Késsia.
Eu tinha ouvido os gritos da vaca, sorri internamente, ver ela maluca é bom, eu ainda queria ver ela no chão e eu veria, minha parte em acabar com ela ainda não estava totalmente concluída, faltava muita coisa ainda pra derrubar ela, mas iremos com calma, um passo de cada vez, e se ela estivesse no alto e eu derrubasse, o gostinho seria melhor.
Ela vinha descendo as escadas na força do ódio, vinha puxando a mala com tanto carinho que ela poderia se abrir a qualquer momento ali no meio da sala, eu não tava jogando praga, mas seria uma bela cena.
Quando ela me viu veio na minha direção, parou bem na minha frente me olhando com desdém, os papeis deviam estar trocados.
--- Tá feliz não está? Isso vai durar pouco, não vou deixar o Thomas ser feliz com você, nem por cima do meu cadáver.
--- Nossa, sua língua é tão grande, deveria usar ela para coisas mais importantes.
--- Acha mesmo que acabou garota? Ele pode estar doidinho por você agora, mas é comigo que ele tem dois filhos.
--- Qual é? Tá achando que eu pedi pra ele se divorciar de você? Ou que assim que você for embora vamos dormir juntos? Desculpa meu bem, mas a sanguessuga aqui é você, eu só fico ao lado de homens que realmente me valorizem, tenho dinheiro de sobra, não preciso do Thomas, já você, será que sobrevive lá fora sem nenhum tostão?
Ela levantou a mão pra dar na minha cara mas fui mais rápida, segurei a mão dela e a mão que atingiu o rosto dela foi a minha, a marca dos meus dedo ficaram.
--- Não é fácil tocar em mim querida, pensa bem antes, posso fazer sua cabeça rolar em questão de segundos, sua garganta jorrar também seria uma boa, corte na garganta é meu estilo.
Soltei ela, saiu com a mão no rosto e fervendo de raiva, que ela se exploda, eu não tenho tempo pra aguentar conversinhas dela, mas até que foi legal, a bofetada no rosto dela foi bem apoiada, meus dedos ardem até agora.
Eu não gosto de andar batendo no rosto de alguém, mas também odeio que batam no meu, acho meu rostinho lindo demais pra ser atingido pelos dedos sujos de alguém.
Na hora do almoço Thomas desceu, o amigo dele tinha ido embora logo depois que Estéfane saiu.
As crianças sempre se lambuzava com a comida, terminavam sujas e a bagunça ao redor delas era tamanha, era sempre eu que ficava para lavar os dois e limpar a cozinha, mas dessa vez foi diferente.
--- Eu cuido de tudo aqui, pode deixar.
Fala sério, eu tenho medo das atitudes dele agora, antes ele não tava nem ai pra nada, agora tá agindo tão bem assim, estranho é, mas deixei de lado, despedi das crianças e fui para o meu quarto, queria ligar pra Melissa desde a tarde, agora era a hora.
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--- Lembrou que eu existo?
--- Sim, tinha apagado sua existência da minha mente.
--- É uma vaca mesmo.
--- Tá de olho no garoto?
--- Vão matar ele hoje, nos últimos dias ele apanhou o triplo, só por que reagia.
--- Vamo lá comigo?
--- Claro que vou, tô precisando sair de casa mesmo.
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Ela desligou, fui vesti uma roupa melhor depois de um banho, parece que o garoto era duro na queda, eu tinha dito que poderia pensar se ele fosse mais corajoso, não poderia voltar atrás na minha promessa.
Sai de casa pegando meu carro, passei na casa da Melissa pra pegar ela e partimos pra faculdade onde ele estudava, era lá que iríamos encontrar ele.
Dessa vez fomos sem máscara, não era um trabalho, e mesmo se nós duas fôssemos treinar ele, uma hora ou outra ele veria nosso rosto, então só antecipamos a descoberta, e de alguma forma eu sabia, ele não contaria isso a ninguém, única qualidade nele que consegui enxergar foi saber guardar segredos.
Ele estava em um pequeno restaurante, ou café, sei lá, antes de sair do carro peguei um kit de primeiros socorros, ele tava precisando e muito, de longe dava pra notar os hematomas, eram tantos, senti pena dele, pela primeira vez.
Sentamos com ele na mesa em que o mesmo ocupava, Melissa sentou na frente e eu ao lado, tirei os curativos e remédios, fui passando um por um e ele ainda não dizia nada.
--- Os machucados estão feios.
--- Mais um pouco e você teria ido pra debaixo do chão garoto, por que não chamou a gente?
--- Você disse que poderia pensar em me treinar se eu fosse corajoso, se eu procurasse vocês pra me defender, não estariam aqui agora.
O garoto tinha um bom ponto, ao menos ele entendia as coisas muito bem.
--- Por que? Acha que é fácil treinar só pra poder matar alguém? Acha que consegue fazer isso sem sair machucado? Vai apanhar tanto quanto está apanhando agora, não preciso treinar um fracote.
--- Eu aguento, não me importo como será, só quero ser forte, mesmo que eu apanhe mais que isso todos os dias, eu ainda quero ser treinado.
--- E se não consegui, o que posso fazer pra não ter sido uma total perca de tempo pra mim?
--- Me mate, pode fazer isso se eu desistir ou não aguentar.
Eu olhei para Melissa, não seria fácil um treinamento, principalmente com ele que não sabia nem mesmo os golpes básicos em uma luta, levaria tempo e energia pra que ele se tornasse realmente forte, não seria uma jornada fácil.
--- Matarei você se não consegui, é bom que se esforce. Vamos lá.
--- Onde? A primeira e única regra é nunca perguntar absolutamente nada que não foi dito seguido de uma explicação pra você, é esse o sinal de que não precisa saber de nada.
Ele concordou, saímos dali, eu tinha um apartamento perto da casa dos meus pais, era grande, tinha tudo, então ele ficaria ali, não seria possível ele continuar a fazer faculdade, acho que ele já sabia disso desde que nos encontrou.
A única coisa útil que comprei com o dinheiro dos meus dois trabalhos foi esse apartamento, o resto eu deixo acumulando na conta, na certa eu já sou milionária, mas não me importo muito com isso.
--- Você fica aqui por enquanto, até que o treinamento acabe essa será sua casa, vamos às compras agora.
--- Não tenho dinheiro.
--- Eu tenho, você vai me pagar cada centavo depois, então, sem preocupações.
As roupas dele eram horríveis, meus olhos doíam só em olhar para aquele estilo sem graça dele, nem mesmo sei se ele tinha algum senso de moda, parecia que a moda não estava a seu favor nem um pouco.
Ele não era de todo feio, tinha um corpo formado, alto, e moreno, combinação perfeita, mas sem um boa roupa para acompanhar, não valia de nada toda aquela beleza.
Primeiro destino nosso foi um shopping, jogamos ele em lojas de roupas masculinas, eu e Melissa íamos escolhendo as peças e ele ia provando no provador, não tinha uma só roupa naquela loja que não combinasse com ele, por esse motivo levamos quase a loja todo, metade do meu patrimônio tinha sido gasto ali.
--- Não estão comprando coisas demais.
--- Nos deixe diverti fofo, Késsia e eu não fazemos compras a tempos
Isso era verdade, dificilmente nós duas íamos em shopping, afinal, era raro nossas saídas, pra que precisaríamos de roupas? Uma coisa que nossa família sempre ensinou aos filhos foi a não gastar em descontrole, nada de comprar o que não precisa, não que temos dó em gastar o dinheiro, só não há necessidade.
Quando chegamos no meu apartamento cada um soltou um suspiro de alívio, era bom sair de toda aquela confusão que é o shopping, é muita gente andando de um lado pra o outro, isso me rendeu até uma boa dor de cabeça isso sim.
Me recompôs, precisava voltar pra casa, meu trabalho me esperava, e se eu deixasse tudo se acumular novamente nem olharia mais, só o sofrimento que passei naquela semana foi o suficiente pra ter plena certeza que não queria mais trabalhar em excesso.
Eu só ainda trabalho com isso por que realmente gosto, eu recebo bem é verdade, mas não é como se esse dinheiro fizesse falta se eu parasse de trabalhar, eu gosto do que faço, apesar de ser cansativo e gastar muita energia, é bom ter que se enfiar totalmente entre os números.
--- Tenho que ir, o treinamento começa amanhã, bem cedo, não faça corpo mole, odeio isso, e o endereço, mando pra você por mensagem.
Nós duas nos despedimos, amanhã o dia seria longo e a Melissa iria comigo pra casa também, nós duas íamos revezar, uma hora ela treinava e eu ficava com as crianças e vice versa, não deixaria as crianças verem ainda todo aquele mundo, alguma vez nós iríamos usar a força, não era bom que eles vissem.
--- Ai, da até ânsia de vomito quando penso que vou ver aquela vaca.
--- Ela não mora mas lá.
--- Oi?
--- Os dois se divorciaram.
--- Tá brincando, c*****o, pensei que não aconteceria.
--- Nem é só isso, conversamos melhor mais tarde.
A casa estava quieta demais, na verdade já era noite,o que mais eu queria? Logicamente todos dormiam, nós duas fomos pra o meu quarto, como era costume dormir juntas quando ela estava aqui hoje não seria diferente.
Quando abri a porta acho que meu queixo foi ao chão, seria possível eu estar vendo coisas, olhei pra Melissa e ela parecia na mesma situação que eu, com certeza não era uma miragem, fechei a porta bem devagar.
--- Eu estou maluca ou ali era o Thomas na sua cama?
--- Acho que não, realmente é ele aí.
Thomas estava dormindo na minha cama com as crianças, ele parecia dormir tão bem que não fazia sentido eu ir acordar ele, não era nada demais, e além disso as crianças estavam ali, não era como se ele tivesse invadido o meu quarto e estivesse me esperando.
Fomos dormir na cama da Melissa, a dela era tão confortável como a minha mas não era boa, eu simplesmente odiava dormir fora da minha cama, sempre foi assim desde pequena, eu não tinha problema em dormir com a mãe e o pai na cama deles por que cada um estava ao meu lado, e na infância eu também não tinha problema em dormir com o Thomas em outra cama que não fosse a minha, mas mesmo com a flor dormindo comigo tive a impressão que não conseguiria pregar o olho.
--- Diz ai o que aconteceu, tô curiosa.
--- Nada demais, Thomas só se declarou pra mim.
Quando percebi que ela ia gritar coloquei a mão na boca dela abafando o grito, ela não poderia ter uma reação diferente né, afinal meu irmão mesmo que só de criação, tinha se declarado pra mim, aquilo parecia mais uma história de filme.
--- p**a merda, ele fez isso?
--- Hunrum.
--- E você? Tá apaixonada por ele também?
--- Não, nem sei o que eu sinto, mas não é amor, talvez a minha mente esteja uma bagunça, toda essa confissão dele me deixou fora do eixo.
--- Hum, é exatamente assim que o amor nasce.
--- Não sei se seria uma boa.
--- Por que são irmãos?
--- Claro que não, ele não é meu irmão de sangue, não haveria problemas em me apaixonar por ele, é só que ele fez tanta coisa, não sei se seria capaz de perdoar ele por tudo, e mesmo que o amor dele seja realmente verdadeiro, ele se casou com uma mulher, será mesmo que me ama?
--- Complicado, de qualquer forma, mesmo que se apaixone perdidamente por ele, ainda assim vão ter que se conhecer e ser sinceros um com outro, só vai ter certeza do ele sente por você se permitir que ele mostre.
--- Nisso você tem razão.
--- Eu sempre tenho fofa.
Era isso, eu não estava apaixonada por ele e tudo continuaria como está, ainda não tinha nenhuma intenção em perdoar ele, e se um dia eu tivesse não iria pegar leve, ele também merecia ser desprezado, mesmo que por um curto período de tempo.