Lorena
O céu escureceu como se tivesse engolido o sol. No morro, o vento levantava poeira, arrastava tampa de lata, balançava varal e alma junto. A luz piscou duas vezes e apagou de vez. Fiquei parada no meio da sala, ouvindo o silêncio pesado que vem quando o barulho da cidade some.
Tranquei as portas, fechei as janelas e peguei a minha arma. O barulho da chuva começou grosso, batendo no telhado de zinco, e as lembranças vieram feito raio:
— “Não confia em sorriso fácil.” — A voz do Gringo no beco ecoou na cabeça.
Então vieram as batidas curtas na janela. Uma, duas, três. Meu corpo travou. Respiração curta, a mão firme na minha arma já engatilhada.
— Quem tá aí? — perguntei, tentando controlar a voz.
Do outro lado, a resposta veio baixa, mas firme:
— Fica de boa, morena. Sou eu. Abre, rápido.
Reconheci a voz. O coração deu um salto. Escondi minha arma embaixo das almofadas no sofá. Abri a porta.
Ele entrou molhado, moletom escuro, cheiro de perfume forte e uísque misturados. O cabelo colado na testa, o rádio no bolso apitando de leve.
— Deu r**m lá embaixo — disse, tirando o capuz. — Rival brotou pra sondar. Vim checar se tá tranquilo por aqui.
— Eu tô bem. Só a luz que acabou.
Ele olhou em volta, atento, conferindo cada canto da casa como se fosse território dele.
— Se liga, hoje cê não fica sozinha. Já é? Não confio no escuro. Mesmo que eu venha dele.
A forma como ele falou fez o ar ficar mais denso.
— Eu não preciso de babá, chefão. — tentei disfarçar o nervosismo.
Ele riu de leve, os olhos sem humor.
— Não é babá, é precaução. Aqui, quando a luz apaga, os ratos saem do buraco pra brincar.
O trovão estourou perto, fazendo a casa tremer. Por um instante, ele olhou pra mim de um jeito que me desarmou. O tom da voz dele mudou, virou quase um sussurro:
— “Dio… come sei bella quando non hai paura.”
(Deus… como você é linda quando não tem medo.)
— O quê? — perguntei, sem saber se ele percebeu o que disse.
— Nada. — Ele desviou o olhar. — Tô dizendo que o tempo lá fora tá f**a. Vai demorar pra voltar a luz.
Parece que ele esqueceu que eu disse que entendo o que ele diz. Ficamos calados por alguns segundos, ouvindo a chuva. O som do vento se misturava com o bater dos nossos corações.
— Fecha às cortinas das janelas — ele pediu. — E apaga a lanterna do celular. Ninguém precisa saber que tem alguém aqui.
Obedeci, mesmo contrariada. Ele verificou cada tranca, cada canto, o olhar de quem mede perigo por instinto.
Quando se aproximou de mim pra fechar a última cortina, uma sombra cruzou lá fora. Ele reagiu antes de mim, me puxou pro canto, corpo colado no meu, a mão grande cobrindo minha boca num gesto de silêncio.
O barulho dos passos passou rente à parede. Podia sentir o coração dele batendo rápido contra minhas costas. O cheiro dele, pele quente e perfume caro, me invadiu. Quando o som sumiu, ele não se afastou. Demorou um segundo, dois.
— Já passou — murmurou, a voz rouca.
Virei o rosto pra encarar ele.
— Você sempre chega assim, todo mandão?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Só quando eu tô bolado.
— Com o quê?
— Com a ideia de alguém encostar em você.
— Por quê?
Ele respirou fundo, como se lutasse com as próprias palavras.
— Na real? Porque eu não quero que encostem em você.
Ficamos ali, frente a frente, relâmpago iluminando a casa. A tensão não era mais só medo. Era faísca. Ele tocou meu rosto com a ponta dos dedos, leve, testando limite. Eu não recuei.
O olhar dele pediu mais do que a boca dizia. E, quando ele inclinou o rosto, o mundo pareceu parar.
Beijei primeiro.
Ou talvez ele tenha chegado junto. Não sei. Só sei que o beijo veio quente, urgente, mas cheio de cuidado. O gosto de uísque e desejo misturado. Ele falou entre beijos, o sotaque mais forte:
— “Sei la mia rovina… e la mia salvezza.”
(Você é minha ruína… e minha salvação.)
— Fala sério… — sussurrei contra a boca dele. — Eu entendo o que você diz. Tá querendo me iludir?
— Sem caô, morena.
O beijo virou necessidade. A parede da sala foi testemunha. Ele me encostou ali, firme, as mãos percorrendo minhas costas num ritmo que oscilava entre domínio e ternura.
— “Bella… dolce… mia…” (Bela… doce… minha…)
As palavras dele soavam como prece. Eu respondi com provocação, ofegante:
— Só continua. Não perde mais tempo.
O moletom molhado escorregou e foi pro chão. As mãos dele encontraram minha cintura, subindo devagar, como quem pede permissão com cada toque. O corpo dele colou no meu, quente e pesado.
O ritmo começou urgente, mas foi ficando mais lento, mais íntimo. Ele guiava, mas sempre me deixava escolher o compasso.
Os dedos dele entrelaçaram nos meus, e por um momento o mundo lá fora sumiu, não existia morro, nem vingança, nem passado. Só o som da chuva e o estalar da pele.
Ele me olhava como se me descobrisse em cada segundo.
— “Così perfetta… anche quando tremi.” (Tão perfeita… mesmo quando treme.)
O corpo dele era força, o toque, cuidado. E cada palavra misturava posse e proteção. O contraste entre o italiano rouco e o sotaque carioca me fez perder o fôlego.
Quando tudo terminou, a tempestade ainda batia nas janelas, mas dentro da casa só existia silêncio e respiração pesada. Deitei no peito dele, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Ele passou os dedos no meu cabelo, calado. Pela primeira vez, parecia vulnerável. Mas o rádio no bolso chiou.
Duas palavras atravessaram o som estático e me congelaram, o nome de um chefe rival… e a coordenada de uma batida policial.
Meu coração disparou. Aquela coordenada não batia com o local oficial do assassinato do meu pai, mas um nome conhecido sim. Pista dois.
Talvez a ordem não tivesse vindo do Gringo. Talvez alguém tivesse plantado tudo. Ele notou meu olhar distante.
— Tá tudo bem, morena? Se arrependeu?
— Tá sim. Só pensando. — Respondi, sem coragem de encará-lo.
Ele se aproximou, encostou o rosto no meu, o tom da voz sério, quase solene:
— “Ti proteggo. Sempre.” (Eu te protejo. Sempre.)
Fechei os olhos. O corpo ainda queimava, o coração dividia espaço entre o plano de vingança e a verdade que começava a nascer dentro de mim.
Lá fora, a tempestade diminuía. Mas aqui dentro, ela só tinha começado.