Capítulo 1
Capítulo 1
Giovana narrando
Pego os bombons que estão em cima da minha mesa e jogo um na direção de Lucas.
Ele pega no ar e sorri.
— Valeu, doutora.
Bate na minha mão antes de abrir a embalagem.
Trabalho na penitenciária há alguns meses e, de vez em quando, trago alguns doces para os internos que passam pela enfermaria. Tudo comprado com o meu dinheiro, porque, obviamente, o governo não vai gastar um centavo para adoçar a vida de quem está preso.
Talvez eu seja trouxa.
Ou talvez só seja viciada em chocolate e tenha facilidade para sentir pena dos outros.
Se eu gosto de um bombom depois de um dia r**m, por que eles não gostariam?
Claro que existe um critério.
O senhor Arnaldo, que vive secando minha b***a toda vez que passa pela enfermaria, nunca ganhou nem um chiclete.
Os m*l-educados também não.
E muito menos Souza.
Na última vez que resolvi ser simpática, ele comeu o bombom, amassou a embalagem e jogou na minha cara.
Desde então, risquei o nome dele da lista de beneficiados.
Cruzo os braços enquanto observo Lucas.
— Essa é a quarta vez que eu te costuro só essa semana.
Ele faz uma careta.
— Você fala como se a culpa fosse minha.
— E não é?
— Claro que não.
— Lucas...
— Você não pode me culpar porque resolveram me esfaquear.
Seguro a risada.
— Talvez parassem de tentar te matar se você deixasse de provocar todo mundo.
Ele abre outro sorriso.
— Eu só falei que ia comer a mãe do cara.
Balanço a cabeça.
— Você falou isso para um homicida.
— Os caras não sabem brincar. Eu seria um padrasto excelente.
Dou uma gargalhada.
— Você tem um talento impressionante para arrumar confusão.
— É um dom.
— É um problema psicológico.
Antes que ele responda, a porta da enfermaria se abre.
Um dos agentes entra acompanhado de outro detento.
Assim que bato os olhos nele, meu bom humor desaparece.
Ah, não...
Maldito Souza.
— O que aconteceu? — pergunto, caminhando na direção dele.
Levanto a mão para examinar o ferimento no abdômen, mas ele dá um passo para trás.
— O que tu tá fazendo aqui?
A cara fechada dele faria qualquer pessoa recuar.
Menos eu.
Cruzo os braços.
— Pegando um bronze.
O agente me lança um olhar de reprovação.
Forço um sorriso.
— Desculpa.
Volto a encarar Souza.
— Estou cobrindo a outra enfermeira. Ele precisou faltar hoje.
Mentira.
Na verdade, ele estava de folga.
E eu fui i****a o suficiente para aceitar uma hora extra.
Souza continua me olhando como se minha simples existência fosse um incômodo.
Conheço aquele tipo.
O homem não sabe sorrir.
Não sabe agradecer.
E, pelo visto, também não sabe ser educado.
— Vai continuar me encarando ou vai deixar eu ver esse machucado?
Ele solta um suspiro impaciente.
— Não era para você estar aqui.
Inclino a cabeça.
— Engraçado.
Calço as luvas descartáveis.
— Eu estava pensando exatamente a mesma coisa.