Capítulo 3 - Primeiro Encontro: Faísca, Mentira e Radar

1455 Words
Lorena O dia que mudei pro morro ficou guardado em mim como uma sequência de cheiros e escalas. Subir com caixas pela escadaria parecia uma prova física e sentimental, cada degrau me lembrava o que eu deixava e o que eu ganhava. João fazia piada até quando o suor escorria pelo rosto e dizia: — Partiu, suadeira! — e a gente ria pra não chorar. Ana trouxe sacos com roupa e um bolo escondido, ela é viciada em bolo, e Camila carregou a caixa com os cabos do computador como se fosse tesouro. A mudança foi operação entre amigos, e nisso havia segurança. As primeiras horas foram de apresentação. A vizinhança me recebeu com um café na varanda como se eu já fosse de casa. Dona Lourdes apareceu com um prato de biscoito e um abraço largo: — Seja bem-vinda, menina. Fica à vontade. Aqui a gente se ajuda. Vi os trajados passar pro baile mais tarde, crianças jogando bola na ruazinha, e o gelo chegando pro churras da laje. Tudo acontecia ao mesmo tempo, festa, trabalho e vigília. Eu anotava mentalmente rotas de fuga, pontos cegos, quem falava demais, quem só observava. No fim da tarde, quando o céu ficou laranja e as sombras compridas desenharam as casas, ouvi o motor discreto de um carro. Um carro preto que parou sem chamar atenção. Dois homens desceram devagar. O morador de respeito costuma ter gente assim, presença sem alarde. Ele veio devagar, passo certo, relógio no tempo exato e olhar que varria a laje como quem lê um livro. A presença foi um aviso. Era ele. Gringo. Quando se aproximou, minha mão apertou a caixa sem eu perceber. Ele olhou, mediu, e falou direto como quem já tem o lugar marcado: — Tranquilo, moradora nova. Pega a visão, aqui a gente se ajuda. Se precisar de alguma moral, fala com a Dona Loura ali da venda. A voz dele era firme e baixa, um som que não precisava de bravata. Havia algo no tom que ordenava respeito sem pedir. Balancei a cabeça, tentei um sorriso curto e respondi na medida: — Valeu, chefão. Tô de boa. Só arrumando umas parada aqui. Tá suave, preciso de nada não. Ele observou meu jeito de carregar a caixa, a coluna reta, o olhar que não desviava. Foi um instante pequeno, mas ele notou. Sussurrou só pra mim, num tom que parecia confidência: — Braba. Foi o elogio mais simples e estranho que já ouvi. Ele murmurou uma frase em italiano, quase um sopro: — Che bellezza… occhi di tempesta. (Que beleza… olhos de tempestade) — Eu travei. O idioma acendeu algo antigo, uma memória das minhas aulas de idioma, aprendi cinco idiomas diferentes, e um deles é italiano. Fingindo surpresa, perguntei: — Oi? Ele fez que nada, deu de ombros e emendou em português com gíria: — Nada, nada. Só dizendo que se der r**m, me aciona. Já é? — Tranquilo. — Respirei mais fundo. — Mas, como eu disse, tô de boa, chefão. Tinha mentira ali. Não foi mentira por maldade, foi escolha. Quando perguntei sobre a papelada do aluguel e a mudança, ele sorriu e perguntou coisas pro alto, quase testando: — De onde tu é? Que faz da vida? Tem família aqui? Eu respondi com cuidado, filtrando o que contaria. — Sou do mundo, chefão. Trabalho na cidade. Tô só me ajeitando por aqui. Não quero causar problema, só viver minha vida. As palavras eram medidas porque eu precisava ficar invisível em algumas pontas. Não dava pra falar que eu era policial, que meu pai foi morto aqui no morro, que eu estava ali armando um plano solto para matar ele. A minha voz soou tranquila, e com isso vi o olhar dele mudar um pouco, menos suspeita, mais cálculo. Ele testou com outro comentário, dessa vez em tom provocador: — Tu tem namorado? Mora com ele? A provocação tinha camuflagem de brincadeira, mas eu entendi o teor. Respondi sem vacilar: — Tô solteira. Vim sozinha. Aqui é vida que tenho de ajeitar ainda. Coração tá blindado. Ele riu curto, deu a volta devagar e falou com as vizinhas num tom que pegou tudo leve: — Essa menina parece de verdade. Gente boa. Bora tratar direito. Quando ele foi embora, deixou o silêncio no ar como gesto de posse sem necessidade de alarde. Fiquei encarando a caixa. O coração respondeu sem pedir autorização. Uma faísca morna que eu não esperava. Era atração? Talvez. Era medo por me descobrir? Também. Havia algo naquele homem que confundia a mira da minha cabeça. À noite, deitada na rede da varanda, escrevi uma mensagem rápida no grupo: — “Primeiro contato feito. O ‘dono’ é mais frio do que eu pensava… e mais atento.” Pedi que eles respondessem e passei o celular pra ver as mensagens deles chegando, Ana mandou emoji de fogo, João respondeu com piada boba, e Camila mandou só “cuidado, Lô”. Porque era verdade, a atenção dele não era desinteressada, era radar. Depois, quando as luzes do morro ficaram pequenas e o som do funk subia como marca de festa, percebi que ele não era o bruto simplista que a rua conta quando conta história de poder. Havia códigos no jeito de falar, cuidado nos gestos. Vi que ele falava com os meninos de outro jeito, com a mesma firmeza, mas também com uma precisão que não era só força. Percebi que ele mantinha distância de quem sofria, e dava abrigo de quem precisava. Existia uma lógica ali que não batia com a caricatura. Nos dias seguintes, fui observando tudo com calma. Anotei o lugar onde os carros paravam, quem subia e descia, e completei o mapa com o que aprendi. Entendi que a venda da Dona Loura era ponto de rumor, que a dona do bar da esquina falava demais quando bebia duas doses, que a molecada do beco três tinha olhos atentos. Tudo isso virou possibilidades e cuidado. No dia seguinte, acordei cedo e fui varrer a varanda. A rotina doméstica dá segredo, quem limpa vê o passo do outro. Vi o chefão passando no carro, um aceno curto com a mão, e entendi que já tinha sido visto. Encontrei a Dona Lourdes e trocamos papo de porta: — Dormiu bem? — Dormi. — E a vistoria da casa? — Tá ajeitada, dona Lourdes. Ela sorriu e entregou um pedaço de bolo: — Come. Coisa nossa. Aproximei e senti que o lugar me aceitava aos poucos. Mas o teste amadureceu quando um rapazinho do beco três veio pedir ajuda com a rede do celular. Ele falou alto demais, pedindo pra eu chamar alguém pra subir o sinal, eu não entendi. Gringo apareceu do nada, como dono da casa: — Mano, deixa que eu vejo. Ele ajeitou o problema com duas palavras e um gesto sereno. Depois, virou pra mim e disse, com cara de quem observa mais que fala: — Essa coragem vem de onde? Fala a verdade. Quem tu é de verdade? As palavras cortaram. Eu poderia dizer que era só m*l entendido. Em vez disso, sorri e respondi: — Sou uma mulher que quer morar em paz aqui. — Ele me olhou com olhos pequenos, avaliando. — Tá certo. E se precisar, chama. Foi assim que entendi, o Gringo testa com o cotidiano. Ele não pega na gente com pergunta dura, observa a forma como a gente age, como a gente cuida. Ele mediu minha coragem naquela tarde sem usar violência. Eu, por outro lado, aprendi a medir a autenticidade dele. Não era brutal, não era vazio. Era dono que sabia segurar o próprio terreno. Quando cruzei com ele de novo, dias depois, ele sorriu com menos teste e mais reconhecimento. Falou com uma voz que tinha um traço de cuidado: — Tá tranquilo por aqui? Precisa de alguma parada? Neguei com a cabeça. — Tá tudo certo. — Olhei por cima do ombro e disse: — Obrigada por cuidar de todos. Ele fez um gesto leve: — Sempre. A gente protege quem entra certo. — E por um segundo, quando pensei nas palavras que não contei, senti que havia risco, mas também uma estranha possibilidade. À noite, antes de dormir, olhei a casa alheia com olhar novo. Havia faísca, sim, mas também cautela. Eu sabia que o morro exigia jogo duplo, mostrar confiança e esconder o plano. E nesse jogo, ele era obstáculo e peça ao mesmo tempo. Quando desliguei a luz, pensei baixo: — Fica ligada, Lorena. Aqui cê precisa de coragem e cabeça fria. E, por ora, um pouco de falso sorriso. Foi assim meu primeiro encontro com o Gringo, faísca que queimou leve, mentira que se acomodou, e radar que agora estava afinado.
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