Lorena
A rotina do morro tem um ritmo que entra no corpo. No segundo dia já sabia a hora que passava o caminhão da feira, quem chegava com o gelo pro churras da laje, qual vendedor tinha mercadoria fresca e quem vendia biscoito de procedência duvidosa, do tipo: caiu do caminhão.
Me integrei rápido. As pessoas tinham pouco, mas davam moral. Fui ajudando a Dona Loura na venda, digitava pedido no celular, organizava as caixas, conversava com a mulher que limpava o chão.
As crianças berravam:
— “Vamo marcar.” — e saíam correndo.
Eu ria com elas, mas os olhos não desgrudavam dos cantos, sempre atenta a quem olhava demais, a quem falava pouco.
O Gringo observava de longe. Às vezes vinha com alguém só pra passar e anotar movimento, outras, aparecia devagar na laje, conversava com um parceiro e depois sumia.
Nunca foi agressivo, mas tinha um jeito que fazia a gente entender que as regras vinham dele. Vi que ele gostou de como eu ajudei sem pedir nada em troca, sem espalhar que precisava. Isso devia contar pontos na cabeça dele.
No meio da semana, chegou o caminhão de mantimentos. O Cara do bar, parceiro antigo dele, desembarcou caixas. A conversa foi solta na venda, risos leves, o som do motor ao fundo. Eu ajudei a descarregar, por educação e porque ver o mundo de perto me dava informação. O homem comentou alto:
— De boa, já ajeitei a carga. A moradora deu moral aqui.
— Já é, brigado — respondeu outro, rindo.
Quando o Gringo apareceu, a energia mudou. Ele veio calmo, passo curto, olhada seca. Parou e falou direto:
— E ai, parceiro. Já descarregou tudo?
— Já sim, paizão. A moradora deu uma moral aqui.
Ele virou pra mim e falou com tom de quem dita regra e também faz prova de confiança:
— Se liga no papo, morena, qualquer parada grande, me chama. Não quero tu carregando peso.
Senti o subtexto: controle. Respondi limpa, sem dar brecha:
— Relaxa, chefão. Eu sei a medida da minha força.
Ele inclinou a cabeça e murmurou algo em italiano, quase um sopro:
— Testarda... bellissima. (Teimosa… belíssima.)
Foi pequeno. Eu não respondi. Palavras dele sempre vinham com risco.
Dias depois, busquei a capela do alto. O silêncio da igreja me acalmava. Vi um senhor que conhecia meu pai de vista, um homem de mãos calejadas. Sentei com ele e perguntei do dia do tiro, direto:
— O senhor lembra de algo sobre o dia do assassinato meu pai?
— Lembro, filha. Mas escuta — disse ele em voz baixa. — Dizem por aqui que o tiro veio de fora do beco principal. Ângulo errado pra quem domina a área. Coisa de montagem.
A informação me cortou. Fora do beco principal. Dei um gole de água e o mundo rodou por um segundo. Tinha de recompor o mapa mental. Se a cena foi plantada, minha busca por culpado mudava de rota.
Voltando, ouvi grito no beco. Dois caras discutiam e um puxou uma faca. A técnica da PM veio automática, instinto que reorganizou meu corpo para a ação. Segurei o pulso do agressor, puxei, girei o tronco e tentei controlar o golpe. O outro avançou com soco. A pressão aumentou. O que brandia a faca se soltou e tentou ferir de novo.
Antes da faca alcançar, uma mão firme agarrou o agressor pelo colarinho e o encostou na parede. O Gringo estava ali, impassível.
— Papo reto, filho da p**a, mete o pé daqui. Agora.
O corte de voz era seco e a agressão cessou. Ele olhou pra mim com irritação e admiração misturadas.
— Cê não é heroína aqui. Aqui cê é moradora.
— Eu só evitei uma besteira — respondi, ofegante.
— Tá mec, agradeço. Mas tem coisa sinistra que tu não tá vendo.
Ele deu dois passos, virou pra sair, mas voltou e falou baixo, quase íntimo:
— Se liga no papo, morena, não confia em sorriso fácil. Nem no meu.
Fiquei com o coração na garganta. Era gelo e aviso junto, proteção e perigo.
Depois do incidente, o morro comentou por dias. Me olharam diferente, alguns com respeito, outros com suspeita. O Gringo passou a notar minha presença com mais atenção. Ele vinha com frequência à venda, comprava biscoito e perguntava de coisas banais só pra ouvir conversa. Falamos pouco, e cada palavra dele era medida.
A pista do senhor da igreja martelava minha cabeça. Fora do beco principal... quem ganhava com plantar morte? Quem teria habilidade pra ordenar um tiro de fora e ainda sim fingir que era local?
Comecei a anotar nomes, o dono de um bar que sumiu no dia, um vendedor que tinha conta estranha, um carro que foi visto na madrugada. Era costura, um nome, outro, um boato que fechava com outro boato.
Num dos fins de tarde, ouvi o Cara do bar conversando comigo sobre a entrega. Ele riu de uma piada tola e disse:
— A moradora mete a mão onde precisa. Tá certinha.
O Gringo chegou depois e, com um leve tom de ciúme, perguntou:
— Quem é esse que tá falando com você? São conhecidos de onde?
— É só um parceiro que descarrega a mercadoria na loja da Loura às vezes — respondi, calma.
Ele colocou as mãos no bolso e falou curto:
— Aí, pega a visão. Não quero homem marcando território perto daqui. Se der r**m, me chama.
Havia ciúme no tom, mas também senso de comando. Eu entendi que, naquele lugar, flerte era política. Respondi com calma:
— Tranquilo. Sei qual é a medida.
Ele assentiu, mas a tensão ficou no ar. O ciúme era silencioso, uma sombra que se estendia no morro. Não era só sobre mim, era sobre ordem.
As noites eram feitas de escuta. Ouvi conversas na venda, segurei olhar com meninos do beco, e anotei passos. O mapa foi ficando mais denso. Camila mandava mensagem com pequenas atualizações, um número estranho na lista de chamadas, uma transferência que não batia, e eu riscava nomes no caderno.
Houve um quase incidente que me abalou, uma caixa caiu e abriu, espalhando latas e um perfume caro que ninguém do morro tinha. Um dos rapazes tentou juntar os frascos, e um deles tinha um símbolo que eu não conhecia. Chamou atenção. O símbolo remetia a um grupo da cidade, não daqui. Algo que não pertencia à lógica do Falcão.
No dia seguinte, contei pro Gringo em voz baixa:
— Vi um símbolo numa caixa. Não é daqui.
Ele olhou, fechou os olhos por um segundo e respondeu:
— Se tiver coisa estranha, traz pra mim. A gente resolve. Mas fica esperta, nem tudo que sobra é verdade.
Percebi que, apesar do ciúme, havia cuidado mesmo que ele disfarçasse. E eu, por minha vez, aprendi a dosar a verdade. Dizia o que precisava e escondia o resto.
A pista da montagem martelava, fora do beco principal, carro estranho, símbolo desconhecido. Minha investigação ganhava camada, talvez tivesse gente de fora querendo desestabilizar. Talvez meu pai tivesse sido peça numa trama maior. A raiva que me movia ganhou arestas de cautela.
Naquela semana, sentei com Ana e João e falei baixo, mostrando o caderno com nomes riscados.
— Vamos devagar — disse Ana. — Tu não pode agir sozinha.
— Sei disso — respondi. — Mas se ninguém fizer, quem vai?
João bateu de leve no meu ombro e falou:
— Tamo junto, Lore. Mas pensa, não faz merda.
Fiquei pensando neles, na responsabilidade que me puxava. O morro me acolheu, mas também me prendia. Estava dentro da trama e precisava de calma. A pista nova era pontual e perigosa. Era hora de juntar mais fios antes de puxar o novelo.
No dia seguinte peguei o caderno e passei a anotar as coisas, a rua curta onde o carro parava, o muro com marca de tinta, a janela que ficava trancada. Desenhei o símbolo no canto do papel. Chamei atenção de quem presta atenção nas mudanças, o morro é assim, cheio de olhos.
Contei pra Camila de leve. Ela fez cara fechada e falou:
— Sinal r**m, Lô. Não é coisa de moleque.
Ela mandou o print pro contato certo e me disse que o símbolo já apareceu em outra região. Gente grande envolvida.
A ficha caiu com peso. Não era só minha dor, era ameaça. Respirei e lembrei do meu pai, coragem é escolher o certo quando dá medo. Fechei o caderno, escondi os papéis. Cada passo dali pra frente teria que ser calculado, lento e discreto. Eu não podia errar. Nem por raiva.
Fiquei ali, escutando a cidade, sabendo que a pista mudava tudo, e que eu estava mais determinada do que nunca.