da cabeça. O tráfico me dava o poder absoluto, o ouro me dava o status, mas a luta... a porrada seca no osso... aquela era a única p***a de alívio real que nenhuma droga do mundo conseguia dar pra minha mente perturbada.
— Por que tu não vai lá conferir esse kô, chefe? — o Menor continuou, baixando o tom de voz pra nenhum vapor escutar a i********e do patrão. — Tu tá precisando descarregar esse demônio que tu guarda aí dentro do peito, eu te conheço. Eu vejo no fundo do teu olho azul que tu tá com sede de quebrar os osso de alguém que realmente consiga revidar os teus golpe. Aqui no morro, geral se mija todo e cai de joelho implorando quando tu levanta um dedo. Lá embaixo, naquele porão sujo do porto, ninguém te conhece. Tu vai ser só mais um "Monstro" querendo arrancar dente. É a tua chance de ouro de lutar na pura crueldade, sem o vulgo de patrão da facção te segurando ou fazendo os cara lutar com medo de ti.
Levantei daquele banco de plástico num movimento bruto, a minha estatura colossal de 1,90m de puro músculo cobrindo a luz do sol e fazendo uma sombra imensa e assustadora por cima do Menor. Amassei o panfleto podre com a palma da mão direita até virar uma bolinha de papel e joguei na poça de lama de esgoto que corria na beirada da calçada.
— Tu tá achando o quê da minha vida, ô moleque? Que eu vou sair do topo do meu império, largar o meu plantão milionário pra me misturar com ralé de porto abandonado e cracudo de calçada, é? — perguntei, enfiando a minha cara bem perto da dele, encarando o guri fixamente com os meus olhos azuis cor de gelo seco, destilando uma frieza de necrotério.
O Menor engoliu a saliva em seco, a jugular dele chegou a tremer de pavor, mas o desgraçado me conhecia desde que era um pivete sem dente e sabia exatamente qual botão apertar pra ativar a minha loucura.
— Eu não acho nada, patrão... eu só acho que, no fundo da tua mente, tu tá é com medo real de descobrir que esse tal de "Coveiro" bate muito mais forte que tu, Monstro — ele provocou na maior audácia da pista, já dando três passos largos pra trás, preparando as perna pra correr pra não levar um soco que ia arrancar a cabeça dele do pescoço.
O silêncio mais absoluto e mortal caiu de estalo sobre a boca de fumo da Gaiola. O som dos radinhos parecia ter sumido. Os vapor pararam de picar a maconha, os atividade largaram os binóculo de lado e geral ficou paralisado, olhando pro chão, sem nem respirar. Ninguém, absolutamente ninguém na história da favela do Rio de Janeiro, desafiava ou debochava do Monstro daquele jeito e sobrevivia pra contar a fofoca no baile.
Senti a fúria psicopata subir rasgando pelo meu pescoço grosso, a caveira tatuada na minha pele parecia latejar, querendo saltar pra fora do músculo pra morder a garganta daquele moleque. Dei um passo rápido feito um leopardo, segurei o Menor pelo colarinho da camisa tactel com uma mão só e puxei o corpo dele pra cima, tirando os pés dele do chão, sentindo o cheiro do suor do medo dele se misturar com a minha vontade incontrolável de esmagar osso.
— Medo, seu moleque do c*****o? — sussurrei com a voz saindo bem baixa, direto do inferno, cuspindo na cara dele. — A última vez que a p***a da palavra medo passou perto da minha mente, eu tava com o corpo de uma menina de 12 anos morta, ensanguentada, estirada nos meus braço dentro de um barraco. Depois daquela noite maldita, essa palavra nojenta sumiu pra sempre do meu dicionário. Eu não sinto medo de p***a nenhuma que respira nessa terra!
Soltei o moleque com um empurrão tão violento que o corpo dele voou pra trás, batendo contra o guidão da XRE, quase tombando a moto no chão de terra.
— Prepara a minha moto agora, anda! E passa o rádio pro Caveira assumir o plantão geral da Gaiola até eu voltar dessa p***a. Se eu souber que teve moleza, que teve desfalque de um centavo ou que algum vapor cochilou na atividade, o chicote de fogo vai estalar nas costa de geral quando eu subir esse morro de volta! — ordenei no mais puro ódio, já dando as costas e caminhando a passos largos pra dentro do meu bunker blindado pra trocar de roupa.