Thomas.
Dispenso apresentações, vocês sabem quem sou então, não é preciso dizer, uma apresentação seria perca de tempo.
Tanta coisa aconteceu nos últimos anos que fica até difícil de saber por onde começar, mas como toda história, tudo sempre começa pelo começo, vamos lá.
Eu fiquei no treinamento fechado até a maioridade, que no caso foi até os 18 anos, só entra ali pessoas corajosas, por que o inferno que é viver naquele lugar não tá escrito, pra sair dali com a alma inteira e uma luta infernal.
Eu na verdade tive muitos privilégios, filho da minha mãe, eles pegaram leve, mas quando eu me metia na injustiças de terceiros, era punido igualmente, força do meu pai e coração mole da mãe, eu não aguentava ver alguém apanhar sem ter feito nada.
Eu não cumpri a minha promessa de voltar para Késsia, mas não por falta de vontade, eu só não pude mais. Simplesmente por que depois de um tempo percebi que a amava, amava tanto que doía, e me sentir o pior homem do mundo por isso, afinal ela é minha irmã, e mesmo que não seja de sangue, eu não poderia fazer isso com os meus pais que me acolheu e me tratou como um filho, me sentia envergonhado em voltar para casa, e não tinha coragem para encarar a Késsia.
Passei todos esses anos sentindo amor por ela, apesar de todas as tentativas em esquecer ela, nenhuma deu certo, por isso não voltei, achei que fazendo isso eu esqueceria ela de vez e poderia olhar para os meus pais sem sentir a culpa de ama-la, mas o resultado foi que todo o sentimento ao invés de diminuir, aumentou ainda mais com toda a saudade que eu sentia, nada poderia mudar o que eu sentia por ela, meu amor já transbordava por ela.
Eu conheci Estéfane quando era muito novo, imaturo, e fiquei com ela com a mesma desculpa de esquecer a Késsia, no começo Estéfane era diferente, não sabia quem eu era, e o que eu tinha, não era do nosso costume dialogar, a conversa entre nós era baseada em sexo e sempre foi assim, nenhum tipo de sentimento ou afeto da parte de nenhum dos dois.
Mas aí, um dia ela descobriu como eu era, a primeira jogada dela foi a gravidez do Theo, uma bela jogada, conseguiu que morasse comigo, não aceitei me casar com ela, por que antes queria ter certeza que Theo era realmente meu filho, pra minha surpresa ele era.
Com o nascimento dele veio o nosso casamento, tudo foi rápido e simples, não havia amor nenhum, e ela só fazia aquilo pelo dinheiro, mas eu só descobri isso anos mais tarde, no momento eu só pensei que ela se casaria por causa do Theo, pra poder cuidar dele, mas me enganei.
Ao passo que Theo foi crescendo ela foi deixando ele de lado, não cuidava dele, não se importava com ele, e não queria nem mesmo vê-lo, nesse tempo tive que parar meu trabalho na máfia por algum tempo, e quem tomou conta dos negócios foi a mãe e o pai, eu não ia deixar meu filho jogado, então fiz o melhor que pude pra dar amor a ele, apesar de não ter feito isso bem, cuidei dele como pude, mas nunca fui um bom pai pra ele.
3 anos depois quem veio foi a Maya, era o anjo mais lindo que já tinha visto, e mais uma vez tive que parar novamente o trabalho pra cuidar dela, não me arrependo de ter meus filhos, pelo contrário, eles são os momentos mais incríveis da minha vida, e mesmo não havendo nenhum tipo de afeto entre mim e a mãe deles, são meus filhos e amo mais que tudo, eles não tem culpa pelos pais que tem.
O resultado de todo o desprezo que a mãe deu a ele, foi a maturidade de Theo cedo demais, ele cuidava da irmã quando eu tinha que trabalhar, mas eu só soube disse quando vi ele tentando esquentar uma mamadeira no microondas pra ela, só ali eu notei que nunca tinha sido um pai de verdade, só que nada eu fiz pra mudar toda aquela situação.
Naquele dia eu tinha conversado com a mãe e ela deu a idéia de eu ir morar na casa deles enquanto eles viajavam, veio com a desculpa de que Késsia trabalhava em casa e poderia cuidar deles, eu não podia recusar, por isso aceitei, não queria mais que meus filhos ficassem sozinhos em casa, e essa também foi mais uma atitude i****a minha, estava jogando as minhas responsabilidades para cima da Késsia, aquilo só provava que eu realmente nunca fui um bom pai.
E quando vi a Késsia pela primeira vez em anos, percebi que tudo que fiz me afastando completamente foi consegui que a mesma me odiasse, ela não olhou uma só vez em meus olhos, e a quem eu poderia culpar? Fui eu quem menti pra ela e não cumpri uma promessa que fiz, nada poderia ser pedido, eu tinha perdido a oportunidade de pedir algo, assim que quebrei minha promessa.
Senti meu coração se aquecer quando entrei pela porta e vi ela sentada no sofá assistindo desenho com as crianças, eles pareciam alegres, ela estava fazendo um papel que não era dela muito bem, e isso me fazia sentir ainda mais um filho da p**a.
Levi e eu somos donos de duas máfias diferentes, mas é como se fosse uma só, nós ajudamos um ao outro e sempre resolvemos os problemas juntos, alianças só são feitas de for com as duas máfias, caso contrário nenhum de nós aceita, o negócio é que assim nós conseguimos crescer mais ainda, e qualquer um que esteja no mundo do crime nos conhece, sabem da nossa fama, dois mafiosos pacíficos por fora, mas um só deslize e o que era pacífico se torna caótico.
Durante o treinamento eu fiz um amigo, ele também sempre ajuda a mim e ao Levi, nos treinamentos era ele que eu defendia, ele foi deixado no treinamento pelo pai, de início era ele quem assumiria uma organização pequena que o pai tinha, mas o mesmo desistiu e dei uma oportunidade para ele trabalhar comigo.
O nome dele é Oliver, ele e Levi são os únicos que sabem que tenho sentimentos por Késsia, mais cada um temos problemas, não ficamos o tempo todo falando sobre a vida amorosa um do outro, e na verdade nenhum de nós gosta de tocar nos assuntos relacionados a isso.
Nos últimos anos os únicos momentos bons que tive foi o nascimento dos meus filhos, por que a todo momento em todas as horas do meu dia meu pensamento sempre era a Késsia, e eu queria dizer pra ela que a culpa era toda minha, pedir desculpas, mas nada iria justificar o que eu fiz, mesmo que tenha me afastado pra tentar esquecer os sentimentos por ela, isso não era desculpa, e eu estava mais que ciente a respeito disso, eu não poderia inventar nenhuma desculpa.
Hoje era dia da compra de armas, sempre quem fazia as análises e sugeria o preço a ser pago era Késsia, Levi sempre ia sozinho mas dessa vez eu iria com ele, já tinha reencontrado a Késsia, todas as vezes que me recusei a ir foi simplesmente por que não queria vê-la, mas agora eu já tinha visto ela, não poderia mais escapar da minha obrigação.
Vesti meu terno, não era acostumado a roupas mais casuais, setenta por cento do meu dia eu passava de terno, gostava e me achava muito melhor em um terno, alguns se sentiam presos em ternos, mas eu não tinha esse sentimento de prisão.
Quando saí de casa não vi a Késsia, nem as crianças estavam por ali, suspeitei que ela tinha as levado, já que as cadeirinhas deles também não estava pela sala, sai de casa e peguei meu carro, dirigi em direção ao local.
Quando eu cheguei Késsia já estava analisando as armas, ela testava uma por uma e Levi estava logo ao lado só observando junto com o Oliver, como se fossem dois fiscais, deveriam ser eles a fazer a análise e não ela.
--- Olha só quem apareceu, é a primeira vez que comparece na compra de armas.
--- Ele não tem mais do que se esconder Oliver.
--- Menos, a voz de vocês da enjôo.
--- Mas a de uma certa pessoa não dá não é mesmo?
--- A dela é diferente, é mais doce e parece uma melodia de um anjo, ao contrário da de vocês, me lembra a voz de demônios.
Eu estava ao lado de Oliver, estávamos como em uma fileira, e eu era o último, só foi ouvido o disparo, e quando virei para olhar Késsia, a bala raspou na minha orelha, um pequeno pedaço foi junto com a bala, pra minha sorte ela tinha uma ótima mira, ou o que tinha ido junto com a bala não seria um pedaço da orelha e sim meu olho esquerdo, sua mira era tão boa quanto a minha, não esperava por isso.
--- Essa aqui é muito boa.
Simplesmente ela falou isso, e os dois babacas do meu lado riam de minha cara de bobalhão, quem iria esperar que ela atiraria contra mim? Realmente eu subestimei ela, mas foi merecido, só que uma babá escorreu do canto da minha boca, ela ficava bonita até mesmo apontando uma arma contra mim.
Peguei um lenço e coloquei na orelha, escorria um pouco de sangue, nada demais, tinha sido um tiro somente de raspão, em poucos dias estaria melhor.
Ela escolheu arma de todo tipo, potente, leve, porte pequeno grande, e entre muitas outras, as escolhas dela sempre eram precisas, nunca chegou nenhuma arma na máfia que fosse r**m, afinal, ela sabia escolher muito bem.
Depois de selecionar as armas ela caminhou em minha direção, seus olhos eram de puro ódio, mas meu coração acelerou, eu era maluco ou o que? Me sentia a apaixonado até mesmo quando ela olhava pra mim com aquele olhar de " quero matar você".
--- As crianças estão na casa da tia Lívia, busque elas.
Ela só falou isso e saiu sem esperar nenhuma resposta, e eu? Eu só fiquei de boca aberta, ela tinha direcionado alguma palavra a mim, e eu estava mais que feliz, mas parece que aquele dia eu estava fantasiado de palhaço, ouvi as risadas dos dois ao meu lado, eu realmente deveria tá com a boca aberta demais ou algo do tipo.
--- O jeito que você fica bobo até quando ela te dá um tiro é surreal.
--- Isso só mostra que o amor é lindo Levi.
Nem dei corda, peguei o carro e fui buscar as crianças.
Quando cheguei eles brincavam com o tio e a tia no tapete da sala, quando os dois olharam para a porta e viram que era eu nem ligaram, se antes eu não tinha importância, agora é que eu não tinha mais mesmo.
--- Ei, esqueceram mesmo o pai de vocês?
--- Onde tá a tia Késsia papai?
Era ela que eles esperavam e não eu, perdi meus filhos, agora não tinha ninguém, bem feito, a culpa era toda minha por isso.
--- Ela teve que ir resolver algumas coisas, vamos pra casa?
Os dois me acompanharam depois de se despedir dos tios, coloquei eles na cadeirinha no carro e os dois foram em silêncio pra casa, realmente eu decepcionei sendo eu a ir buscá-los, dava pra ver nitidamente que eles preferiam a Késsia.
Desci eles do carro e eles entraram em casa, como não iria trabalhar mais hoje, decidi brincar com eles um pouco, os momentos que fazíamos isso era raro, eu sempre estava no trabalho.
O trabalho sempre tomou o meu tempo, mas a culpa era minha por não saber organizar, era difícil eu dar atenção aos meus filhos, e a culpa sempre era minha, era por isso que eles nunca se importavam quando eu prometia algo e não cumpria, acho que já esperavam e escolheram se acostumar pra nao ter que se decepcionar tantas vezes, cumprir promessas não era meu forte, soube disso pela Késsia.
Depois se um longo tempo brincando a porta foi aberta e as crianças correram para os braços de Késsia, ela quase caiu com o impacto.
--- Hum, que boas vindas calorosas. Que tal um banho? Estão começando a feder e eu também.
As crianças deram gargalhadas, e eu sorri, eles realmente gostavam muito dela, ninguém tinha dado tanta atenção pra eles antes.
Ela subiu com eles, e mais uma vez ela nem mesmo vacilou em olhar pra mim, e suspeitei que nunca olharia, eu era o pior o****o.
Fui tomar um banho também, Estéfane estava esparramada na cama, já era quase horário de almoço e ela estava ali dormindo, quando eu digo que ela nunca cuidou dos filhos, o motivo são as compras, festas, luxos, tudo ela põe em primeiro lugar, menos os filhos dela, eu não era melhor que ela, mas uma mãe era mãe, eu sempre achei que mães eram mais importantes aos filhos, não que os pais também não fossem, eu só pensava diferente.
A mesma começou a abrir o olho quando bati a porta, peguei uma toalha e segui pro banheiro, só deu tempo de ligar o chuveiro, ela entrou e me abraçou por trás alisando meu peitoral.
--- Cai fora Estéfane, sem humor pra você.
--- Só uma rapidinha amor.
No nosso relacionamento era raro os dias que a gente fazia sexo, eu não ligava, nunca desejei ela realmente, e ela só me procurava para aquilo quando queria algo, e sempre era uma coisa que não gostava no final das contas.
--- Sem essa, fala logo o que você quer e sai daqui.
--- Uma amiga foi expulsa de casa, pode deixar ela ficar aqui?
Porra véi, essa mulher só consegue me fazer raiva, quando eu digo que ela só me procura pra t*****r quando quer uma coisa séria é disso que falo, nada do que sai da boca dela é coisa boa.
--- Não mesmo, manda tua amiga se virar, ela não trabalha?
--- Ai amor fala sério, que mulher trabalha hoje em dia tendo um homem pra bancar?
--- Só mesmo as vagabundas Estéfane, é bom sair fora, ninguém vai morar mais aqui, e se eu souber que colocou ela na minha casa, o negócio vai ficar feio pro seu lado.
Ela saiu emburrada batendo o pé, nem ligo mais pra essas birras dela, p***a só pensa em gastar dinheiro e ficar luxando pra todo lugar, de verdade, eu tinha prazer em bancar se fosse uma mulher diferente, o negócio de Estéfane é que o dinheiro pra ela é tudo, nada pra ela é mais importante que isso, e ela não tá nem aí em torrar todo dinheiro do mundo se isso fizer ela ser elogiada pelos "amigos" que tem.
Tô começando a me cansar dela, só me trás problema, não quer nada com a vida, vou fazer o que com uma mulher dessa? Na verdade nem sei por que me casei com ela, talvez naquela época eu estivesse desesperado demais, não posso colocar a culpa de tudo em cima dos meus sentimentos pela Késsia, foi só um erro meu mesmo, e dos feios, eu precisava concertar mais ainda era só um covarde do c*****o.