Sofrimento.

1583 Words
Thomas Melissa tinha passado dos limites, jogar a Késsia em cima de uma mesa de vidro foi a gota d'água. O corpo da Késsia tinha sido perfurado pelos cacos, ela estava chorando mas eu sabia que não era pela dor das perfurações. --- Leva ela pra casa Bruno, por favor. Minha mãe não queria ter que brigar com a Melissa também, dava pra perceber que ela iria voar no pescoço dela a qualquer momento. Tio Bruno estava triste pela atitude da filha e pediu desculpas mil vezes, mas a tia Mariane puxou ele pra ir embora, naquele momento nenhuma desculpa adiantaria. Késsia tinha caído de costas em cima da mesa, por isso os cacos só tinha perfurado a parte de trás, o médico já tinha sido chamado. Me sentei ao lado dela no sofá, o choro dela era sofrido, estava doendo em mim também. --- Vai ficar tudo bem. Eu não esperava aquilo, mas ela me abraçou, eu não podia mexer muito nela então apenas fiquei quieto, enquanto ela chorava encostada no meu peito. Quando o médico chegou ele primeiro examinou a situação. --- Ela precisa se levantar do sofá. A mãe tentou puxar ela pra se levantar, mas ela não quis, continuou agarrada em mim. Com todo o cuidado do mundo me levantei com ela, ficamos de pé um em frente ao outro, ela ainda não tinha me soltado. O médico cortou a blusa dela, e foi tirando caco por caco, a cada pedaço tirado ela gemia e o choro aumentava, eu fechava os olho a cada vez que ela fazia isso. Em alguns lugares ele teve que dar pontos, mais uma vez ela ficaria em repouso por um tempo. Dessa vez os cuidados seriam dobrados, os cortes eram nas costas, o risco de abrir seria ainda maior, tínhamos que ficar de olho nela o tempo todo. Voltamos pra casa no meu carro, ela custou a me soltar mas com muita insistência consegui. Eu ajudei ela a descer do carro, coloquei ela na cama e ajeitei cuidadosamente, fiquei ali com ela fazendo carinho no cabelo, bem devagar, só assim ela dormiu. Depois que ela garrou no sono fui tomar banho, dei banho nas crianças também e organizei os dois na cama, iam dormir comigo. --- Papai, a titia vai ficar bem? Maya já tinha dormido, mas Theo continuava com os olhos bem abertos. Quando a briga começou os dois estavam fora da sala, mas no momento que Melissa jogou Késsia em cima da mesa Theo presenciou. --- Ela vai ficar bem se você dar muita atenção e carinho pra ela esses dias. --- O senhor também tem que fazer isso papai. --- Eu farei filho. Pensando agora não sei como consegui viver tanto anos longe da Késsia, ela deve ter tido muitos momentos em que precisou me agarrar como hoje. Nunca me cansaria de dizer a mim mesmo que eu era o pior homem que existia. Theo logo dormiu depois da nossa conversa, e eu fui dormir também. Antes mesmo de amanhecer eu já estava de pé, fui até o quarto da Késsia, analisei como estava a situação dela. Ela dormia como um anjo, nem mesmo se mexia, e ainda bem que não. Sai do quarto dela e fui em direção a cozinha, meu pai estava lá, os olhos dele estavam distantes. --- Tá tudo bem pai? --- Tô bem garoto, só não vou me acostumar a ver minha cria machucada. Ele falou aquilo quase chorando, meu pai dificilmente chorava, mas quando o assunto era família era diferente. --- Já é a segunda vez que vejo ela se machucar tão grave, mas parece que ainda é a primeira. Uma lágrima desceu e ele secou rapidamente, dava pra notar o sofrimento dele, e eu não estava em uma situação tão diferente assim. --- A Késsia é forte pai, foi e o senhor e a mãe que criaram ela, não tem como evitar para sempre que ela se machuque, mas tenho certeza que ela vai se sair bem. Não tinha como fazer com que a Késsia nunca se machucasse, seria difícil fazer isso quando é assassina de aluguel e faz parte de uma família de mafiosos. Mas ela era forte, tão forte quanto a mãe era quando tinha a idade dela. --- Ter filho é bom mas dá trabalho, olha vocês dois, depois de adulto, ainda fazem esse velho aqui chorar. --- Para com isso Felipe, cê fica péssimo chorando. --- Me deixe ao menos chora pelos machucados da minha filha Angel. Era bom ver como meus pais formavam um casal incrível, depois de tantos anos, tantas coisas aconteceram, e os dois continuam juntos. Minha mãe foi preparar o café da manhã e eu fui olhar se as crianças estavam acordadas. Abri a porta e eles não estavam ali, só poderiam estar no quarto da Késsia. A porta do quarto dela estava entreaberta, Theo e Maya conversavam baixinho com ela, como se não quisessem que ninguém escutasse. --- Mamãe tá dodói teté. --- O papai disse que temos que dar atenção e carinho a ela, assim a dor passa logo. --- Verdade mamãe? --- Claro meu amor, só vou melhorar se me darem muito carinho e atenção. --- Então papai vai ficar só. --- Vão mesmo me abandonar assim tão rapidamente? Os três olharam pra mim e sorriram. --- Perdeu eles pra mim a muito tempo, não foi meus bebês? --- Hunrum. Os dois falaram juntos e soltaram mais uma gargalhada infantil. --- Pro banho, a Késsia vai tomar banho também. Os dois correram para o quarto e eu fui com eles. A mesa estava repleta de comida, um pouco de tudo, já que o gosto de todos era diferente. A louça e limpeza tinha sobrado pra mim, eu não gostava muito de organização, mas não podia fazer nada. Limpei tudo, lavei e guardei as louças e organizei tudo que estava fora do lugar. Enquanto eu estava organizando a cozinha os três estavam na sala assistindo desenho. Me juntei a eles também, não gostava de desenho mas era um momento de família. Passamos quase a manhã toda ali, só deixamos de assistir quando as crianças se cansaram e quiseram brincar. Késsia continuou sentada, acho que dóia quando ela andava também. --- Thomas, pode ir pegar meu notebook e os papéis que está sobre a mesa do meu quarto? --- Já volto. O quarto da Késsia era extremamente arrumado, cada coisa em seu devido lugar. Não era como o meu que sempre tinha roupas sujas pelo chão e papéis jogados pela mesa. Peguei o que ela pediu e sai do quarto fechando a porta atrás de mim. Coloquei tudo na mesinha da sala. --- Obrigada. --- Me chama se precisar de mais alguma coisa. --- Preciso de água. Como eu estava sem fazer nada não era difícil eu ajudar ela. Fui buscar a água, trouxe um copo de vidro qualquer que encontrei na cozinha. --- Esse copo não, o que tem canudo. Voltei novamente, naquele instante minha mãe estava rindo de mim, e eu não entendi o motivo. --- O que? --- Nada, continue o que está fazendo. Peguei o copo que ela pediu e voltei pra sala, coloquei em cima da mesinha. Ia saindo da sala para ver como as crianças estavam. --- Coloca a água no copo Thomas, por favor. Eu parei, é não custava nada eu ser o servo dela esses dias. Era isso que estava parecendo que eu seria. Andei de volta até ela e coloquei a água no copo, coloquei a tampa e ofereci o canudo pra ela. A bonita bebeu sem nem olhar pra mim, me tornei um mordomo mesmo. --- Tá ocupado? --- Não. --- Pode me ajudar? --- Claro. Também não era difícil eu ajudar ela no trabalho, eu já tinha feito isso antes, não seria problema. Ela ia me passando os resultados, eu ia anotando, preenchendo as planilhas e tudo mais. Seria um trabalho longo, já que a pilha de papéis ali parecia ter no mínimo trinta centímetros. Eu queria ter parado pra almoçar, mas Késsia disse que funcionários dela não tinha horário de almoço. Pois é, além de não receber, servir ela com o que ela precisar, eu ainda não tinha horário de almoço. Eu jamais em toda minha vida iria desejar um trabalho desse. Se um dia eu já reclamei do meu trabalho não me lembro, eu amo ele de coração. Quando finalizamos já era noite, e um pouco tarde até, ao menos tudo estava terminado, o ritmo de trabalho dela é insano. --- Tô quebrada. --- Se você que está acostumada a isso está assim, imagina como eu estou. --- Desculpa, peguei pesado. Ela fez uma expressão de sapeca, eu tive certeza que ela estava fazendo tudo aquilo só pra me punir. --- Não está fazendo isso só por rancor a mim né Késsia? --- Eu? Imagina, não guardo mágoas de ninguém. --- Percebi isso desde que voltei. Era bom estar assim com ela. --- Aliás, quem era aquele cara com a Estéfane na festa? Conhecido seu? --- Quase isso, um traidor, Oliver me avisou. --- Oliver parece ser o mais bem sensato dos três. --- Gosta dele Késsia? --- Ele é um cara legal, mas não tenho interesse, mesmo se tivesse, ele gosta da fruta que eu gosto. --- Como? --- Que bons amigos são, está com ele a mais de dez anos, o conheço a poucos meses e sei muito mais que você. Eu não tinha culpa de ser tão desligado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD