Capítulo 1 - Aurora Monteiro
O sol estava escandalosamente perfeito, daqueles que pareciam ter contrato exclusivo com o verão e não aceitavam folga nem no meio da semana. Eu, Aurora Monteiro, filha de um empresário que jurava ser um gênio dos investimentos, estava estirada numa espreguiçadeira de frente pra piscina do Clube Imperial. Um drink rosa na mão, óculos enormes no rosto e a falsa sensação de que a vida ainda fazia sentido.
— Se existisse um campeonato de sossego, você ganharia, — comentou Lívia, minha melhor amiga e também a pessoa mais exagerada que já conheci. — Eu aposto que você tá dormindo com os olhos abertos.
— Tô meditando — respondi, sem me dar ao trabalho de abrir os olhos. — É diferente. É uma prática espiritual avançada. Requer foco… e gelo suficiente pra manter o drink gelado.
Lívia gargalhou, aquele tipo de risada que fazia todo mundo olhar. Sempre foi o tipo de mulher que chamava atenção sem pedir licença: bronze impecável, cabelo loiro de comercial de xampu e roupas que custavam mais do que meu carro, ou o que sobrou dele depois do último conserto.
— Se isso é meditação, então eu sou monja, — ela provocou, mexendo no canudo da própria bebida. — E me diz, ô guru espiritual, ainda tá de greve dos homens?
— Tô aposentada. — Dei um gole no cosmopolitan. — O mercado tá saturado, e o material humano é de péssima qualidade.
— Ah, mas olha aquele ali. — Ela apontou discretamente para um cara que saía da piscina. — Me diz que você não quer reconsiderar sua aposentadoria.
Olhei. Erro fatal.
O sujeito era o tipo de homem que vinha com alerta de perigo: bronzeado, ombros largos e aquele sorriso de quem sabe que é bonito e usa isso como arma de destruição emocional em massa.
— Típico. — Revirei os olhos. — Filho de algum empresário metido a gênio. Provavelmente se chama Eduardo, dirige um carro caríssimo e acha que flores substituem caráter.
— A gente devia fazer um estudo sobre esse trauma que você tem com homens ricos — ela disse, rindo. — Acho que começou quando aquele seu ex sumiu depois de te chamar pra jantar.
— Ah, aquele foi um acidente de percurso — falei, fingindo leveza. — Acontece. Eu confundi charme com caráter, acontece com as melhores.
Ela gargalhou de novo. Eu sorri. Mas lá no fundo, um nózinho incômodo se mexeu, aquela sensação de que a vida estava prestes a aprontar alguma. Eu só não sabia o tamanho da bomba.
— Então, senhora "não-nascida-para-o-drama", — ela debochou, tirando os óculos. — Me diz: qual seria o homem ideal pra você?
— Fácil — respondi, sem pensar. — Um que não me dê dor de cabeça, não tenha empresa falindo e saiba preparar café sem tutorial no YouTube. E que me ame, é claro.
— Uau, as exigências estão baixas. — Ela riu. — Então é por isso que você tá solteira.
Dei um gole no drink, ergui as sobrancelhas.
— É por isso e porque o universo tem um senso de humor peculiar comigo.
Passamos a tarde assim: rindo, fofocando e fingindo que éramos duas mulheres que tinham tudo sob controle. Até que o sol começou a se despedir e decidimos ir embora.
— Eu pago — disse, pegando minha bolsa. — Já que da última vez você pagou o jantar.
— Tá, mas vê se não derruba o cartão dentro da piscina dessa vez — ela brincou.
Sorri, confiante. Peguei o cartão dourado, aquele que, teoricamente, significava segurança, status e o privilégio de não se preocupar com boletos. Aproximei da maquininha com a classe de quem tem limite para gastar e consciência limpa.
A maquininha apitou.
Depois piscou.
Depois apitou de novo.
O garçom me olhou com um sorriso amarelo.
— Senhorita… seu cartão foi recusado.
Eu pisquei de volta.
— Desculpa, o quê?
— Recusado, senhorita.
Ri, porque o riso é a última defesa antes do colapso.
— Ah, deve ser erro do banco. O sistema tá sempre de TPM nesses dias.
Tentei outro cartão.
Apito.
Silêncio.
Mais um sorriso constrangido.
Lívia arqueou uma sobrancelha.
— Deu problema?
— Não, imagina! — respondi, sorrindo como quem está prestes a enlouquecer. — Só uma falha técnica temporária do universo.
Tentei mais uma vez.
Nada.
O garçom agora segurava a maquininha como se fosse um juiz prestes a anunciar minha sentença.
Peguei o celular, fingindo calma.
— Vou ligar pro meu pai. Ele resolve.
Chamada.
Caixa postal.
De novo.
Caixa postal.
— Ele deve estar… ocupado — murmurei.
Lívia encostou o cotovelo no balcão, observando a cena com um sorriso divertido.
— Quer que eu pague?
— Nem pensar! — falei, tentando manter a dignidade. — Já basta o que você pagou de terapia comigo. Isso é questão de honra.
— Aurora, é só uma conta de drinks.
— Justamente. É questão de princípios. Eu tenho um nome a zelar.
— Sim, o mesmo nome que o banco acabou de rejeitar. — disse o garçom, me constrangendo.
Bufei, sem entender o que estava acontecendo.
— Tá bom, vai, paga logo antes que ele chame a polícia.
Ela digitou a senha com a naturalidade de quem já salvou minha pele antes.
— Pronto. Considera um investimento. Quando você for bilionária, me compra um iate.
— Eu te compro um bar — retruquei. — Assim você não precisa sair dele nunca mais.
Saímos do clube rindo, o tipo de riso que serve para disfarçar o pânico. O sol já começava a se esconder atrás das palmeiras, e eu sentia um aperto no peito que não sabia explicar.
— Ei, — ela disse, enquanto caminhávamos até o carro. — Tá tudo bem?
— Claro! — menti com convicção. — Foi só um bug bancário. Amanhã tá tudo resolvido.
— Tá bom, mas se quiser, eu posso ligar pro gerente do meu pai, ele…
— Nem pensar. — Forcei um sorriso. — Eu só preciso descobrir por que o sistema financeiro decidiu me boicotar hoje.
Entramos no carro e demos partida. No rádio, tocava uma música absurdamente alegre, como se o universo tivesse vontade própria de debochar de mim.
— Talvez seja um sinal divino pra você parar de gastar — ela disse, rindo.
— Ou pra eu começar a casar com CEOs — respondi no mesmo tom.
Ela gargalhou.
— Ah, claro. Porque isso daria super certo.
— Sim, imagina — continuei, encenando. — Eu, casada com algum homem arrogante, mandão e emocionalmente disfuncional? Seria o fim da humanidade.
Lívia me olhou e sorriu.
— Às vezes, o fim da humanidade começa com um “sim” m*l dado.
Revirei os olhos, mas não consegui deixar de rir. E talvez tenha sido ali, naquele fim de tarde, com a conta do cartão recusada e o ego ligeiramente amassado, que tudo começou a mudar.
Só que eu ainda não sabia. Ainda acreditava que o universo só estava brincando comigo.
Mal sabia eu que ele já tinha escrito o roteiro inteiro e o papel principal era meu.